"Não recordamos dias, recordamos momentos"
Cesare Pavese, poeta italiano
Ushuaia (Argentina) — Gosto de separar o viajante do turista. O viajante é aquele que curte um destino sem roteiro ou agenda rígida pré-determinada, segue seu ritmo e observa com mais intensidade lugares, pessoas, cultura e, principalmente, a gastronomia. O turista tem um perfil diferente, sai de casa com tudo definido, seleciona locais instagramáveis, concorridos e badalados. Confesso que sou um pouco dos dois, pendendo para o primeiro.
Viajar para Ushuaia, na Patagônia Argentina, certamente agradará o viajante e o turista. A acolhedora cidadezinha, entre a Cordilheira dos Andes e o Canal de Beagle, reserva paisagens e locais exuberantes nessa época do ano. Sim, é a chegada do inverno, da neve e do calor das estações de esqui e outros esportes do gelo.
Te convido, caro leitor, a me acompanhar nessa viagem marcante, com momentos incríveis. À convite da GOL, saí de Guarulhos (SP) direto ao Aeroporto Internacional de Ushuaia — Malvinas Argentinas. Foram cinco horas e meia de voo. Se você tiver um dinheirinho extra, vale a pena reservar uma poltrona na categoria premium economy. A GOL opera com três voos semanais, terças, quintas e sábados, até 29 de agosto, partindo sempre às 9h30.
Para grata surpresa, o voo número G3 7176 estava nas mãos da comandante Thays Gonçalves. Uma mulher tocando o avião! Que orgulho! Como tem de ser. Você sabia que nas três principais companhias do país (GOL, Azul e Latam há 235 mulheres atuando como pilotas, comandantes e co-pilotas)? Muito legal!
Depois de uma viagem tranquila, chegamos a Ushuaia. Essa é a segunda vez que visito a cidade, a primeira foi em março de 2019, quando tive a sorte de fazer uma reportagem na Antártica (confira vídeo) e, no retorno, fiquei três dias na cidade da Terra do Fogo, que hoje tem 90 mil habitantes. Ushuaia é o destino com temporada de neve mais longa do Hemisfério Sul.
Depois de fazer o check-in no Hotel Albatros, na Avenida Maipú, e provar/alugar as roupas de frio, fui matar a saudade do pub irlandês Dublin, na Rua 9 de Julio 168, a poucos metros da principal avenida da cidade, a San Martín, onde quase tudo acontece. "Uma cerveja Guinness, por favor!". No dia seguinte, ao lado do guia argentino Lucas Pinheiro e um pequeno grupo de jornalistas brasileiros, seguimos para o Cerro Castor, a 26km da cidade.
Pela janela da van, montanhas geladas da Cordilheira dos Andes nos acompanhavam. Que paisagem! Vale cada clique. O Cerro Castor é uma das estações de esqui mais famosas do planeta. Lá, atletas olímpicos de várias partes do mundo fazem contra-temporada, quanto há verão no Hemisfério Norte, a neve branqueia o extremo sul das Américas. Ao todo, o Cerro Castor possui 31 pistas de esqui com graus de dificuldades distintas, como as destinadas a iniciantes (9, cor verde), intermediários (4, cor azul), avançados (14, cor vermelha/preta) e especialistas (4, cor preta).
Confira os vídeos feitos durante a viagem:
14 graus negativos
Passear pelo local, vale cada foto. Mas aquele dia, 10 de julho, era uma data especial para os argentinos. O Cerro Castor foi palco da tradicional Fiesta Nacional del Invierno, a que abre a estação para turistas e esquiadores. Que beleza de festa! Começou às 13h com farta distribuição de delícias gastronômicas da região, como vinhos, empanadas, sopas variadas, chocolate quente, tudo de graça. Os DJs se revezaram entre clássicos da música eletrônica e do pop argentino. Uma multidão de quase duas mil pessoas, muitas famílias e crianças, aproveitava cada minuto da festa, mesmo numa temperatura de 14 graus negativos. Uma grande confraternização e espírito de coletividade.
O ponto alto foi a descida das tochas na principal pista de esqui do Cerro Castor. Emocionante ver esquiadores e snowboarders deslizarem em zigue-zague carregando tochas e luzes ao som de A conquista do paraíso, do compositor grego Vangelis. O outro dia da viagem estava reservado para conhecermos o Parque Nacional Tierra del Fuego e o Trem do Fim do Mundo, a quase 11km de Ushuaia. Bem agasalhado e com a câmera do celular a postos, peguei a Maria Fumaça, hoje movida a diesel, para aproveitar os 7km da ferrovia original, construída por presidiários no início do século 20 para extração de madeira (lenha), item fundamental de sobrevivência da cidade nessas terras geladas.
Lentamente, a locomotiva (batizada de Camila) e seus vagões percorreram o cenário pintado de neve, onde Leonardo DiCaprio protagonizou cenas do filme O Regresso, de 2015. A Estacion Fin Del Mundo oferece duas opções de viagem, pela Classe Turística (com vagões tradicionais) e a Classe Premium (que inclui serviço de bordo com lanches e bebidas, como chocolate quente, alfajor, iogurte, torrada e geleias). Vale a pena gastar um pouco mais (as dicas para consultar entradas e tíquetes estão no fim desta reportagem).
A charmosa locomotiva Camila, devagar atravessa o Vale do Rio Pipo e seus bosques subantárticos, onde cavalos selvagens pastam livremente. Trinta minutos depois, a Estação Macarena, no meio do parque, é parada obrigatória para belas imagens e, melhor, para apreciar a paisagem com calma e respirar o ar puro da Terra do Fogo. Não pensar em nada. Só contemplar. Guardar tudo no HD das emoções.
Aventura à vista
Nessa época do ano, o Sol começa a nascer por volta das 10h, e é um alvorecer fantástico! Avermelhado e cortado pelo som das aves do Canal de Beagle. No roteiro do dia está prevista aula de snowboard no Cerro Martial, a estação de esqui mais próxima da cidade, cerca de 7,5 km do centro de Ushuaia. Depois de alugar os equipamentos, subimos pelo recém-inaugurado teleférico para as pistas dos iniciantes. Apesar do frio intenso, a neve relutava em cair, mas, por volta das 14h, ela começou a brotar do céu, como uma bênção. Uma alegria infantil tomou conta de mim. Não era a primeira vez, mas que saudade!
A instrutora Hanna, foi bem didática, mas eu não passei dos quatro metros deslizando até a fatídica queda de snowboard. Não nasci para isso, porém ficou registrado em vídeo para eu mostrar aos amigos. A neve se intensificou e tomou todo o Cerro Martial, um glaciar monumental. Instagramei a paisagem na hora!
À noite, os administradores do Cerro Martial ofereceram um passeio noturno pelas montanhas, imperdível. Ao final, um brinde com espumantes de delícias gastronômicas da Patagônia, como um embutido de cordeiro patagônico. Que sabor...
De manhã, retornamos ao Cerro Castor, desta vez para aulas de esqui. Minha experiência com snowboard foi radical demais (risos), mas resolvi encarar. Alugamos os apetrechos e subimos o teleférico. Os esportes na neve são para toda família, não importa a idade, do esquibunda para crianças ao esporte de competição.
Além dos espaços destinados a práticas esportivas, o lugar tem disputadas áreas de hospedagens, lojas de souvenirs, lanchonetes e um restaurante, o Morada del Águila, que serve um dos melhores cordeiros patagônicos da região, que harmoniza perfeitamente com um bom vinho nacional. Bem perto do Cerro Castor, há um vale onde fica o Centro Invernal Tierra Mayor, outro local para esportes de inverno e com boa infraestrutura. A dica é curtir o entardecer gelado pilotando uma moto de neve. Demais! Uma sensação que recomendo.
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Canal de Beagle
A neve foi embora, e um Sol tímido nos deu bom-dia, apesar do frio constante. Era hora de embarcar para conhecer o Canal de Beagle, o mítico estreito onde grandes navegadores cruzaram entre o Atlântico e o Pacífico, pequenas ilhas formam o arquipélago da Terra do Fogo. Num barco bem aquecido, embarcamos para conhecer alguns pontos turísticos, a começar pela própria Baía de Ushuaia. Aos poucos a embarcação se distancia da cidade, que resplandece aos pés da Cordilheira dos Andes.
No roteiro, a pequena Ilha dos Pássaros é a primeira parada. O barco se aproxima para fotos em silêncio. Aves marinhas como gaivotas, albatrozes e as cormoranes (que parece com pinguins). Em seguida, visitamos a Ilha dos Lobos, onde moram os imponentes lobos-marinhos, que aproveitam o Sol para se espreguiçarem entre as rochas.
Em seguida, a embarcação nos levou ao icônico Farol Les Eclaireurs, com suas colônias de aves e uma história que remete aos navegantes do século 20. Sua construção começou em 1918, mas o funcionamento aconteceu a partir de 1920. Vale a pena, guardar o celular e a máquina fotográfica para admirar essa beleza. O ponto final foi a Ilha Bridges, onde os passageiros puderam desembarcar e fazer uma rápida caminhada, além de tirar fotos com Ushuaia e os Andes ao fundo. Como escreveu o poeta italiano Cesare Pavese: "Recordamos momentos".
Três perguntas para
Bruno Balan (gerente-executivo de Planejamento da GOL)
O que levou a Gol a criar uma linha direta para Ushuaia, partindo de Guarulhos (SP)?
A GOL criou a rota direta entre Guarulhos-Ushuaia para atender à demanda de viagens a lazer para a Patagônia argentina durante a alta temporada de inverno, oferecendo mais conectividade entre o Brasil e a Argentina, que é um dos principais mercados internacionais da GOL. O voo proporciona um ganho relevante de tempo e conveniência para todos os brasileiros com destino à Patagônia. O Ushuaia reúne paisagens singulares, montanhas, lagos, estação de esqui e uma gastronomia reconhecida, proporcionando uma experiência completa aos viajantes.
Como foi montar uma estrutura brasileira no aeroporto argentino? Essa operação vai até 29 de agosto?
A implantação da operação foi resultado de mais de um ano de planejamento e de um trabalho conjunto entre a GOL, autoridades locais e parceiros do setor de turismo argentino. Essa articulação foi fundamental para viabilizar a nova rota e preparar toda a estrutura necessária para atender à demanda da alta temporada de inverno na Patagônia. A GOL também opera sazonalmente voos de Guarulhos (GRU) para Bariloche (BRC), outro importante destino da região, que, neste inverno, segue em operação até 2 de agosto. Há 21 anos, a GOL está presente no corredor Brasil–Argentina e atende regularmente quatro cidades e cinco aeroportos: Buenos Aires, por Ezeiza (EZE) e Aeroparque (AEP), além de Mendoza (MDZ), Córdoba (COR) e Rosário (ROS). Durante a alta temporada de inverno, a malha é ampliada para seis cidades e sete aeroportos, com a inclusão das operações sazonais para Ushuaia e Bariloche.
Os voos diretos para Ushuaia serão até 29 de agosto de 2026, com três frequências semanais de ida e volta, às terças, quintas e sábados. A duração prevista é de 5h55 no trecho de ida e 5h40 no retorno.
A companhia tem estudos para novos trajetos a partir da experiência de Ushuaia?
Como parte dessa estratégia e diante do crescente interesse pela Patagônia também durante o verão, a Companhia retomará os voos para Ushuaia entre 26 de novembro de 2026 e 27 de março de 2027. A operação sazonal também atenderá El Calafate (FTE), destino inédito na malha da GOL, que contará com voos sem escalas do Brasil pela primeira vez. A partir de 17 de dezembro, a GOL também passará a operar voos diretos entre o Galeão (RJ) e Salta (Argentina), no Norte do país, com duas frequências semanais. A nova rota será regular e conectará dois importantes polos turísticos da América do Sul, além de fortalecer o Galeão como hub internacional da GOL.
Gastronomia de excelência
Na Avenida Maipú, que é a costeira, o turista poderá apreciar a famosa centolla, no restaurante El Viejo Marino. É um caranguejo enorme dos mares do Sul, que possui uma carne saborosa, mas assim como o nosso do Nordeste, dá trabalho para comer.
Também na Maipú, você pode provar o cordeiro patagônico na Casimiro Biguá Parrilla. Mas o que recomendo é uma experiência no Kalma Restô, do chef Jorge Monopoli, um refinado cozinheiro de produtos da Terra do Fogo. Criado em 2009, o restaurante é ponto de encontro dos apaixonados por gastronomia. "É o que gosto de fazer, uso produtos da região, vou buscá-los nas fazendas próximas. Tenho um grande respeito pelos agricultores e pescadores. Há uma relação afetiva entre nós. O resultado pode ser constatado no nosso cardápio", revelou Jorge.
Conversa com o chef Jorge
O Kalma nasceu do meu desejo de construir uma cozinha profundamente conectada ao lugar onde vivo. Mais do que criar um restaurante, a ideia sempre foi contar a história da Terra do Fogo por meio de seus ingredientes, das estações e das pessoas que fazem parte deste território. Desde o início, pensei o Kalma como uma cozinha de entorno: uma proposta que respeita o ambiente, valoriza os produtos locais e busca traduzir a identidade do fim do mundo em cada experiência.
2. Qual é a importância de preservar os sabores patagônicos no menu?
Preservar os sabores patagônicos é também preservar uma cultura, um território e uma forma de produzir.
Acredito que a gastronomia seja uma maneira de conhecer um destino. Quando um visitante prova um peixe capturado nas águas do Canal Beagle, um cordeiro criado na estepe fueguina ou um vegetal cultivado localmente, ele está conhecendo uma parte da história e da identidade deste lugar. Meu objetivo não é simplesmente reproduzir receitas tradicionais, mas interpretar o território com respeito e sensibilidade.
3. É forte a presença de turistas brasileiros no restaurante interessados em conhecer a cultura da Terra do Fogo?
Sim. O público brasileiro sempre teve uma presença muito importante em Ushuaia e, nos últimos anos, percebemos um interesse crescente por experiências gastronômicas que vão além do turismo mais tradicional. Muitos brasileiros chegam ao Kalma justamente em busca de uma conexão mais profunda com a cultura local. Querem conhecer os ingredientes, entender a origem dos produtos e viver uma experiência que faça sentido dentro da viagem.
4. Você usa produtos orgânicos plantados em hortas artesanais e peixes escolhidos por você junto a pescadores selecionados. Como é essa relação com os produtores locais?
Essa relação é um dos pilares da nossa cozinha. Trabalhamos muito próximos de pescadores artesanais, pequenos produtores e agricultores locais que compartilham os mesmos valores de respeito pelo território e pelos ciclos naturais. Alguns ingredientes vêm de pequenas hortas e cultivos da região, sempre respeitando a sazonalidade e a disponibilidade de cada produtor.
Mais do que buscar um determinado tipo de produção, buscamos conhecer a origem de cada ingrediente e construir relações de confiança com quem produz e pesca. Essa proximidade nos permite trabalhar com produtos frescos, entender seus ciclos e valorizar o trabalho de quem ajuda a construir a identidade gastronômica da Terra do Fogo. Cada ingrediente tem uma história, e gostamos de contar essas histórias por meio dos nossos pratos.
5. Qual o prato que mais representa suas ideias na cozinha?
É difícil escolher um único prato, porque a nossa cozinha está em constante transformação. Se tivesse que apontar algo que representa melhor a nossa filosofia, diria que é a Experiência Kalma | Espírito da Terra do Fogo. A proposta muda de acordo com as estações, a disponibilidade dos produtos e aquilo que o entorno oferece em cada momento. Não busco trabalhar apenas com os ingredientes mais conhecidos da região, mas também recuperar produtos, cortes e sabores que muitas vezes ficam fora da visão mais convencional sobre a gastronomia fueguina.
Interessa-me descobrir outras formas de contar este lugar: valorizar matérias-primas menos evidentes, aproveitar o produto de maneira integral e transformá-lo a partir de um olhar próprio. Por isso, mais do que um prato fixo, o que melhor representa minhas ideias é essa busca constante por uma cozinha com identidade, conectada ao lugar, mas sem repetir necessariamente aquilo que o visitante espera encontrar.
