Fitness & Nutrição

Futebol fortalece corpo, mente e ganha cada vez mais mulheres

Com o crescimento do futebol feminino, a prática ajuda a derrubar preconceitos e reforça benefícios físicos, mentais e sociais do esporte

Durante décadas, o futebol foi tratado como um território predominantemente masculino. Embora seja o esporte mais popular do país, mulheres que desejavam entrar em campo precisavam enfrentar barreiras sociais para se dedicar à prática. Hoje, o cenário começa a mudar. O crescimento do futebol feminino, a maior visibilidade de atletas e a ampliação dos espaços para a prática esportiva têm incentivado mais mulheres a jogar, seja profissionalmente, seja por lazer.

Ao mesmo tempo em que ganha força entre o público feminino, o futebol segue sendo uma das atividades físicas mais completas para pessoas de diferentes idades. Além de promover ganhos para o condicionamento, o esporte contribui para a saúde mental, o desenvolvimento social e a qualidade de vida.

Segundo o educador físico Douglas Rubim, a popularização do futebol feminino tem relação direta com a representatividade conquistada nos últimos anos. "Acredito que o futebol tem crescido não só por influência da mídia, mas também da força da internet, que traz mulheres evidenciando o esporte, encorajando outras e sendo exemplo para as meninas mais novas a buscar o caminho do futebol", afirma.

O avanço pode ser observado também no cenário profissional. Nos últimos anos, campeonatos nacionais passaram a receber mais investimentos, transmissões televisivas ampliaram a visibilidade da modalidade e clubes tradicionais fortaleceram suas equipes femininas. Embora a diferença estrutural em relação ao futebol masculino ainda seja significativa, especialistas apontam que a modalidade vive um dos momentos mais importantes de sua história no Brasil.

É importante lembrar que a pelada também é um importante aliado da saúde. Por reunir corridas, mudanças rápidas de direção, aceleração e trabalho coletivo, o esporte estimula diferentes capacidades físicas simultaneamente.

De acordo com Douglas, a prática contribui para a aptidão cardiovascular, metabólica e musculoesquelética, ajudando a retardar o surgimento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes tipo 2. "O bate-bola fortalece os músculos dos membros inferiores e abdômen, gerando preservação das
articulações do joelho e do tornozelo. Também proporciona estímulos cognitivos, liberando hormônios que ajudam no bem-estar", enumera.

Para Carlos Roberto Barros, profissional há mais de duas décadas, os benefícios atingem todas as faixas etárias. "O futebol contribui para o desenvolvimento da resistência física, força muscular, coordenação motora, equilíbrio, agilidade e velocidade. Além disso, ajuda no controle do peso corporal e promove hábitos saudáveis em todas as fases da vida", destaca.

Além do físico

O impacto positivo da modalidade não se limita à preparação física. O esporte também tem papel importante na saúde emocional dos praticantes. Por ser uma atividade dinâmica e coletiva, o futebol exige tomada de decisão rápida, comunicação constante e cooperação entre os integrantes da equipe. Essas características ajudam a desenvolver habilidades cognitivas e sociais que podem ser levadas para outros ambientes da vida.

Douglas ressalta que o esporte favorece tanto a confiança nos companheiros quanto a autoconfiança individual. "É um ótimo esporte para benefício cognitivo e social. Você trabalha não só sua confiança para seu parceiro de time, mas também a autoconfiança", afirma.

A prática também estimula a produção de hormônios ligados ao prazer e ao bem-estar, como a serotonina e a endorfina. "Essas substâncias ajudam a regular as emoções, a concentração e a socialização", acrescenta o educador físico. Carlos reforça que o ambiente coletivo favorece a criação de vínculos e o sentimento de pertencimento. "O convívio em equipe favorece a criação de amizades, o desenvolvimento da autoestima e a confiança entre os participantes", explica.

Em um contexto em que ansiedade, estresse e isolamento social se tornaram temas cada vez mais presentes, a prática esportiva surge como uma importante ferramenta de cuidado com a saúde mental. "Sem dúvida, o futebol proporciona interação social, diversão e momentos de descontração, ajudando a reduzir o estresse e o isolamento", destaca Carlos.

Preconceito

A trajetória da árbitra profissional e jogadora amadora Francieli Reis Nascimento ajuda a ilustrar essa realidade. Apaixonada por futebol desde a infância, ela começou a jogar aos 12 anos e hoje, aos 40, continua ligada ao esporte.

O primeiro incentivo veio do desejo de melhorar a saúde e perder peso. Com o passar dos anos, porém, o futebol passou a representar muito mais. "A melhoria do físico foi uma consequência natural da prática regular. Passei a me sentir com mais energia e menos sedentária, o que me motivou a manter uma rotina mais ativa também fora do esporte", conta.

Ela relata que o futebol contribuiu para desenvolver disciplina, comprometimento e hábitos mais saudáveis, além de ajudar no controle do estresse e da ansiedade. "Durante o jogo, o foco fica totalmente voltado para a partida, o que ajuda a relaxar a mente. Além disso, o esporte fortalece a confiança e a capacidade de lidar com desafios", afirma.

Mas o caminho até aqui não foi livre de obstáculos. "No início da minha trajetória, enfrentei muitos julgamentos. Inclusive, minha sexualidade chegou a ser questionada apenas por eu praticar o esporte", relembra. Segundo Francieli, em alguns momentos, ela precisou sair escondida para jogar devido à falta de aceitação dentro da própria família.

Apesar das dificuldades, ela reconhece que a realidade atual é diferente da encontrada quando começou. "Hoje houve uma evolução significativa em relação ao respeito e à visibilidade das mulheres no futebol. No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer. Falta mais apoio, incentivo e, principalmente, investimento no futebol feminino", avalia.

A experiência acumulada ao longo de quase três décadas dentro dos gramados também a levou a migrar para a arbitragem profissional, área na qual continua atuando. Para ela, a principal mensagem para quem deseja começar é simples: não deixar que o preconceito seja um obstáculo. "O futebol não tem gênero, tem paixão. Se você sonha em jogar, comece. Não deixe o medo ou a opinião dos outros impedirem você de tentar. Cada jogadora que hoje se destaca começou exatamente como você: dando o primeiro chute na bola."

 

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