
Especial para o Correio — Ricardo Pedreira
Em algum lugar da Asa Norte fica o Bar do Bigode. O estabelecimento não é propriamente uma flor que se cheire, mas a freguesia acha frescura alguns evitarem o mictório por causa dos odores e eventuais baratas que circulam por ali. "São seres de Deus, como todos nós", explica um rapaz que se diz budista, embora frequente o boteco.
O local é mesmo ecumênico, mas há um núcleo duro que bate ponto todo final de tarde. Gaúcho nasceu no Paraná, recebeu o apelido de um gaiato sem noção, e o apelido pegou. Embaixador, assim chamado por ter sido garçom do Itamaraty, e exibe algum inglês com sotaque nordestino a pedido da rapaziada. O único tratado pelo nome de batismo é Inocêncio, por causa da incorrigível malícia.
Embora seja ambiente de predominância masculina, há algumas bravas senhoras e senhoritas que frequentam o reduto, batizadas de Quinta Coluna por Inocêncio. Elas não ligam e ironizam à vontade. Therezinha, taquígrafa do Senado, quando leva seu cachorrinho à loja de pet vizinha ao botequim, aproveita para tomar uma cerveja e já chega perguntando em voz alta: "E aí? Todo mundo com PSA em dia?". Os marmanjos se remexem desconfortáveis nas cadeiras e sorriem amarelo.
As chuvas fora de época que caíram recentemente em Brasília têm sido tema recorrente dessa turma. A maioria atribui ao El Niño, lembrando os ensinamentos da moça do tempo da televisão. Um pastor evangélico que parou outro dia no boteco antes do culto garantiu que as chuvas extemporâneas são sinal do apocalipse e do castigo divino que virá para os pecadores. A galera balançou a cabeça positivamente, testemunhando o sujeito diante de um copo de cachaça.
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O caso da "peleleca" do Vorcaro também tem dado Ibope nas conversas, mas Gaúcho, que recebe salário pelo BRB, pede logo para mudarem de assunto: "Pelo amor de Deus, não me falem dessa história!". O time do Mister começou a ganhar alguns elogios. Da política, a maioria costuma se afastar em nome dos bons costumes.
Mas, nas resenhas do pessoal, o grande clássico é mesmo o dia em que o Embaixador ficou amigo do Paul McCartney. Quando toma umas e outras, o Embaixador arrasa no inglês cantando músicas dos Beatles, de quem tem todos os discos — em vinil! —, além de livros e cartazes. Pois em novembro de 2023, quando soube que Paul McCartney faria um show exclusivíssimo no Clube do Choro, o cara se virou e conseguiu ingresso para a quase secreta apresentação.
Além da veneração pelos Beatles, Embaixador é da umbanda. Coisas do Brasil. Sincretismo em pessoa, foi para a noite no Clube do Choro enfiado na camiseta de sua especial predileção, que estampa em letras nada discretas: Exu in the Sky with Diamonds. Conheço a curiosa vestimenta, habitual no Bar do Bigode.
Aí é que o caso ganha tração. Embaixador teria ficado na turma do gargarejo, grudado ao palco, pulando e esgoelando, bem à vista de Paul, que não conseguia desviar os olhos daquele senhor negro de carapinha branca, muito alto e magro, com camiseta vermelha invocando Exu num céu de diamantes. Para lá de lisérgico.
Segundo a lenda, ao final da memorável apresentação Sir Paul pediu para conhecer o excêntrico fã. Embaixador não dá detalhes da conversa e é lacônico: "Conversamos sobre coisas nossas". Há testemunhas de que, no dia seguinte, dois distintos senhores ingleses, com tradutor a tiracolo, compraram praticamente toda a loja de umbanda vizinha ao Bar do Bigode.
Para quem duvida da história, Embaixador tem no celular foto dele sendo abraçado pelo Beatle. Alguns despeitados dizem que é inteligência artificial. Eu acredito no Embaixador. Mesmo porque li outro dia em um site de confiança que Paul McCartney tem frequentado certo terreiro às margens do Tâmisa.
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