
Por muito tempo, a moda masculina caminhou por um roteiro previsível. Cores neutras, modelagens tradicionais e poucas possibilidades de experimentação fizeram parte do guarda-roupa de gerações. Nas passarelas de Milão e Paris, no entanto, a temporada primavera/verão 2027 mostrou que esse cenário está mudando. A nova proposta une alfaiataria e casualidade, valoriza tecidos leves, amplia as silhuetas e abre espaço para cores, estampas e diferentes formas de expressão.
Entre os principais destaques apresentados pelas grandes grifes estão os blazers usados com bermudas, a alfaiataria desconstruída, shorts mais amplos, transparências, estampas florais, xadrez, tons vibrantes e a mistura entre peças esportivas e formais. Mais do que apresentar tendências, os desfiles revelaram que vestir-se deixou de ser apenas uma necessidade para se tornar uma forma de comunicar identidade.
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Para o designer de moda Murilo Gomes, um dos movimentos mais importantes da temporada é, justamente, a renovação da alfaiataria. "As tendências mais relevantes são, sem dúvida, o blazer combinado com shorts, trazendo o conceito do high-low, algo que já vinha acontecendo na moda feminina, mas agora aparece com força no masculino. Além disso, as cores vibrantes chegam para quebrar a monotonia dos tons terrosos que dominaram as últimas temporadas", destaca.
Segundo ele, as mudanças vão além da estética e refletem uma transformação no próprio perfil do consumidor. "Percebo que o homem passou a buscar mais informação de moda. Isso aparece no interesse por fibras naturais, como linho e algodão, e também por tecidos tecnológicos, como a poliamida, que oferece praticidade, não amassa, seca rapidamente e preserva a aparência da alfaiataria. Existe um olhar muito mais comportamental sobre o vestir."
O professor e designer de moda Vinícius Oliveira também identifica esse momento como uma quebra de padrões. "Tenho visto muita alfaiataria desconstruída, tecidos leves, transparências e uma moda masculina menos presa às regras. O homem começou a entender que pode se expressar por meio da roupa sem abrir mão da masculinidade nem do conforto", ressalta.
Rotina mais dinâmica
A alfaiataria continua presente, mas ganha novas proporções e funções. Sai o visual exclusivamente formal e entram peças capazes de transitar entre diferentes ocasiões. "Hoje o homem quer vestibilidade. Ele não quer uma roupa que sirva apenas para o trabalho ou apenas para um evento formal. Essa mistura entre alfaiataria e casual traz uma elegância muito mais funcional e natural", explica Vinícius.
Murilo acredita que essa aproximação entre diferentes estilos acompanha a rotina contemporânea. "Não diria que essa mistura é definitiva, porque tendências mudam, mas ela mostra como a rotina masculina passou a ser observada. É o homem que sai da academia para o trabalho e depois vai ao supermercado sem precisar trocar completamente de roupa. É estilo aliado à praticidade."
Outra mudança evidente nas coleções é o abandono da neutralidade. Os tons vibrantes voltam a ocupar espaço ao lado de florais, xadrezes e outras estampas marcantes. Para Murilo, a influência da cultura pop latino-americana ajudou nesse processo. "A tendência do Brasil Core mostrou que existe espaço para uma moda mais colorida. Isso quebra a estética clean, que acabou deixando tudo muito padronizado, e abre espaço para mais personalidade."
Vinícius observa que as redes sociais tiveram papel importante nessa transformação. "Hoje, o homem está muito mais aberto a experimentar cores, estampas e modelagens diferentes. Instagram, TikTok e Pinterest ampliaram muito as referências. A moda masculina deixou de ser apenas discrição e conforto para também representar identidade", acrescenta.
O calor cada vez mais intenso e a busca por praticidade também aparecem como protagonistas das novas coleções. Murilo destaca que o clima brasileiro favorece tecidos leves e fibras naturais. "O homem brasileiro precisa de mobilidade e respirabilidade nas roupas. Mas também vejo uma preocupação crescente com sustentabilidade, procedência da peça, durabilidade, preço e qualidade", diz.
Vinícius concorda que o contexto climático acelerou essas escolhas. "As temperaturas mais altas aumentam a procura por tecidos leves, modelagens amplas e roupas respiráveis. Depois da pandemia, muitas pessoas passaram a valorizar peças que acompanham uma rotina dinâmica. Hoje, conforto deixou de ser tendência e virou necessidade."
Nem tudo o que aparece nos desfiles chega imediatamente ao cotidiano, mas algumas apostas já demonstram potencial para conquistar o público brasileiro. Murilo acredita que as bermudas alongadas, conhecidas como jorts, já encontraram seu espaço. "Os jorts conquistaram um público fiel e foram muito bem recebidos pelo guarda-roupa masculino. Já o mocassim com meia talvez ainda não combine tanto com o perfil do homem brasileiro, mas vale observar", afirma.
Vinícius faz uma avaliação semelhante. "A bermuda oversized conversa muito com o clima brasileiro e com essa busca por conforto. Já o mocassim com meia provavelmente ainda enfrentará resistência, mas muitas tendências começam assim, passando primeiro por um período de adaptação."
Se antes existia uma única silhueta considerada ideal, hoje diferentes modelagens convivem nas passarelas. Para Murilo, isso representa um avanço importante. "Em uma época marcada por medicamentos para emagrecimento e cobranças estéticas, mostrar diferentes silhuetas reforça que somos múltiplos. A moda é uma ferramenta para expressar personalidade e autenticidade."
Vinícius compartilha da mesma visão. "Durante muito tempo existia a ideia de que apenas uma modelagem estava certa. Hoje, vemos skinny, oversized e modelagens retas convivendo ao mesmo tempo. Isso mostra que vestir bem não é seguir uma tendência, mas escolher aquilo que representa quem você é", reforça.
Mais do que indicar quais peças estarão nas vitrines nos próximos meses, a temporada primavera/verão 2027 indica que a moda masculina caminha para um futuro em que conforto, autenticidade e liberdade de escolha têm mais peso do que regras. Em vez de ditar um único jeito de vestir, as passarelas oferecem possibilidades para que cada homem construa sua própria identidade.

Revista do Correio
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