
Muito além do desempenho dentro de campo, a Copa do Mundo também é um palco para a moda. A cada edição do torneio, as seleções apresentam uniformes que ajudam a contar histórias, reforçar identidades nacionais e criar símbolos capazes de atravessar gerações. Em 2026, essa tendência ganhou ainda mais força, com camisas e trajes oficiais que apostam em elementos culturais, referências históricas e releituras nostálgicas para conquistar torcedores e colecionadores.
Para Walquiria Pereira Aires, presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário do Distrito Federal (Sindiveste-DF), um uniforme marcante precisa ir além da estética. "Para ficar na memória, ele precisa ter origem, cultura e um repertório visual", resume.
Segundo ela, algumas seleções se destacaram justamente por conseguir transformar símbolos nacionais em peças de vestuário contemporâneas. Entre os exemplos estão os trajes de chegada das seleções africanas. A Costa do Marfim apresentou um traje assinado por Ibrahim Fernandez inspirado no apelido da seleção, Les Éléphants. O elefante, símbolo nacional, foi bordado nas costas do blazer e se tornou um dos principais elementos visuais da composição.
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A República Democrática do Congo apostou em um uniforme criado por Alvin Junior Mak, da JmakxParis. O destaque ficou por conta do broche e do terno de leopardo, animal associado à força, ao poder e à autoridade na cultura congolesa.
Walquiria destaca ainda o uniforme da delegação senegalesa como um exemplo bem-sucedido de equilíbrio entre modernidade e tradição. Na avaliação dela, esse é justamente o caminho para a construção de uniformes icônicos, o que acredita que faltou um pouco nos looks brasileiros. "Precisamos inovar sem esquecer nossas raízes."
Para o criador de conteúdo Matheus Alvim, especializado em cultura das camisas de futebol, a Copa de 2026 marca uma mudança importante de direção estética. Segundo ele, após anos dominados pelo minimalismo e pela tecnologia, as marcas passaram a buscar elementos nostálgicos. "Os uniformes desta Copa tentam recuperar uma nostalgia que se perdeu ao longo dos anos. Isso aparece na espessura das listras, em grafismos sublimados e em referências à cultura dos países", explica.
Entre os destaques, Matheus cita as camisas de Alemanha, México, Japão, Marrocos, Argentina, Noruega, Estados Unidos, Colômbia e África do Sul. Para ele, todas conseguiram traduzir a identidade nacional por meio do design.
Um dos exemplos mais comentados é a nova camisa principal do México. O uniforme revisita o visual utilizado na Copa de 1998, inspirando-se, novamente, na rica iconografia asteca. A versão atual traz referências à Piedra del Sol, uma das esculturas mais importantes da civilização pré-colombiana, criando uma ponte entre passado e presente.
Já o Japão apostou em uma proposta cheia de significado para seu uniforme reserva. Inspirada nos clássicos uniformes do beisebol, a camisa apresenta 12 finas listras verticais coloridas. Onze delas representam os jogadores em campo, enquanto a faixa vermelha central simboliza toda a comunidade que apoia a seleção japonesa.
Outro uniforme que vem conquistando os colecionadores é o de Curaçao. Em amarelo-limão e com detalhes em tons pastel de rosa, turquesa e laranja, a peça foi inspirada na arquitetura colorida de Willemstad, capital da ilha caribenha. O resultado é um visual vibrante que traduz a atmosfera tropical da região.
Identidade cultural
Para Matheus, uma camisa se torna verdadeiramente icônica quando consegue transformar elementos culturais em códigos visuais facilmente reconhecíveis. "É o básico bem-feito, mas com uma identidade forte. A Alemanha tem os grafismos diagonais, a Croácia tem a padronagem quadriculada. São símbolos que atravessam gerações e que os torcedores passam a usar quase como uma armadura."
Nem todas as propostas, porém, agradaram. O influenciador aponta Marrocos como uma das grandes surpresas positivas da Copa por conseguir equilibrar homenagem cultural, modelagem e apelo internacional.
Mas, assim como o uniforme social da Seleção Brasileira, a colaboração entre o Brasil e a Jordan Brand ficou abaixo das expectativas. Segundo ele, a proposta prioriza o apelo comercial em detrimento de símbolos que reforcem a conexão entre seleção e país. "Estampar a silhueta de um americano jogador de basquete no maior campeão de copas do mundo, para mim, não faz sentido", avalia.
Apesar das críticas pontuais, ambos concordam que os uniformes deixaram de ser apenas peças esportivas. Hoje, eles ocupam espaço também na moda casual e no universo do colecionismo. "A camisa de futebol é um exercício de design muito completo aplicado à peça mais básica do guarda-roupa, que é a camiseta. Ela carrega memória, significado e identidade", afirma Matheus.
No Distrito Federal, o interesse crescente pela moda esportiva já inspira marcas locais. Segundo Walquiria, empresas brasilienses como Dane-se e Sun Rose desenvolveram coleções relacionadas ao universo da Copa, mostrando como o futebol continua influenciando o setor do vestuário.

Revista do Correio
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