Durante boa parte da gestação, a empresária Ana Lins carregava mais dúvidas do que certezas. Aos 20 anos, grávida da primeira filha, ela admite que se sentia "muito leiga" sobre parto. O medo, a insegurança e a sensação de estar perdida fizeram com que buscasse ajuda profissional, mas não de um médico, de uma doula.
O parto acabou em cesariana após uma indução que não evoluiu, mas Ana ainda define a experiência como transformadora. "A doula me deu total apoio emocional", conta. Em meio aos contratempos da gestação, foi ela quem ajudou a sustentar emocionalmente a futura mãe, traduzindo medos, oferecendo acolhimento e trazendo segurança em um dos momentos mais vulneráveis da vida.
Nos últimos anos, a figura da doula saiu das bolhas ligadas ao parto humanizado e passou a ocupar espaço nas conversas sobre saúde, maternidade e direitos das mulheres. Em um país que ainda registra números elevados de cesáreas e relatos frequentes de violência obstétrica, essas profissionais se tornaram, para muitas gestantes, uma forma de recuperar protagonismo sobre o próprio corpo e sobre as decisões que envolvem o nascimento.
Mas afinal: o que faz uma doula?
Ao contrário do que muita gente ainda imagina, doula não realiza procedimentos médicos, não substitui enfermeiros nem médicos obstetras e tampouco toma decisões clínicas. O trabalho é outro e talvez justamente por isso tenha se tornado tão relevante.
A enfermeira obstetra e doula Nathalia Braz resume a função como um suporte contínuo e individualizado voltado totalmente para a gestante. Isso inclui apoio físico, emocional e informativo durante a gestação, o parto e o pós-parto. "O apoio físico inclui massagens, exercícios, técnicas respiratórias e métodos não farmacológicos de alívio da dor. O suporte emocional acontece por meio de acolhimento, incentivo e escuta ativa. Já o apoio informativo é baseado em evidências científicas", explica.
Na prática, a doula ajuda a mulher a entender procedimentos, elaborar um plano de parto, reconhecer sinais do corpo, lidar com o medo e atravessar o processo de forma mais consciente. Em muitos casos, acompanha também o puerpério, auxiliando em questões ligadas à amamentação, à adaptação emocional e aos cuidados iniciais com o bebê.
Para a pedagoga Alessandra Louzada, 27 anos, esse suporte foi determinante para que ela tivesse a experiência de parto que desejava. "Eu sempre ouvi relatos negativos sobre parto, mas queria viver minha própria experiência", conta. O desejo de ter uma doula surgiu desde o início da gravidez, embora as limitações financeiras tenham feito com que a contratação acontecesse apenas perto do fim da gestação.
Ainda assim, segundo ela, o impacto foi imediato. A profissional revisou exames, explicou as etapas do trabalho de parto, orientou o casal sobre intervenções possíveis, violência obstétrica, métodos para alívio da dor e até ajudou na escolha da maternidade onde a filha nasceria.
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No grande dia, o apoio ganhou contornos ainda mais concretos. Durante o trabalho de parto, Alessandra sentiu enjoos intensos e recusou inicialmente uma medicação intravenosa. A doula respeitou sua decisão e ajudou a intermediar a conversa com a equipe médica. Mais tarde, já exausta e com dificuldade para fazer força, a gestante precisou decidir sobre o uso de ocitocina — hormônio que ajuda a estimular contrações uterinas durante o trabalho de parto.
"Ela foi falando comigo e me relembrando dos nossos encontros e do que havíamos conversado sobre o uso da ocitocina", lembra. Depois de refletir, Alessandra aceitou a intervenção. "Me ajudou muito a fazer a força necessária."
Para a pedagoga, a diferença não esteve apenas nas decisões práticas, mas no ambiente criado ao redor do parto. "Ela deixou as luzes baixas, colocou uma luminária de céu estrelado, músicas lentas falando sobre amor… conversou comigo o tempo todo, dizendo que eu era capaz. Em vários momentos, achei que não fosse conseguir."
Em hospitais cada vez mais guiados por protocolos, produtividade e tecnologia, as doulas costumam definir seu trabalho como algo que nenhuma máquina consegue substituir: presença. "Nenhuma tecnologia substitui o acolhimento humano", afirma Nathalia. "A doula oferece escuta, presença, suporte emocional e segurança durante um dos momentos mais intensos da vida da mulher."
A doula Bruna Genaro concorda. Há oito anos na profissão, ela acredita que grande parte do trabalho está justamente em desacelerar o ambiente hospitalar. "Muitas vezes, o que falta para um parto é paciência", diz. "A doula respeita o processo, entende que aquilo vai acontecer no tempo que tiver que acontecer."
Segundo Bruna, o acompanhamento começa muito antes das contrações. Há encontros de preparação para o parto, conversas sobre amamentação, orientações sobre intervenções médicas e suporte on-line praticamente contínuo. "Muitas mulheres voltam do pré-natal com muitas dúvidas. A doula acaba preenchendo um espaço de atenção que muitas vezes não existe."
Ela faz questão de esclarecer outro ponto frequentemente confundido: doula não substitui acompanhante. "O acompanhante está emocionalmente envolvido. A doula não está. Ela atua com compaixão, mas consegue olhar para o que aquela mulher desejava antes da dor começar."
Quando o tratamento muda
Embora a profissão tenha ganhado mais reconhecimento nos últimos anos, relatos de resistência ainda são comuns. Nathalia conta já ter sido impedida de entrar em hospitais e até humilhada por equipes médicas. "Muitas vezes, isso acontece por desconhecimento sobre a atuação da doula", diz.
Bruna relembra situações semelhantes. Em uma delas, percebeu que o simples fato de estar acompanhando uma gestante alterou completamente a postura da equipe hospitalar. "A recepcionista perguntou o que eu era da gestante. Quando falei que era a doula, mudou totalmente o tratamento. Disseram: 'essa é uma mulher que vai ter um parto humanizado'."
A percepção, segundo as profissionais, é de que mulheres acompanhadas chegam mais informadas e conscientes dos próprios direitos, o que acaba inibindo intervenções consideradas desnecessárias. "Eles sabem que a mulher sabe", resume Bruna. Nathalia vai além: "Quando uma gestante está com uma doula, parece que os médicos pensam duas vezes antes de fazer alguma intervenção sem necessidade."
As duas também reconhecem que parte do conflito com equipes médicas está ligada ao próprio modelo obstétrico brasileiro, historicamente centrado na cesariana. "O parto normal exige tempo", afirma Bruna. "Já a cesárea é rápida, previsível e movimenta financeiramente o sistema."
Entre romantização e realidade
Apesar da defesa do parto humanizado, as doulas rejeitam a ideia de romantizar o nascimento. "O parto real envolve dor, intensidade, cansaço e desafios emocionais", afirma Nathalia. "Parto humanizado não significa ausência de dor. Significa respeito."
Mãe de três filhos, Bruna costuma dizer às gestantes que "não existe escape da dor", apenas diferentes formas de atravessá-la. Ela também faz questão de desfazer outro imaginário comum: parto humanizado não é sinônimo de parto em casa, parto na água ou rejeição total à medicina. "Humanização é a mulher ser ouvida, respeitada e participar das decisões sobre o próprio parto", explica. "Se houver necessidade de cesárea, ela será feita."
Ainda assim, ambas reconhecem que esse tipo de assistência continua distante da realidade de muitas brasileiras. "Infelizmente, o parto humanizado virou privilégio", diz Nathalia. "Ainda existe desigualdade no acesso à informação, profissionais capacitados e assistência respeitosa." Bruna concorda: "Queria que toda mulher pudesse parir com respeito, independentemente da condição financeira".
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
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