
Boa parte de nós, brasilienses, somos formados por cabeça, tronco e rodas. A falta de qualidade do transporte público no DF nos empurra para a locomoção individual de uma maneira que parece não ter solução. As pistas largas e de alta velocidade, as estradas de ligação entre as diversas regiões administrativas cheias e uma disposição para enfrentar o trânsito como quem enfrenta uma guerra transformam os deslocamentos, curtos ou longos, em exercícios de controle mental.
Não são raros os casos da raiva que desembocam no trânsito e que têm consequências graves. O noticiário mostrou recentemente a fechada que um motorista deu em um ciclista no Guará, resultando em queda. É só mais um exemplo de como levamos para as pistas nossas frustrações, nossas expectativas e nossa sensação de que somos únicos do mundo, seres que não podem ser contrariados de jeito nenhum. Isso sem falar da combinação bebida e direção.
Por isso proponho um movimento pela "direção gentil". A prática pode começar na hora de ligar o carro — em todas as partidas, já que esquecer essa história de que estamos disputando alguma coisa nos nossos trajetos e que o outro condutor é alguém empenhado em estragar o nosso dia. Não somos tão importantes assim. Se a saída for mais tranquila, aposto que o percurso também será mais relaxado.
A direção gentil também é solidária. Significa que podemos dar a vez para o parceiro no trânsito e reivindicar a nossa vez quando necessário. Não se trata de deixar todo mundo passar na nossa frente, até porque alguns "espertos" dirigem como se o atraso deles fosse a emergência mais importante daquele momento. É um jogo de vaivém, respeitando as preferenciais e as regras do trânsito, mas abrindo espaço para o improviso, o sorriso e o agradecimento.
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Não confunda a direção gentil com um jeito Polyanna de ser. O trânsito é para ser encarado com atenção, os deslocamentos não são tarefas fáceis e os imprevistos são mais comuns do que gostaríamos. Um pneu furado por um buraco não tampado ou uma imprudência do motorista ao lado podem nos custar horas de perturbação. Mas não partir do pressuposto que temos inimigos na outra faixa ajuda a ir superando obstáculos — não é isso que procuramos fazer no resto da vida?
Também não vale a pena repetir, nas ruas, a divisão de classes. Motoristas das diversas categorias, motociclistas, ciclistas e pedestres estão no mesmo barco. Todos precisam transpor os quilômetros, uns a trabalho, outros nos afazeres do dia a dia, outros por lazer. E a gente pode ser gentil com todos, respeitando os mais frágeis, mas mostrando a eles que a responsabilidade e a atenção devem vir de todos os lados. Uma prática que pode ser abolida de vez, por exemplo, é ficar "avançando" para apressar o pedestre que está atravessando a faixa.
A direção gentil faz bem, em primeiro lugar, para a gente. Torna a vida um pouco mais leve. Depois, faz bem ao sistema de trânsito, que já tem uma lista de outros problemas. Torna o individual mais coletivo, nos ensina a conviver melhor com as diferenças e a ser mais tolerantes. Colabora para sermos pessoas melhores. Vamos tentar?
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