Você provavelmente já viu — ou até consumiu — algum produto com os selos fit, zero açúcar ou high protein. O que estava restrito ao universo das academias agora ocupa corredores inteiros de supermercados, cafeterias e até redes de fast food. Milk-shakes proteicos, energéticos com whey, brownies fitness, chocolates enriquecidos com proteína e bebidas zero passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasileiros, principalmente entre os mais jovens.
A proteína virou uma espécie de tendência no dia a dia. Antes visto apenas como um nutriente essencial para o funcionamento do corpo, passou a ser associada diretamente à ideia de saúde, emagrecimento, estética e desempenho físico. Nas redes sociais, influenciadores exibem refeições hiperproteicas, suplementos alimentares e rotinas focadas em atingir metas diárias de proteína, criando a sensação de que consumir mais do nutriente representa automaticamente uma vida mais saudável.
O movimento acompanha uma mudança da própria indústria alimentícia. Se antes os produtos light e diet dominavam o mercado fitness, agora o destaque está nos alimentos com proteína adicionada. O selo high protein passou a funcionar como um argumento de venda poderoso, capaz de transformar sobremesas, snacks e bebidas industrializadas em produtos associados ao bem-estar e à alimentação equilibrada.
A tendência já chegou até ao fast food. Nos últimos meses, milk-shakes proteicos, energéticos com adição de whey e sobremesas com proteínas adicionadas ganharam espaço nas campanhas publicitárias e nas redes sociais. O fenômeno acompanha uma crescente valorização da cultura fitness e do chamado estilo de vida saudável, impulsionado principalmente pelo TikTok e pelo Instagram.
Mas há um lembrete: a relação entre proteína e saúde não é tão simples quanto parece nas embalagens. Apesar de ser fundamental para músculos, hormônios e diversas funções do organismo, o excesso pode trazer consequências e criar uma percepção distorcida sobre alimentação saudável.
Dieta equilibrada
Segundo o pós-graduado em nutrologia e medicina do esporte Anderson Clayton Sant'Anna, a maior parte das pessoas consegue atingir as necessidades diárias de proteína apenas com uma alimentação tradicional e equilibrada. "O consumo de produtos 'high protein' não é obrigatório para uma dieta saudável. O mais importante é a qualidade global da alimentação, e não apenas a quantidade de proteína isoladamente", afirma.
O especialista explica que alimentos comuns e acessíveis continuam sendo suficientes para suprir as necessidades nutricionais da maior parte da população. Ovos, leite, queijo, carnes, peixe, frango, feijão, lentilha, grão-de-bico e soja permanecem entre as principais fontes proteicas presentes no cotidiano dos brasileiros, mesmo em meio à popularização dos suplementos. "O tradicional arroz com feijão, por exemplo, possui ótimo valor nutricional e fornece uma combinação importante de aminoácidos", destaca. Segundo Anderson, quando associado a outras fontes alimentares ao longo do dia, o prato se torna ainda mais completo do ponto de vista nutricional e continua sendo uma das bases mais importantes da alimentação brasileira.
- Leia também: Exercitar-se para não esquecer: saiba a importância da memória muscular
- Leia também: Boxe alia saúde, resistência física e equilíbrio mental
Apesar disso, produtos proteicos vem alterando hábitos alimentares. Barrinhas, shakes, bebidas proteicas e snacks industrializados passaram a substituir refeições inteiras em muitas rotinas, principalmente entre jovens influenciados pela estética fitness e pela praticidade desses produtos no dia a dia.
Para Anderson, os alimentos enriquecidos com proteína podem ser úteis em situações específicas, como atletas de alto rendimento, idosos com dificuldade alimentar, pacientes em recuperação clínica ou pessoas com maior demanda proteica. Fora desses contextos, porém, eles costumam funcionar muito mais como conveniência do que como necessidade fisiológica real. "O problema acontece quando esses produtos passam a substituir refeições completas e reduzem o consumo de frutas, verduras, fibras e alimentos minimamente processados." Segundo ele, muitas pessoas associam "proteico" à ideia de alimentação saudável, sem analisar a composição completa do produto.
Marketing da saúde
A nutricionista e professora do Centro Universitário de Brasília (CEUB) Daniela Medeiros avalia que a explosão dos produtos high protein está diretamente ligada às estratégias de marketing da indústria alimentícia. Segundo a especialista, influenciadores fitness passaram a divulgar alimentos proteicos como parte indispensável de um estilo de vida saudável, fortalecendo a ideia de que consumir grandes quantidades de proteína representa sucesso estético. "Adicionar a palavra proteína a qualquer produto o torna instantaneamente mais atraente para o consumidor". Para ela, a indústria encontrou no universo fitness uma forma eficiente de ampliar vendas e reposicionar alimentos ultraprocessados como opções aparentemente saudáveis.
A nutricionista avalia que essa popularização nem sempre acompanha uma necessidade real de aumento do consumo proteico pela população. "Existe uma estratégia de marketing muito forte por trás disso. Muitas vezes, a proteína funciona como uma cortina de fumaça criada pela indústria para vender produtos ultraprocessados com aparência saudável", explica. Ela também ressalta que a ideia de "quanto mais proteína, melhor" se tornou um dos principais mitos da alimentação contemporânea. Apesar de essencial, o nutriente possui limites de aproveitamento pelo corpo humano e não oferece benefícios ilimitados.
Para a maior parte das pessoas, a recomendação média gira em torno de 0,8g de proteína por quilo corporal ao dia. Isso significa que uma pessoa de 70kg, por exemplo, precisaria consumir cerca de 56g diariamente — quantidade que costuma ser atingida com facilidade em refeições comuns. "Se a pessoa consome ovos no café da manhã, carne no almoço e derivados do leite ao longo do dia, muito provavelmente ela já atingiu sua meta diária sem necessidade de suplementação", afirma. O excesso não se transforma automaticamente em músculos ou desempenho físico.
Quando ultrapassa a capacidade de utilização do organismo, a proteína excedente pode ser convertida em gordura corporal ou eliminada pelos rins. Em alguns casos, dietas hiperproteicas também podem causar desconfortos intestinais, aumento da sede e alterações digestivas relacionadas ao baixo consumo de fibras. Vale lembrar que, muitas das principais fontes de proteína também são ricas em vitamina B12. Por isso, o consumo exagerado de suplementos e dietas hiperproteicas pode levar ao excesso dessa vitamina no organismo, elevando níveis no corpo e causar efeitos como acne, desconfortos gastrointestinais e alterações metabólicas.
O perigo por trás do rótulo
Além da quantidade de proteína, especialistas alertam para a composição geral dos produtos industrializados vendidos como saudáveis. Muitos alimentos continuam sendo ultraprocessados e apresentam altos índices de açúcar, sódio, gordura saturada e aditivos químicos.
Daniela explica como alguns produtos criam uma falsa sensação de alimentação equilibrada. "Quando um chocolate, sorvete ou milk-shake exibe 15g de proteína na embalagem, o consumidor sente menos culpa ao consumir aquele produto", diz. As estratégias visuais utilizadas pela indústria reforçam essa percepção.
O impacto do consumo preocupa, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, público mais exposto aos conteúdos fitness das redes sociais. Estudos já apontam que influenciadores digitais afetam diretamente hábitos alimentares, autoimagem e relação com o próprio corpo. "Essa obsessão exagerada pela proteína faz com que muitos jovens negligenciem nutrientes fundamentais, como frutas, verduras, fibras e outros componentes importantes para a saúde." A nutricionista aponta que a alimentação passa a ser vista apenas como ferramenta estética, deixando em segundo plano o cuidado integral com o organismo.
Os especialistas também alertam para possíveis sinais do consumo excessivo de proteína. Entre eles estão aumento da sede, desidratação, constipação intestinal, cansaço excessivo e sobrecarga renal, principalmente em dietas desequilibradas e associadas ao consumo frequente de ultraprocessados. "A longo prazo, dietas hiperproteicas podem aumentar o risco de cálculos renais e contribuir para outros problemas de saúde, especialmente quando associadas ao excesso de carnes processadas e alimentos industrializados. O segredo continua sendo equilíbrio, variedade e consumo de alimentos de verdade sempre que possível", conclui a nutricionista.
Saiba Mais
