Comportamento

Liv Resenhas cria clube do livro e impulsiona a literatura entre os jovens

Influenciadora literária, Lívia Reginato aposta em curadoria, comunidade e experiências para aproximar jovens dos livros

Tem algo acontecendo com os jovens e os livros. Não é novidade para quem frequenta o TikTok literário, o BookTok, que transformou títulos esquecidos em best-sellers da noite para o dia e fez autoras como Colleen Hoover venderem milhões de cópias sem nenhum esforço de marketing tradicional. No Brasil, o fenômeno chegou com força. Comunidades no Instagram, no YouTube e em grupos de WhatsApp reúnem leitores que nunca se reconheceram naquele estereótipo da pessoa quietinha, sozinha, com óculos e nariz enfiado num livro grosso. A nova geração de leitores não abre mão da experiência coletiva, quer comentar, discutir e sentir com outras pessoas.

É nesse lugar que nasce o Clube do Livro da Liv Resenhas, anunciado em parceria com a TAG Experiências Literárias. Lívia Reginato tem 23 anos, mora no Brasil e acumula um público fiel no Instagram e no YouTube. Filha de professora, ela não consegue se lembrar de uma época em que os livros não estivessem presentes na própria rotina. Mas há uma diferença entre crescer com livros e escolhê-los como vocação, e essa virada aconteceu num momento de dor.

“Eu era uma adolescente muito deprimida. Então eu me perdi um pouco dessa paixão pela literatura e ela entrou de novo na minha vida nessa vontade. Quem tem essa sede por literatura não consegue ficar sem falar de livro. E aí eu percebi que eu estava lendo muito livro bom e eu não tinha com quem falar.”

Foi a pandemia que, paradoxalmente, devolveu à Liv a razão de ser do que ela faz hoje. Em 2020, enquanto o mundo parava, ela criava o perfil Livro Resenhas e ali consolidava um projeto que hoje, seis anos depois, é seu trabalho, sua plataforma e, aparentemente, sua missão.

Pergunte à Liv o que torna a leitura insubstituível e ela vai te dar uma resposta que vai além do óbvio. Não é sobre vocabulário, não é sobre ser culto. É sobre algo mais visceral, os livros se tornam companheiros. “Eu acho que, quando a gente é mais jovem, a gente vê a literatura como uma forma de escapismo. E aí, conforme você vai ficando mais velho, você usa a literatura como um exercício de empatia e começa a ser sobre entendimento. As leituras vão, de certa forma, funcionando como um exercício simpático mesmo de você entender os seus pensamentos, os pensamentos à sua volta”, destaca. 

O acesso à mente de outra pessoa é algo específico do romance, do conto, da narrativa em primeira pessoa, e o cinema raramente consegue replicar. “Quando a gente vê filmes, por exemplo, na maioria das vezes você não consegue pensar o que o personagem está pensando. Uma boa atuação consegue transcrever isso, mas entrar na mente de outra pessoa é muito pessoal e é muito bonito, e a literatura tem esse poder também”, ressalta. 

É por isso que o clube nasceu com a frase que abre seu site: "A vida não vem com manual, mas pode vir com livros." Não como slogan de marketing, mas como crença genuína de que existem livros compatíveis com as situações que cada um vive. “Existe um livro sobre isso, ou existe uma personagem passando por isso, ou existe uma personagem pior do que você passando por coisas piores”, ela diz. Para Liv, a literatura é o lugar onde os sentimentos encontram palavras e isso, por si só, já é muito.

Uma curadoria que parece uma viagem

O clube começa em agosto de 2026, com 9 livros distribuídos ao longo de 12 meses, alguns títulos ganham dois meses de leitura compartilhada por conta da extensão ou da densidade. A seleção foi construída com intenção clara de misturar o palatável com o denso, o nacional com o internacional, o consagrado com o inédito.

O primeiro livro é A morte do Idol, um thriller psicológico coreano inédito no Brasil que mergulha no submundo do K-pop. “O processo do clube foi muito estratégico. O primeiro livro é um suspense, um thriller, porque eu acho que é um ótimo gênero para você ficar preso no livro, engajado, terminar de ler rápido. A pessoa vai se animar, falando assim: ‘nossa, como isso aqui tá gostoso’, porque é muito fluido mesmo ler suspense.”

Depois vem A casa das memórias, ficção LGBTQIA+ holandesa que Dua Lipa apontou como leitura essencial para 2026, inédita no Brasil. E também Amanhecer na colheita, o novo livro da série Jogos vorazes, que virou fenômeno no BookTok e cujo filme está previsto para estrear em breve. A combinação foi pensada para ser uma curadoria que quer que o leitor se surpreenda, que tente um gênero que nunca tentou, que saia do óbvio sem sentir que está sendo desafiado além da conta.

A pluralidade geográfica foi consequência, não ponto de partida. “Para mim era muito importante que a gente não tivesse só autores brancos, e para mim era muito importante que não tivesse só livros internacionais. É um clube do livro feito por uma mulher brasileira e precisa ter brasilidade nesse clube do livro”, afirma. Mas, ao olhar a grade finalizada, Liv percebeu que cada livro carrega a identidade cultural de onde veio. “Ler é, querendo ou não, um retrato muito sociocultural, e o local de onde a gente vem traz muito da nossa cultura, da nossa essência.”

Além dos livros

O que diferencia o Clube do Livro da Liv de qualquer grupo de leitura tradicional está na camada de experiência que envolve cada título. A lógica é que, se a literatura toca todos os âmbitos da vida, a experiência de leitura também deveria fazer isso.

Cada ciclo começa com um vídeo da Liv apresentando a leitura do mês. Depois vem um cronograma sugerido. Ao longo das semanas, os assinantes acessam conteúdos complementares sobre autor e obra, uma live “zero literária” (o primeiro mês, com o livro coreano, vai ter uma oficina de matchá e uma palestra de uma autora que começou no mundo do K-pop) e uma live principal com um convidado especial. O ciclo fecha com uma newsletter de curadoria de arte, com obras, cinema e literatura, relacionadas ao livro do mês.

Quando Amanhecer na colheita entrar na grade, Liv quer fazer uma palestra sobre mulheres na política. Para o livro sobre a China, Guerra da Papoula, já está confirmada uma aula com um professor de história. A leitura, no clube, é pretexto para entender o mundo.

“Eu queria que fosse uma experiência de sentir que a leitura pode ser muito legal”, ela diz. “Eu vejo muito que o clube do livro não é tão atrativo para uma galera de 18 a 25 anos, às vezes, porque parece uma parada de tipo: ‘tá, eu vou ler o livro e falar o que eu achei'”, acrescenta.

Três nomes já confirmados deixam claro o nível de ambição do projeto. V. E. Schwab, autora de A vida invisível de Addie LaRue e das séries Vilão e Um tom mais escuro de magia, é um dos maiores fenômenos da ficção contemporânea mundial. Stefano Volp, autor de Homens pretos não choram e O beijo do rio, representa o melhor da nova literatura brasileira. Tia Williams, autora de Sete dias em junho, hit absoluto do TikTok, e A escolha perfeita, que virou série na Netflix, fecha o trio com o peso do romance moderno e da escrita crua.

Sobre a Schwab, Liv tem um afeto especial: “Ela é uma das minhas autoras favoritas. E eu acho que ela consegue escrever para um público jovem com uma complexidade, com uma densidade surpreendente.” O livro dela no clube, Enterre nossos ossos à meia-noite, é um dos que Liv ainda não leu e vai descobrir junto com os assinantes.

O comentário que ela não esquece

Quando lançou o clube, Liv recebeu questionamentos sobre sua credibilidade, algo que não esperava. Não sobre a curadoria. Não sobre os livros escolhidos. Sobre o direito de fazer o que estava fazendo.

“Quando eu lancei o Clube do Livro, eu recebi alguns comentários muito misóginos. Alguém perguntou do que você é formada? Qual é a sua especificação para poder fazer isso? E eu queria trazer muito esse ponto, porque, assim, faz seis anos que eu estou trabalhando no mercado literário.”

O comentário não chegou sozinho. Veio acompanhado de um padrão que Liv reconhece bem, que mulheres precisam justificar o que fazem de forma que homens não precisam. Outros criadores com clubes do livro não foram questionados sobre suas especializações. Ela foi.

“A gente não consegue olhar para as mulheres e ver os hobbies como algo bonito e complexo. Isso é algo que eu quero que seja muito gostoso no Clube do Livro, de ver esse grupo de mulheres amando esse mesmo hobby e sentindo muito sobre isso de um jeito muito legal”, destaca. 

Para Lívia, o clube é exatamente para a pessoa que já se sentiu constrangida por achar que não é leitora de verdade, que não tem tempo, que vai ficar para trás, que não é inteligente o suficiente para os livros certos.

“As pessoas acham que elas precisam ser superinteligentes, supercultas, superestudadas. E óbvio que isso é mágico, isso é lindo. Mas a literatura também pode ser divertida, pode ser bonita de se ver, pode ser gostosa. Eu queria que fosse uma coisa que desse um brilho no olhar de quem estivesse ali consumindo”, define. 

A pré-venda está aberta. As caixas chegam até 30 de julho. A primeira leitura começa em 1º de agosto.



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