
Falar de Copa do Mundo no Brasil é caminhar por uma linha do tempo em que a identidade nacional se mistura com o som do apito inicial. Para além das estatísticas frias nos livros de história, a verdadeira mitologia do nosso futebol é guardada na memória de quem viu, passo a passo, cada uma das cinco estrelas ser costurada no peito da Seleção. Cruzar as décadas por meio dos relatos de testemunhas oculares dessas conquistas é compreender como um país predominantemente rural e sem conexão direta se transformou na maior potência futebolística do planeta.
No entanto, para que a era de ouro existisse, o Brasil precisou passar pelo seu próprio purgatório. O ano de 1950 ficou gravado na alma brasileira como uma cicatriz incurável. Perder a final da Copa do Mundo em casa, no recém-erguido Maracanã, para o Uruguai, por 2 x 1, foi muito mais do que um revés esportivo. O episódio, eternizado como Maracanazo, operou como um drama psicossocial coletivo, uma tragédia nacional de proporções idênticas ao que as gerações atuais sentiram no fatídico 7 x 1 contra a Alemanha em 2014. Naquela tarde de julho, o Brasil vestia branco, e o luto coletivo exigiu que o país se reinventasse do uniforme à alma.
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O tremor de 1950
A dor daquela perda histórica cruzou os céus e as terras do país, afetando a todos de maneiras distintas. O ex-presidente da República José Sarney, hoje com 96 anos e bastante ativo nas redes sociais compartilhando memórias sobre política, cultura e esporte, relembra que sua percepção do desastre foi amortecida pelo próprio medo de voar. Naquele ano, ele viajava de avião pela segunda vez na vida, rumo à capital federal da época.
Sarney contextualiza que, desde o seu nascimento, o mundo testemunhou 24 Copas do Mundo. "Lembro-me de cinco, as que o Brasil ganhou a que assisti", recorda o ex-presidente. Ele confessa nunca ter sido um torcedor engajado ou fanático, mas, sim, um observador curioso que acompanhava o torneio sempre que as condições permitiam. Essa ressalva se deve às dificuldades estruturais do Brasil de meados do século passado, pois Sarney passou grande parte da vida em cidades e casas que sequer tinham rádio. Mais tarde, com o advento da televisão, dependia da hospitalidade alheia, já que seu pai não tinha condições financeiras de comprar um aparelho.
Apesar de ter testemunhado todas as glórias posteriores, a lembrança mais nítida de Sarney evoca o fantasma do Maracanazo. Ele estava cruzando as nuvens quando o veredicto final foi dado. "Quando sobrevoávamos a cidade, o piloto anunciou o gol do Uruguai", recorda-se. Entre o mal-estar físico da viagem e o temor da altitude, o jovem Sarney mal conseguiu mensurar o tamanho do impacto que aquele anúncio causaria na fundação do orgulho nacional: "Não pude avaliar por completo a tragédia. Estava entre enjoo e medo".
Enquanto Sarney recebia a notícia no ar, o mineiro Gilson Belém, hoje com 91 anos, viveu o drama pulsando no chão de concreto do Maracanã. Ex-inspetor do Banco Nacional e atualmente uma figura ilustre em São Lourenço (MG), Gilson tinha 14 anos em 1950 e uma rotina intensa ditada pelo fanatismo do pai. O patriarca era tão doente por futebol que ia ao Rio de Janeiro todo mês e não perdia um treino do Flamengo na Gávea.
Gilson conta que viu o Maracanã nascer, visitando o canteiro de obras com o pai. "Era um gigante, era uma obra toda de concreto, era um negócio espetacular", descreve. Para garantir presença nos jogos, o garoto enfrentava verdadeiras maratonas. À meia-noite, o pai o deixava em um bonde no Catete rumo à lateral do Teatro Municipal, na Avenida 13 de Maio, onde os ingressos eram vendidos. Gilson passava a madrugada na fila, enfrentando a multidão para conseguir as entradas por volta das 8 ou 9 horas da manhã, sempre pagando em dinheiro vivo. Ele comprava pacotes de até 12 ingressos para distribuir entre os parentes.
O esforço garantiu a Gilson o privilégio de assistir à quase todas as partidas do Brasil no Rio, desde a estreia triunfal por 4 x 0 contra o México até os massacres de 6 x 1 contra a Espanha e 7 x 1 contra a Suécia. Da partida contra a Iugoslávia, ele lembra de um jogador gigante da defesa europeia que, ao subir as escadas do vestiário para o gramado, colidiu a cabeça contra uma lâmpada do túnel.
Mas toda a euforia desmoronou no dia da final contra o Uruguai. O clima de "já ganhou" tomou conta das 200 mil pessoas que se espremiam nas arquibancadas, muitas sentadas de lado para otimizar o espaço. Quando Friaça abriu o placar para o Brasil, a festa parecia consolidada. O gol da virada uruguaia, contudo, transformou o maior estádio do mundo em um deserto de voz. "Foi como um velório", lamenta Gilson. O silêncio que se seguiu ao gol de Ghiggia deu início a uma choradeira geral. A saída do estádio foi lenta, dolorosa e silenciosa. Sem metrô ou ônibus estruturados, a multidão seguiu a pé por quilômetros, sob o peso de um luto que moldaria as décadas seguintes.
A quilômetros dali, em Porto Alegre, o advogado Celso Kaufman, de 85 anos, experimentava aquele mesmo silêncio aos 10 anos de idade. Em uma capital gaúcha que ainda não conhecia as transmissões de televisão, Celso colava o ouvido no rádio para tentar desenhar mentalmente o que acontecia no Rio de Janeiro. A derrota traumática também o marcou, mas serviu como o combustível perfeito para a catarse que testemunharia oito anos mais tarde.
O futebol como retrato do Brasil
Para o sociólogo César Bergo, entender a paixão nacional pelas Copas do Mundo exige uma viagem muito anterior aos títulos conquistados pela Seleção. Ele explica que o futebol chegou ao país no início do século 10 como uma prática restrita às elites, mas aos poucos rompeu barreiras sociais, raciais e econômicas até se transformar em um dos maiores símbolos da identidade brasileira.
Ao contrário de outros elementos culturais, o futebol conseguiu criar uma linguagem comum entre pessoas de diferentes regiões, classes sociais e gerações. A força desse processo se consolidou especialmente em 1958, quando o Brasil conquistou seu primeiro título Mundial. Para Bergo, aquela vitória teve um significado que ultrapassou o campo esportivo: representou uma afirmação internacional do país e provocou uma explosão de orgulho nacional.
O contexto ajuda a explicar a dimensão daquele feito. Durante toda a década de 1950, os brasileiros conviveram com a lembrança dolorosa da derrota para o Uruguai na final da Copa disputada em casa. O triunfo na Suécia, portanto, não foi apenas uma conquista esportiva. Foi uma resposta simbólica a uma ferida coletiva que permanecia aberta desde o Maracanazo.
A partir dali, argumenta o sociólogo, o futebol passou a ocupar um lugar central no imaginário nacional. As conquistas seguintes reforçaram a ideia de que a Seleção representava algo maior do que um time: ela se tornou uma espécie de espelho das aspirações e dos sonhos do país. Não por acaso, muitas pessoas organizam suas próprias memórias a partir das Copas que viveram, associando títulos, derrotas e jogos marcantes a momentos importantes de suas vidas.
Mesmo diante das transformações tecnológicas e da ascensão de outras modalidades esportivas, Bergo acredita que o futebol mantém um papel singular na cultura brasileira. As Copas continuam alterando a rotina nacional, mudando horários de trabalho, escolas, comércio e reunindo famílias inteiras diante da televisão. Mais do que um evento esportivo, elas funcionam como um raro momento de experiência coletiva compartilhada.
Para o sociólogo, essa capacidade de criar pertencimento talvez explique por que o futebol segue tão presente no cotidiano dos brasileiros. Afinal, quando a Seleção entra em campo, milhões de pessoas se reconhecem como parte de uma mesma história. É uma paixão transmitida entre pais, filhos e netos, capaz de atravessar gerações e permanecer viva mesmo em tempos de mudanças profundas na sociedade.
O nascimento da Canarinho e a supremacia de 1958
A necessidade de sepultar a "camisa da maldição" de 1950 fez nascer o maior símbolo visual do esporte mundial. Em 1953, um concurso promovido pelo jornal Correio da Manhã exigiu a criação de um novo uniforme que trouxesse as quatro cores da bandeira nacional. O vencedor foi Aldyr Garcia Schlee, um jovem de apenas 19 anos nascido em Jaguarão (RS), na fronteira com o Uruguai.
Seu filho, Andrey Rosenthal Schlee, 63 anos, arquiteto e professor da Universidade de Brasília (UnB), reconta a história do pai com uma mistura de orgulho e ironia. Aldyr, que faleceu deixando outros dois filhos (Aldyr e Sylvia), guardava uma relação desapegada com o próprio feito. Andrey só descobriu a magnitude da criação do pai aos 10 anos, folheando uma revista antiga da década de 1970 em que se via, ao fundo de uma foto de Aldyr, um calendário com a imagem de Pelé dando uma bicicleta.
"O pai nunca deu muita bola para essa história", revela Andrey, pontuando que o concurso só era lembrado como mera curiosidade às vésperas de cada Copa. Foi apenas no fim da vida que o estilista da amarelinha recebeu o devido reconhecimento internacional. Hoje, os filhos tratam os esboços originais encontrados em uma gaveta comum da casa como um verdadeiro tesouro familiar. O traço definitivo, camisa amarela com gola verde, calções azuis com frisos brancos e meias brancas, redesenhou a autoconfiança do país.
Ironicamente, Aldyr Schlee não torcia para o Brasil. Criado na fronteira, seu coração futebolístico pertencia ao Uruguai. Para ele, o esporte não se confundia com obrigação patriótica. Em 1950, o mesmo Aldyr havia desenhado um álbum completo com os gols da Copa baseando-se apenas nas transmissões de rádio, celebrando discretamente o título celeste.
O triunfo
Com o novo fardamento canarinho, o Brasil desembarcou na Suécia em 1958. O contexto era de otimismo interno com a promessa de modernização e a construção de Brasília promovida pelo presidente Juscelino Kubitschek. Foi nessa Copa que o país parou para ouvir a consagração de Pelé e Garrincha.
Para Celso Kaufman, aquela foi a conquista mais emocionante de sua vida. Ainda dependendo do rádio, mas agora cercado por um grupo de amigos, ele vivenciou a explosão de alegria que varreu o fantasma de 1950. A vitória por 5 x 2 contra os donos da casa provou que o complexo de vira-latas estava definitivamente enterrado.
Silvestre Gorgulho, ex-secretário de Cultura nascido em São Lourenço em 1946, viveu a Copa de 1958 sob uma perspectiva quase monástica. Aos 11 anos, ele era aluno do Seminário dos Padres, um colégio interno em Caxambu (MG). A rigidez religiosa proibia os jovens de ouvirem o rádio. O jeito era depender da frieza do padre superior, que subia ao palanque após os jogos para anunciar, sem qualquer alarde, os resultados aos 60 seminaristas reunidos. Silvestre recorda a noite em que o clérigo avisou sobre uma vitória nas quartas de final: "Hoje o Brasil ganhou do País de Gales de um a zero, gol do Pelé". A notícia gerava uma euforia silenciosa; os meninos passavam os dias imaginando os gols que não podiam ver ou ouvir.
Anos mais tarde, como jornalista e pesquisador, Silvestre colecionou bastidores preciosos daquela campanha diretamente com os campeões. Ele reconta, por exemplo, o episódio em que Zagallo percebeu a ausência da bandeira brasileira no jantar solene de abertura na Suécia. Ao reclamar com o coordenador do evento, Bengt Agren, o sueco insistia, apontando para o mastro, que a bandeira do Brasil estava lá. Como
ninguém falava inglês, Zagallo pediu uma enciclopédia por gestos e provou que os organizadores haviam hasteado a bandeira de Portugal. Foi necessário correr à embaixada para corrigir o erro.
Outro fato pitoresco resgatado por Silvestre foi a definição da numeração das camisas de 1958, que acabou dando a Pelé a mística camisa 10. Zagallo confirmou a ele que a numeração coincidiu estritamente com o número das malas de viagem que cada jogador recebeu no embarque.
Silvestre resgata ainda a história dos prêmios daquele título: os jogadores receberam da CBD uma TV Telefunken e um terno Ducal. O presidente JK também prometeu a cada campeão um lote de mansão na futura capital, Brasília. Contudo, como em junho de 1958, a cidade era apenas um canteiro de poeira, nenhum atleta acreditou no valor daquelas terras e ninguém viajou para registrar os imóveis. Décadas depois, em um encontro com os veteranos, Silvestre calculou que cada um daqueles lotes esquecidos valia cerca de R$ 7 milhões, provocando um arrependimento geral nos heróis do passado.
Foi também na Suécia que o Brasil inaugurou o uso da camisa azul. Como os suecos jogavam de amarelo e a Seleção não tinha um segundo uniforme oficial, os dirigentes da CBD precisaram improvisar na véspera da final. Compraram 13 camisas azuis no comércio de Estocolmo por 35 dólares, arrancaram os escudos das amarelas e os costuraram no novo pano. No próximo mês, a peça azul usada por Pelé naquele jogo será mais uma vez leiloada em Nova York por um por um valor estimado em R$ 30 milhões, podendo ser ainda maior.
Alegria indescritível
Quando o militar veterano Berilo Cavalcanti, hoje com 83 anos, fala sobre a Seleção Brasileira, ele não recorre apenas à memória esportiva. Sua história atravessa praticamente toda a trajetória do Brasil nas Copas do Mundo. Poucos brasileiros podem dizer que testemunharam, mesmo que ainda crianças, o trauma do Maracanazo em 1950 e, oito anos depois, a explosão de alegria que transformou para sempre a relação do país com o futebol.
A primeira lembrança que guarda de uma Copa é justamente a derrota para o Uruguai por 2 x 1 no Maracanã. Mas foi em 1958 que nasceu a recordação mais marcante de sua vida como torcedor. Naquele ano, enquanto o Brasil buscava na Suécia seu primeiro título Mundial, Berilo acompanhava a decisão de uma forma muito diferente dos torcedores atuais: reunido no hall do Automóvel Clube de Barbacena, em Minas Gerais, ouvindo a transmissão pelo rádio.
A conquista inédita permanece, mais de seis décadas depois, como sua maior emoção futebolística. Para ele, aquele título representou o fim de um ciclo de frustrações que parecia perseguir a Seleção desde 1950. Não por acaso, quando é questionado sobre qual das cinco estrelas o emocionou mais, a resposta vem sem hesitação: a de 1958. "Lembro do primeiro gol do Pelé, foi contra o País de Gales, ele deu um chapéu no defensor e garantiu a vitória do Brasil."
As mudanças tecnológicas também ajudam a contar sua própria trajetória. Berilo viu o futebol migrar do rádio para a televisão em preto e branco, depois para as transmissões coloridas e, por fim, para a era digital. Apesar da evolução dos meios, ele acredita que a essência da emoção permanece a mesma. O que mudou, em sua avaliação, foi a forma como os brasileiros celebram os momentos de glória.
Nas décadas passadas, lembra ele, as ruas eram protagonistas da festa. Bandeirinhas cruzavam os bairros, crianças pintavam o asfalto e a troca de figurinhas fazia parte do ritual de cada Copa. Hoje, as comemorações parecem mais concentradas em bares, restaurantes e clubes, refletindo mudanças nos hábitos sociais e urbanos do país.
Entre tantas lembranças acumuladas ao longo de mais de sete décadas acompanhando a Seleção, Berilo guarda a convicção de que poucas experiências se comparam à sensação de ver o Brasil campeão do mundo. Ao tentar explicar esse sentimento para quem nunca o viveu, resume em poucas palavras aquilo que milhões de brasileiros sentiram ao longo da história: uma alegria simplesmente indescritível.
Do bicampeonato ao penta
Em 1962, o Chile sediou a Copa do Mundo em meio ao auge da Guerra Fria e a uma forte crise política no Brasil, que enfrentava o conturbado governo de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. No aspecto tecnológico, o torneio marcou uma transição fascinante para os torcedores brasileiros.
Silvestre Gorgulho, então com 14 anos, estudava agora em um seminário em Belo Horizonte, onde as regras eram mais flexíveis e o rádio era permitido. A televisão já existia no país, mas não havia tecnologia para transmissões diretas via satélite. O fluxo de imagens dependia de uma operação logística aérea. Assim que uma partida terminava em Santiago, um avião da Varig decolava carregando as fitas magnéticas gravadas. Oito horas depois, o material desembarcava no Brasil para ser exibido no videoteipe.
"A gente vivia intensamente cada jogo duas vezes", explica Silvestre. Primeiro, os torcedores sofriam com as ondas do rádio; horas mais tarde, reviam as jogadas e os gols na tela da TV. A intensidade daquela experiência inspirou o jovem Silvestre a escrever uma longa crônica em versos logo após a vitória final por 3 x 1 sobre a Tchecoslováquia, imortalizando a consagração de Garrincha, que jogou a final com 39°C de febre, e de Amarildo, o substituto de Pelé, que estava lesionado. Em suas estrofes, ele cantava o nervosismo do gol inicial de Masopust, a reação rápida do "possesso" Amarildo e o gol decisivo de Zito.
"...O 'Diablo' em ação
Prepara o canhão
Num jogo bonito.
Aproveita um vão
Estende um passão
Na cabeça de Zito.
Zito pulando
O couro alcançando,
Resolve a questão.
A pelota entrando
O triunfo chegando...
É 'Bicampeão'..."
Essa mesma dinâmica de dupla percepção foi vivida por Gilson Belém, que em 1962 trabalhava como contador na recém-inaugurada agência do Banco Ribeiro Junqueira em Brasília. Ele recorda que o gerente de sua agência tinha um primo que ocupava um alto cargo no governo e era um dos raros felizardos a possuir um aparelho de televisão na nova capital. Nos dias de jogo, o grupo se reunia naquela sala para assistir ao videoteipe que chegava com atraso do Chile. Gilson também lembra que, em Copas anteriores, a experiência de torcer era ainda mais rústica. Em 1954, ele acompanhava os lances por meio de alto-falantes instalados nos postes da Rua José Bonifácio, em São Paulo, que replicavam as narrações de Jorge Cury para a multidão que se aglomerava nas calçadas.
Fazendo história
De todas as glórias que presenciou, José Sarney aponta a Copa de 1970, conquistada quando ele tinha 40 anos, como a mais emocionante de sua vida. "Apesar da tensão política, o povo vibrou com o título, como uma sobrevivência emocional coletiva", lembra. O ex-presidente destaca a ousadia do técnico Zagallo ao escalar cinco craques que jogavam na mesma posição em seus clubes: Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson e Jairzinho, encantando o planeta com o puro "futebol arte".
Se as jogadas fascinantes e inigualáveis do "rei" marcaram a memória de Sarney, o título dinástico de Pelé também o envolveu em uma gafe diplomática memorável em Madri. Naqueles dias, o Brasil discutia em um plebiscito a adoção do parlamentarismo e, de forma quase utópica, incluiu-se a opção da monarquia nas discussões. Indagado pela imprensa estrangeira se a realeza teria alguma chance de vencer por aqui, Sarney resolveu responder com uma piada: "O Brasil já tem muitos reis, o maior de todos, rei Pelé. E temos o rei das baterias, o rei do café...". O problema é que a fala foi disparada em plena Espanha, um país monarquista e com o rei no trono. Ao perceber o deslize diante das autoridades locais, o então presidente precisou acionar rapidamente o jogo de cintura político para remendar o comentário, emendando logo em seguida que "diversos países adotam a monarquia como um sistema funcional e estável".
Foi exatamente em1970, no México, que houve a consolidação dessa dinastia brasileira nos gramados, quando o futebol-arte de Pelé, Tostão e Rivellino encantou o planeta e garantiu ao país a posse permanente da Taça Jules Rimet — a honraria máxima dada à primeira nação a se sagrar tricampeã mundial. Anos mais tarde, o torcedor brasileiro aprenderia a testar o coração em novas e eletrizantes frequências. Primeiro, em 1994, nos Estados Unidos, o país prendeu a respiração no drama angustiante da primeira disputa por pênaltis em uma final de Copa, que deu fim a um jejum de 24 anos com a conquista do tetra. Logo depois, em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, veio a redenção incontestável sob o comando do "Fenômeno" Ronaldo, carimbando o título que alçou definitivamente o Brasil ao posto soberano de único país pentacampeão do mundo.
Essa realização do Brasíl também transformou o ato de torcer em um fenômeno social e econômico. Com o passar dos anos e o avanço da internet, Celso Kaufman conta que testemunhou a perda desse caráter comunitário. "Hoje, com a modernidade, passou a ser apenas um jogo importante com uma torcida concentrada no jogo e com informações de todos os lados pelos aparelhos atuais de internet", reflete o advogado. Para ele, houve uma clara diminuição no fervor patriótico unânime que unia o país no passado, embora ele próprio admita que continua incapaz de se desligar da Seleção e segue apostando em novas vitórias.
Essa mudança na relação com o escrete nacional também se manifesta no desabafo bem-humorado de Gilson Belém. Mesmo tendo sido testemunha de toda a era de ouro do futebol brasileiro, o veterano de 91 anos adota uma postura de protesto e avisa que reduziu seu envolvimento emocional com o time atual. O motivo? Critérios de convocação que ele considera injustos, como a ausência do atacante Pedro, do Flamengo. "Levaram quatro do Flamengo e não levaram o Pedro. Eu não vou torcer contra, mas pra mim...", diz ele.
Entre foguetes, balas e a saudade
Quando o aposentado Edmo de Oliveira fala sobre as Copas do Mundo, as lembranças não começam dentro de um estádio ou diante de uma televisão. Elas surgem ainda nos tempos da fazenda, quando os jogos eram acompanhados pelo rádio e a imaginação completava aquilo que os olhos não podiam ver. Foi assim que ele viveu os primeiros mundiais da Seleção, ouvindo as transmissões que mobilizavam comunidades inteiras e transformavam cada partida em um acontecimento coletivo.
A Copa de 1962 ocupa um lugar especial em sua memória. Aos 17 anos, já trabalhando, Edmo decidiu organizar a própria celebração. Comprou foguetes, sacos de balas e reuniu crianças na praça em frente ao colégio da cidade. Ao fim dos jogos do Brasil, distribuía doces para a garotada enquanto os rojões anunciavam a festa. Uma dessas comemorações quase terminou em susto quando um foguete lançado por ele atingiu o telhado de casa. Hoje, a história é contada entre risos, como uma das muitas lembranças que a Copa deixou.
Diferentemente de muitos torcedores, Edmo nunca se interessou por colecionar álbuns de figurinhas ou enfeitar ruas. A rotina de trabalho ocupava o tempo livre que tinha na juventude. Ainda assim, acompanhava atentamente cada Mundial, e não só os jogos do Brasil. Para o torcedor fiel do Botafogo, futebol sempre foi mais do que entretenimento: era um compromisso que atravessava gerações e reunia familiares, amigos e vizinhos em torno de uma mesma expectativa.
Entre todas as Seleções que viu jogar, nenhuma o marcou tanto quanto a de 1970. Na sua avaliação, aquele time representava um futebol diferente do atual. Ele recorda uma equipe que venceu todos os jogos da campanha, encantou o mundo e contava com jogadores que confiavam plenamente uns nos outros dentro de campo. Pelé, Garrincha e, mais tarde, Ronaldinho Gaúcho aparecem em suas lembranças como exemplos de atletas capazes de transformar uma partida com talento e criatividade.
Ele relembra com carinho, também, os bolões que aconteciam no trabalho durante aquela época.
"O primeiro que eu entrei foi na estreia do Brasil em 1970, apostei alto, 4 x 1, e o povo dizendo que eu era doido. Ganhei o bolão sozinho."
Ao olhar para o futebol contemporâneo, Edmo não esconde a nostalgia. Critica o excesso de interesses comerciais em torno da Seleção e acredita que muitos jogadores de hoje atuam mais pelo dinheiro do que pela camisa. Também lamenta a quantidade de publicidade e apostas esportivas que cercam as transmissões atuais. Ainda assim, continua acompanhando os jogos e mantém o mesmo entusiasmo de décadas atrás. "Futebol é futebol", resume.
Dos traumas de 1950 à consagração do manto amarelo de Aldyr Schlee, as histórias cruzadas desses torcedores mostram que a Copa do Mundo foi o espelho no qual o Brasil aprendeu a enxergar a si mesmo. O apito final de cada torneio deixa claro que as táticas mudam e os ídolos passam, mas as memórias de quem viveu a construção desse mito permanecem como o patrimônio mais sólido do país do futebol.
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