
Especial para o Correio — Amândio Cardoso
Quem assistiu ao filme de Giuseppe Tornatore no começo dos anos 1990 e é amante do cinema não tem como conter as lágrimas cada vez que revê Cinema Paradiso ou ouve algumas das composições que Ennio Morricone fez para a trilha do filme. O longa é uma carta de amor ao cinema e transporta sentimentos nostálgicos, com forte apego às memórias afetivas.
O cinema tem esse poder de entrar em nossa vida... e quase se tornar um ser humano presente entre nós: alguém que nos ensina, nos fascina, nos faz querer imitar. O cinema, como personagem do filme de Tornatore, é alguém que une as vidas de Totó e Alfredo.
E assim como em Cinema Paradiso, no filme O agente secreto, o Cinema São Luiz é um ator. E que ator! Ele se despe até para tomar banho, numa linda cena em que vemos o chão da entrada do cinema sendo lavado. O cinema dança ao som do frevo, acolhe pessoas em seus medos e ainda oferece as suas janelas para momentos de imagens postais da cidade.
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Recife tem hoje o cinema mais exibido, amostrado e amado do mundo. Kleber imortalizou de vez essa sala de exibição recifense, que foi palco e cenário da minha participação como mero figurante no filme O agente secreto, mas que, principalmente, foi o cenário do início da minha própria existência. É. Eu sou fruto desse cinema, que foi ponto de encontro do casal que me gerou. O Cinema São Luiz foi uma espécie de "cupido" dos meus pais.
O jovem imigrante português marcou ali o seu primeiro encontro com a recifense que ele conheceu por um trote telefônico. Eles marcaram de se conhecer na entrada do Cinema São Luíz, em meados dos anos 1960, para ver um filme. O filme a que eles assistiram, se é que assistiram, não sei qual foi. Foi no São Luíz que tudo começou entre eles e que, anos depois, resultou no nascimento de seus filhos — sendo eu o primeiro a nascer.
O São Luiz foi a primeira sala de cinema a que eu fui na vida; eu tinha uns 6 anos, levado por minha mãe para assistir, numa sessão matinê, ao desenho animado O Príncipe e o Dragão de Oito Cabeças. No final da minha infância, era na calçada do São Luiz que eu ficava horas na fila, sob o escaldante sol das duas da tarde, para assistir aos filmes de Os Trapalhões — Didi, Dedé, Mussum e Zacarias —, ao sabor dos bombons de tutti-frutti da Mentos. O São Luiz foi também um local de escape na minha adolescência. Quando entrei na faculdade, era para lá que eu ia algumas vezes com os amigos do CAC (Centro de Arte e Comunicação) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Quando lembro daquela cena final de Cinema Paradiso, em que o personagem Totó já adulto assiste à montagem das cenas proibidas que ele não viu, eu adoraria que algo parecido acontecesse comigo daqui a alguns anos. Gostaria de assistir a uma montagem de cenas da minha vida que eu não vi: o primeiro encontro dos meus pais, a minha primeira ida ao cinema com a minha mãe, os meus olhos empolgados vendo Os Trapalhões... mas essa sessão nostálgica nunca vai acontecer. Não precisa.
Ao contrário do Cinema Paradiso, o São Luiz é real. Está lá, na Rua da Aurora. Existe como lugar afetivo da nossa cidade e do nosso país. Parece incrível, não é? Mas o Cinema São Luiz ainda está de pé — e espero que continue por muito tempo, para que eu possa levar meu filho para ver filmes.
Amândio Cardoso é publicitário e empresário
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