
A bola ainda rola na grande decisão da Copa do Mundo, mas, para milhões de torcedores, o domingo da final também marca outro momento importante: a despedida de um evento que, durante um mês, reorganizou agendas, reuniu famílias, encheu bares, movimentou conversas e fez o futebol ocupar o centro da rotina. Independentemente de quem levante a taça, o apito final encerrará um ciclo que só voltará a ser vivido daqui a quatro anos.
No Brasil, porém, a sensação de despedida começou mais cedo. A eliminação da Seleção Brasileira ainda nas oitavas de final interrompeu o sonho do hexacampeonato e transformou a reta final do Mundial em uma experiência diferente para boa parte dos torcedores. Muitos continuaram acompanhando os jogos. Outros perderam o interesse. Houve quem cancelasse festas, mudasse viagens e até deixasse de assistir às partidas com a mesma empolgação.
Entre quem acompanhou cada lance da competição, uma sensação de vazio difícil aparece com frequência quando o torneio termina. Embora seja comum nas redes sociais a expressão "depressão pós-Copa", especialistas explicam que o fenômeno está muito mais relacionado ao fim de uma experiência coletiva intensa do que a um quadro clínico.
Segundo o coordenador do curso de psicologia do Centro Universitário Uniceplac, Wladimir Rodrigues da Fonseca, a Copa modifica temporariamente a maneira como as pessoas organizam o cotidiano. "Durante um mês, ela organiza a atenção, os horários e até as conversas. Sempre existe um próximo jogo para esperar, um palpite para dar, uma emoção com hora marcada. Quando tudo acaba, esse combustível desaparece de uma vez e a rotina parece momentaneamente mais sem graça por causa do contraste", explica o professor.
Para o especialista, o sentimento pode ser comparado ao retorno de uma viagem muito esperada ou ao fim de uma série acompanhada durante anos. A diferença é que a Copa acontece coletivamente. "Não terminou apenas um programa de televisão. Terminou uma experiência que milhões de pessoas estavam vivendo ao mesmo tempo. Estudos mostram que grandes competições esportivas promovem pertencimento, emoções positivas e até aliviam as tensões do dia a dia. Quando isso acaba, é compreensível sentir uma espécie de ressaca emocional."
A eliminação precoce da Seleção potencializa esse sentimento. "Não se perde apenas uma partida. Perdem-se todos os planos construídos em torno dela. As pessoas deixam de viver encontros, festas e experiências que já haviam imaginado. Existe a frustração pelo que aconteceu e outra pelo que deixou de acontecer."
O professor lembra ainda que o envolvimento dos brasileiros com a Seleção vai além do futebol. "Quem se identifica fortemente com uma equipe vive os resultados dela quase como resultados pessoais. Repare que ninguém diz 'eles perderam'. Dizemos 'nós perdemos'. Isso mostra o quanto existe uma identidade compartilhada."
Memórias afetivas
A psicóloga e professora Cheila Alves Dias observa que a Copa mobiliza até quem normalmente não acompanha futebol. "A Copa transcende o esporte. Ela desperta pertencimento e identidade coletiva. Durante o torneio, milhões de pessoas compartilham expectativas, comemoram as mesmas vitórias e vivem as mesmas frustrações. Mesmo quem não acompanha futebol durante o ano acaba sendo envolvido por esse clima."
Segundo ela, o evento desperta memórias afetivas e fortalece vínculos. "É um dos poucos momentos em que diferenças sociais, culturais e geracionais parecem dar lugar a um objetivo comum: torcer pela mesma bandeira", aponta.
A terapeuta ocupacional Catiuscia Homem acrescenta que, do ponto de vista da saúde e da participação social, a Copa se transforma em uma ocupação coletiva. "As pessoas reorganizam hábitos, mudam horários, reúnem familiares, decoram ambientes e compartilham expectativas. Essas experiências fortalecem o sentimento de pertencimento e criam oportunidades de conexão social, algo fundamental para o bem-estar", ressalta.
Não é apenas a paixão pelo futebol que aproxima as pessoas. É a possibilidade de criar novos rituais. Camisas da sorte, reuniões em bares, almoços de família, grupos de mensagens comentando escalações e bolões passam a fazer parte da rotina por algumas semanas. Quando o campeonato termina, esses encontros naturalmente diminuem.
"O futebol funciona como um facilitador das relações humanas", afirma Cheila. "Durante a Copa, amigos, famílias e colegas de trabalho compartilham momentos que fogem da rotina. Quando esse ciclo acaba, muitas pessoas sentem falta justamente dessa convivência."
Foi exatamente isso que aconteceu com o médico Gabriel Pereira, de 27 anos. Acostumado à rotina intensa da área da saúde, ele escolhia praticamente apenas os jogos da Seleção para assistir. A eliminação do Brasil fez com que a Copa perdesse espaço no dia a dia. "Fiquei bem triste. A correria do trabalho fazia com que eu priorizasse os jogos do Brasil. Depois da eliminação, acabei voltando a focar em outros afazeres e passei a acompanhar os jogos apenas pelas redes sociais."
Antes da queda brasileira, ele já havia imaginado como seria o domingo da decisão. "Tinha planejado um evento em casa, com piscina, churrasco, música, serviço de bar e meus grandes amigos. Gosto de fazer festa sempre que possível, mas confesso que desanimei depois da derrota", conta.
Mesmo assim, pretende assistir à final. "Dependendo de quem estiver jogando, talvez façamos uma reunião menor, com boas companhias, comida e bebida." Curiosamente, Gabriel acredita que a saudade não será exatamente do futebol. "No fundo, sinto mais falta da farra do que dos jogos. O melhor era reunir amigos e familiares para torcer juntos", pontua.
O estudante Atenor Marinho, de 22 anos, viveu uma frustração parecida. "Inconformado" com a eliminação, ele afirma que o torneio perdeu boa parte do encanto. "Eu estava acompanhando vários jogos. Depois da eliminação, simplesmente perdi o ânimo", conta.
Os planos para a final também mudaram completamente. Ele e os amigos haviam comprado passagens para o Rio de Janeiro imaginando assistir ao Brasil disputando o título. Agora, a viagem continua, mas com outro clima. "Vai ser um dia mais normal. Ainda assim, toda a programação será em função da final."
Além da derrota, Atenor acredita que o encerramento da Copa altera completamente a rotina social. "As idas aos bares durante a semana diminuem bastante porque deixam de existir os jogos que serviam como motivo para reunir a galera."
Para o estudante João Bruneto, 22, amigo de Atenor que também iria para o Rio de Janeiro, a decepção foi grande, embora não tenha sido suficiente para afastá-lo do restante da competição. Ele conta que já via limitações na preparação da Seleção, mas acreditava que o Brasil tinha condições de avançar. "A derrota foi muito decepcionante. Mesmo assim, continuo assistindo porque a final da Copa é um momento único para quem gosta de futebol."
A Copa é feita de encontros
Para o estudante Bernard Naves, de 22 anos, o silêncio após a eliminação do Brasil ainda está vivo na memória. "Eu estava em um bar assistindo ao jogo e, quando acabou, ficou aquele silêncio. Depois fui para casa e tentei nem pensar muito no assunto, porque realmente me magoou bastante."
Apesar de continuar acompanhando o Mundial, ele admite que a emoção já não é a mesma. "Sou apaixonado por futebol, mas não tem nem metade da emoção que tinha com o Brasil na disputa. Existia toda aquela esperança do hexa, e isso fazia toda a diferença", lamenta.
Assim como os amigos, Bernard também havia feito planos especiais para a decisão. Com passagens compradas para o Rio de Janeiro, imaginava comemorar a classificação brasileira justamente na véspera de seu aniversário. "Seria uma comemoração inesquecível."
Mesmo viajando, ele diz que acompanhará a final apenas como espectador. "Vai ser um grande jogo, mas não chega nem perto da emoção que seria ver o Brasil disputando o título", afirma.
A maior lembrança desta Copa, para ele, não foi uma vitória, mas o retorno de Neymar à Seleção. "Como santista e brasileiro, foi muito especial vê-lo novamente em uma Copa. Também me marcou a forma como ele encarou a eliminação, brigando por cada lance. Ao mesmo tempo, ficou a tristeza por provavelmente ter sido sua despedida em Mundiais."
O analista de vendas Paulo Berberick, de 28 anos, também acredita que o vazio começou antes mesmo da final. "Na verdade, ele vem quando o Brasil é eliminado. É uma sensação estranha, difícil de explicar. Depois disso, é aceitar e voltar à rotina." Mesmo assim, acompanhará a decisão. "É uma final de Copa do Mundo. Acontece apenas de quatro em quatro anos", justifica.
Sua imagem mais marcante do torneio também envolve Neymar. "O pênalti cobrado por ele foi muito simbólico. Independentemente do resultado, talvez tenha sido seu último gol com a camisa da Seleção em uma Copa."
Para a estudante Ana Clara Neves, de 23 anos, o Mundial também reorganizou completamente a rotina. "Eu deixava a televisão ligada praticamente a tarde toda enquanto fazia minhas atividades. Acabei abrindo espaço na agenda para acompanhar os jogos", destaca.
Ela acredita que a Copa perde parte do encanto quando o Brasil fica pelo caminho. "O legal é sair, se arrumar e encontrar amigos e familiares para assistir aos jogos", pontua. Mesmo assim, acompanhará a final. "É um evento muito importante. Ver a felicidade de outros países conquistando um título também emociona."
Sua principal lembrança, no entanto, aconteceu longe das quatro linhas. "No intervalo do jogo entre Brasil e Japão, minha prima contou para toda a família que estava grávida. Foi um momento que nunca vou esquecer", conta.
Quando o futebol encontra a vida
Entre todos os entrevistados, talvez ninguém represente melhor o alcance mundial da Copa do que Swata Mabanza. Nascido na República Democrática do Congo e morador de Brasília há 10 anos, ele acompanhou o torneio dividido entre dois países do coração.
A seleção africana voltou a disputar uma Copa do Mundo após 52 anos de ausência, mas acabou eliminada pela Inglaterra ainda no mata-mata. Pouco depois, veio a queda brasileira. "Desde que Congo e Brasil foram eliminados, senti que a competição perdeu intensidade."
Ele conta que havia planejado grandes comemorações caso qualquer uma das duas seleções surpreendesse. "Seriam dias de festa com os amigos. O Congo talvez não chegasse ao título, mas sonhava pelo menos com uma campanha histórica", lembra.
Agora, o que permanece é outra sensação. "Quando a Copa terminar, vou sentir falta daquela rotina de ter jogo todos os dias. Acho que vou precisar de alguns dias para entender que realmente acabou", destaca. Sua lembrança mais forte será justamente a campanha congolesa. "O jogo contra a Inglaterra ficará marcado para sempre. Foi quando acreditamos que poderíamos fazer história."
Muito além dos 90 minutos
Para os especialistas, essa sucessão de histórias mostra que a Copa raramente é apenas sobre futebol. Ela reúne famílias que vivem em cidades diferentes, cria tradições entre amigos, movimenta bares, muda horários de trabalho, inspira viagens e produz memórias que atravessam gerações. "O torneio funciona como uma grande experiência coletiva", resume a psicóloga Cheila Alves Dias. "Independentemente do resultado, ele fortalece vínculos humanos e cria lembranças compartilhadas."
Catiuscia Homem acrescenta que essas ocupações coletivas têm impacto direto no bem-estar. "Elas favorecem conexões humanas, fortalecem redes de apoio e promovem experiências carregadas de significado. O encerramento da Copa nos lembra o quanto esses momentos de convivência são importantes e podem ser estimulados em outros contextos da vida."
Já o psicólogo Wladimir Rodrigues da Fonseca faz um alerta importante: embora muita gente use a expressão "depressão pós-Copa", ela não corresponde a um diagnóstico clínico. "O mais adequado é falar em tristeza, frustração ou ressaca emocional. A maior parte das pessoas reorganiza naturalmente sua rotina em poucos dias."
Segundo ele, só é necessário buscar ajuda profissional quando o sofrimento ultrapassa o contexto esportivo e passa a comprometer diferentes áreas da vida por um período prolongado. Enquanto isso, o futebol continua sendo um dos maiores símbolos da identidade brasileira. "A Copa funciona como um palco em que o país encena seus sonhos, suas contradições e essa necessidade tão humana de fazer parte de algo maior", afirma o psicólogo.
Quando o árbitro encerrar a final deste domingo, uma seleção levantará a taça mais cobiçada do planeta. Para os brasileiros, porém, o momento também representará outra despedida. Será o fim das tabelas compartilhadas nos grupos de mensagens, das tardes em frente à televisão, dos bolões, das camisas amarelas espalhadas pelas ruas, das reuniões improvisadas em bares e salas de estar e das conversas que, durante semanas, pareciam sempre terminar em futebol.
Talvez seja justamente por isso que a Copa desperte sentimentos tão intensos. Ela não transforma apenas o calendário esportivo. Transforma a rotina, cria memórias, aproxima pessoas e oferece um raro momento em que milhões de indivíduos, com histórias completamente diferentes, compartilham as mesmas expectativas, as mesmas alegrias e, às vezes, a mesma frustração. No fim, mais do que descobrir quem será campeão do mundo, a Copa lembra que o futebol continua sendo uma das poucas linguagens capazes de reunir o país inteiro em torno de uma mesma emoção.

Revista do Correio
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