Dia dos Avós

Cheiro de vó e vô: as memórias que o olfato preserva por gerações

O aroma de um perfume, do café passado na hora ou de um sabonete antigo é capaz de despertar lembranças profundas e transformar o Dia dos Avós em uma celebração da memória afetiva

Gabriela Cardoso e Luiz Ernesto Costa Barbosa Gomes -  (crédito: Arquivo pessoal)
Gabriela Cardoso e Luiz Ernesto Costa Barbosa Gomes - (crédito: Arquivo pessoal)

O Dia dos Avós talvez não movimente o comércio como o Dia das Mães ou o Dia dos Pais, mas homenageia um dos afetos mais genuínos que existem. Celebrada em 26 de julho, a data convida a olhar para pessoas que, muitas vezes, assumem o papel de pais pela segunda vez e deixam marcas que atravessam gerações.

Algumas dessas marcas são invisíveis, mas impossíveis de esquecer, como o cheiro do café recém-passado, do perfume usado durante décadas, do sabonete de sempre ou da comida feita sem receita.

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Eu tive o privilégio de conhecer meus quatro avós, Elio, Liane, Socorro e Walter. Apesar de Elio ter partido precocemente, os outros três foram pilares da minha trajetória. Mas, para mim, a experiência de ter avós foi além. Sempre morei com Walter e Socorro, meus avós maternos, o que fez com que eles se tornassem sinônimo de lar.

O outro repórter da Revista do Correio, Eduardo Fernandes, compartilha de uma história parecida. Criado muito próximo dos avós Iracy e Edilton, ele também conhece bem a sensação de ter avós que acabam sendo pais duas vezes.

Receber um chamego e um cheiro dos avós não tem preço. Muitas vezes, é justamente o olfato que mantém esse vínculo vivo. Para mim, o cheiro do café feito na hora (que muda de sabor todos os dias porque meus avós nunca usam medida) e o aroma de comidas como doce de leite me transportam imediatamente para casa.

Há também perfumes que eles usaram durante anos e que, até hoje, bastam aparecer para trazer de volta lembranças inteiras. E essa não é uma experiência restrita a mim ou ao Eduardo. O chamado "cheiro de vó" ou "cheiro de vô" faz parte da memória afetiva de inúmeros netos e atravessa gerações.

Mais do que uma data comemorativa, o Dia Mundial dos Avós, celebrado em 26 de julho, provoca uma reflexão sobre a importância dos vínculos entre diferentes gerações. A ocasião reforça o papel dos avós na construção das histórias familiares, na transmissão de valores e no compartilhamento de experiências que permanecem por toda a vida.

A ciência também confirma os benefícios dessa convivência. Um estudo publicado em junho de 2025 na Social Science Research Network (SSRN) apontou que a participação dos avós na vida dos netos pode trazer impactos positivos para a saúde física e emocional dos mais velhos, com reflexos no bem-estar psicológico, na memória, na função pulmonar e na percepção geral da qualidade de vida.

Para crianças e adolescentes, o contato próximo fortalece o desenvolvimento emocional, amplia o senso de identidade familiar e favorece a troca de conhecimentos entre diferentes gerações.

Uma identidade construída pela convivência

Se a ciência explica os benefícios da convivência, a perfumaria ajuda a entender por que um simples cheiro é capaz de despertar tantas emoções. Para Daniela Domingues, gerente de marketing da Lord Perfumaria, esse fenômeno tem uma explicação clara.

"O que muitas pessoas chamam de 'cheiro de vó' ou 'cheiro de vô' não está ligado a um único aroma, mas às lembranças construídas ao longo da convivência. O perfume que eles usavam, o sabonete, os cosméticos e até o ambiente da casa acabam formando uma identidade olfativa muito particular", explica. "Por isso, quando sentimos uma fragrância parecida, é comum sermos remetidos a momentos de afeto, acolhimento e histórias compartilhadas”, acrescenta. 

Segundo ela, é justamente essa ligação entre memória e olfato que transforma perfumes em presentes carregados de significado. "Existe uma relação muito forte entre memória e olfato. Muitas vezes, uma fragrância nos transporta imediatamente para uma pessoa ou um momento especial. Por isso, os perfumes costumam ser presentes tão simbólicos, principalmente quando falamos de avós, que ocupam um espaço único dentro das famílias."

Embora clássicos da perfumaria, como Anaïs Anaïs, J'Adore, Zen, Narciso Rodriguez For Her e Omnia Crystalline, atravessem gerações, Daniela ressalta que o mais importante não é seguir tendências. "Mais importante do que escolher um perfume tradicional é encontrar uma fragrância que tenha relação com a pessoa. Quando o presente representa a história de quem recebe, ele se torna uma lembrança ainda mais especial", destaca.

Memórias que têm cheiro

A assistente comercial Gabriela Cardoso, 23 anos, cresceu cercada pela avó Rita de Cássia Barbosa, 83, e pelo avô Luiz Ernesto Costa Barbosa Gomes, que morreu aos 84 anos. A convivência intensa moldou gostos, hábitos e lembranças que permanecem até hoje.

Ela lembra bem de como essa proximidade se construiu ao longo dos anos. "Nossa relação sempre foi boa e próxima desde que eu me entendo por gente. Acho que um dos motivos para isso é a grande participação que eles tiveram na minha criação”, diz. “Muitos dos meus gostos de hoje e traços têm influência deles, a minha relação com a música e com o cinema ainda é muito presente e ainda desfruto muito do que meus avós gostavam."

Rita de Cássia Barbosa e Gabriela Cardoso
Rita de Cássia Barbosa e Gabriela Cardoso (foto: Arquivo pessoal)

Entre tantas lembranças de assistir televisão com o avô, uma ganhou um lugar especial. "A mais importante é de uma dessas viagens à feira pra comprar DVD, que quando estávamos no ônibus indo pra casa, começou a chover muito e ele convenceu o motorista a parar na frente da entrada do prédio. Lembro também que foi a primeira vez que ele me colocou para assistir Dragon Ball enquanto ele fazia a janta, que era sempre macarrão com carne moída, a única coisa que ele sabia cozinhar”, conta. 

Já o cheiro da avó resume toda uma infância, feita de uma mistura de tecidos, comida, conversa e afeto que nunca existiam de forma isolada. "Todas as vezes que chegava da escola e encontrava ela costurando no seu quartinho, enquanto assistia novela ou algum filme de comédia do Eddie Murphy, especificamente sempre dele. Como eu e minha irmã só ficávamos até meu pai chegar do trabalho e nos buscar, ela colocava os pratos da janta na mesa que cortava os moldes das peças pra gente poder conversar e ficar um pouco mais de tempo juntas, então os cheiros se misturavam muito e ficaram pra sempre na minha mente."

Hoje, basta encontrar um aroma conhecido para que a memória faça o resto. "Tem coisa até demais, porque eu sinto cheiro ou alguma parte dos meus avós em tudo ao meu redor. Sempre que sinto cheiro de jasmim, licor, açafrão ou tecido me remete sempre ao quartinho de costura dela, terra molhada e boldo me lembra o jardinzinho que ela tem, e esmalte ou perfume J'Adore, leite de rosas ou dos produtos rosa da Granado me remete ao cheiro de sempre dela, que é muito vaidosa."

Muito além de um perfume

Para a perfumista Juliana Bombarda, da Natura, essa relação entre perfume e lembrança tem uma explicação científica. Ela começa pelo perfil olfativo mais associado à terceira idade. "Entre o público da terceira idade, notamos a preferência marcante por famílias amadeirada e floral, com destaque para notas como jasmim, rosa, âmbar, violeta, sândalo e almíscar. São cheiros mais encorpados e envolventes, com boa fixação."

Segundo ela, o apego ao mesmo perfume por tantos anos também faz parte desse processo. "O perfume tem uma relação única com a memória e com as emoções, porque o olfato é o sentido que mais rapidamente nos conecta às nossas lembranças."

A especialista explica que isso pode ser percebido na própria história da perfumaria brasileira. Fragrâncias como Erva Doce, Kriska, Kaiak e a linha Mamãe e Bebê seguem despertando lembranças em diferentes gerações. O mesmo aconteceu com perfumes que voltaram ao catálogo da marca depois de muitos pedidos dos consumidores, como Shiraz, Revelar, Hoje Masculino, Hoje Feminino e Urbano. "É comum recebermos relatos de filhos e netos que reconhecem o cheiro de um avô, de uma avó ou de um familiar querido ao sentir determinada fragrância novamente", diz Juliana.

Do ponto de vista da neurociência, explica a perfumista, o olfato tem uma ligação direta com as áreas cerebrais responsáveis pela memória e pelas emoções. "Por isso, um cheiro consegue despertar uma lembrança e um sentimento antes mesmo de processarmos racionalmente o que está sentindo."

Essa relação é tão simbólica que a própria Natura criou, anos atrás, uma fragrância chamada Vovó, pensada para homenagear e celebrar a relação entre avós e netos.

"Um abraço na alma"

O arquivista Sandney Cristiano Costa, 34 anos, guarda lembranças que começam antes mesmo de qualquer memória consciente. A primeira casa onde viveu era justamente a dos avós Raimundo Pedro Cristiano, 93 anos, e Lourdes Maria Cristiano, 84. "Como a primeira casa em que morei na vida foi a dos meus avós, nossa relação sempre foi de muita convivência e proximidade, algo que se mantém até hoje: eu e meus irmãos visitamos a casa deles com bastante frequência. Sempre me marcou muito acompanhá-los na rotina, nas idas à igreja, nos dias na chácara e nas viagens para visitar a família”, diz.

Raimundo Pedro Cristiano,  Lourdes Maria Cristiano e Sandney Cristiano Costa
Raimundo Pedro Cristiano, Lourdes Maria Cristiano e Sandney Cristiano Costa (foto: Arquivo pessoal)

Uma das recordações mais queridas nasceu da imaginação de uma criança apaixonada por Harry Potter. "Na infância, eu era muito fã de Harry Potter. Lembro bastante de quando minha avó me ajudou a escolher um graveto na chácara para virar a minha 'varinha mágica', e do meu avô dedicando dias para me ensinar a lixar e envernizar o galho até chegar ao formato perfeito”, lembra.  "Já se passaram vinte anos e eu guardo essa varinha até hoje com muito carinho."

Mas, quando pensa nos avós, é outro cheiro que aparece primeiro. "A primeira coisa que vem à cabeça é o cheiro do banho tomado no final da tarde na chácara. Depois de passarem o dia cuidando das plantas e das galinhas, eles tomavam banho antes de a gente voltar pra casa. E esse cheiro do pós-banho deles é exatamente o mesmo até hoje, porque eles continuam usando os mesmos produtos."

E alguns itens do cotidiano continuam funcionando como uma máquina do tempo. "Me lembro imediatamente dos meus avós ao sentir o cheiro do creme para mãos 'Luvas de Silicone' (o favorito da minha avó) e do creme para cabelo 'Trim' (um clássico do meu avô). São cheiros característicos do dia a dia deles que funcionam como um abraço na alma”, cita ele. 

Para a psicóloga Carolina Gomes Cidade, a lembrança da avó Leci Gomes, 88 anos, não está ligada a um perfume específico. É um conjunto de sensações que começa na infância e permanece até hoje.

Leci Gomes, avó de Carolina Gomes Cidade
Leci Gomes, avó de Carolina Gomes Cidade (foto: Arquivo pessoal)

Mesmo morando longe, as duas sempre mantiveram uma relação próxima. "Quando eu penso na minha infância sempre lembro da minha vó e do prédio que ela morava, de brincar com ela, lembro de sempre me sentir muito amada pela minha avó, e de achar ela uma senhorinha diferente, mente aberta, sincerona, e ao mesmo tempo doce. A gente sempre conversou muito."

Entre todas as lembranças, uma continua sendo a mais marcante. "Quando penso na minha vó sempre me vem à mente ela contando histórias da vida dela."

Quando tenta definir o cheiro da avó, Carolina resume em poucas palavras aquilo que muitos netos sentem, mas nem sempre conseguem explicar. "É um cheiro quente e acolhedor."

E existe um aroma capaz de levá-la imediatamente de volta à infância. "Cheiro de lenha queimando."

A estudante Heloísa Panta Veras, 16 anos, também encontra na simplicidade as lembranças mais fortes da avó Nilda Ventura Panta, 82. Ela define a relação entre as duas sem esconder que, como em qualquer família, existem diferenças. "É uma relação amorosa, acompanhada de altos e baixos. O que torna isso tudo tão especial é o carinho que eu tenho por ela."

Heloísa Panta Veras, Daniel Augusto Panta de Araújo, Nilda Ventura Panta e Amélia Ventura Panta
Heloísa Panta Veras, Daniel Augusto Panta de Araújo, Nilda Ventura Panta e Amélia Ventura Panta (foto: Arquivo pessoal)

A memória mais marcante também é uma cena cotidiana. "Guardo a memória da minha vó pedindo para arrumar seu cabelo e escolher a sua roupa."

Quando perguntada sobre qual cheiro representa a avó, a resposta vem sem rodeios. "Café. Docinho como mel."

Já o lugar que desperta imediatamente essa memória afetiva é outro. "Roça. Desperta alegria e um abraço que não tem igual."

 

  • Rita de Cássia Barbosa e Gabriela Cardoso
    Rita de Cássia Barbosa e Gabriela Cardoso Foto: Arquivo pessoal
  • Heloísa Panta Veras, Daniel Augusto Panta de Araújo, Nilda Ventura Panta e Amélia Ventura Panta
    Heloísa Panta Veras, Daniel Augusto Panta de Araújo, Nilda Ventura Panta e Amélia Ventura Panta Foto: Arquivo pessoal
  • Raimundo Pedro Cristiano,  Lourdes Maria Cristiano e Sandney Cristiano Costa
    Raimundo Pedro Cristiano, Lourdes Maria Cristiano e Sandney Cristiano Costa Foto: Arquivo pessoal
  • Leci Gomes, avó de Carolina Gomes Cidade
    Leci Gomes, avó de Carolina Gomes Cidade Foto: Arquivo pessoal
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postado em 26/07/2026 11:25
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