
Entre ruas de pedra, casarões coloniais e cachoeiras de água gelada, Pirenópolis parece desacelerar o tempo. A cidade histórica goiana, fundada em 1727, acaba de entrar para a lista dos 10 destinos mais acolhedores do mundo em 2026, segundo a Booking.com, sendo a única representante brasileira do ranking. E depois de passar alguns dias por lá, ficou fácil entender o motivo.
A cerca de duas horas de Brasília, Pirenópolis mistura natureza, gastronomia, arquitetura e um ritmo de vida mais gentil. O destino funciona tanto para uma viagem romântica quanto para férias em família. Para casais, há clima intimista, bons restaurantes, pores do sol cinematográficos e hospedagens cercadas pelo Cerrado. Para famílias, cachoeiras acessíveis, lojinhas, sorveterias e passeios tranquilos pelo centro histórico ajudam a transformar o passeio em uma experiência acolhedora.
O primeiro impacto da cidade ocorre ainda antes de qualquer atração turística. É o chão. Caminhar pelas ruas de pedra obriga o visitante a diminuir o ritmo e olhar para onde pisa, em vez de atravessar a rua encarando o celular. E talvez seja justamente aí que Pirenópolis começa a conquistar.
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As portas coloridas dos casarões coloniais, preservadas desde o século 18, dividem espaço com galerias de artesanato, restaurantes escondidos, cafés charmosos e pequenas lojas de roupas, doces, cachaças e decoração. Tudo parece convidar o visitante a entrar sem pressa.
A famosa Rua do Lazer concentra boa parte do movimento turístico. Vinhos, cervejas artesanais, massas, pizzas, comida regional, restaurantes árabes e portugueses se espalham entre mesas ao ar livre e música ao vivo. O cheiro de comida boa acompanha quem passa por ali.
Gastronomia que acolhe
Foi justamente pela gastronomia que comecei a entender melhor o sentimento de acolhimento que fez Pirenópolis entrar no ranking mundial. No café da manhã, a escolha foi o Pé di Café. Apesar da fila de espera de cerca de 15 minutos, o ambiente aconchegante e o atendimento atencioso fizeram a espera valer a pena. O cappuccino brasileiro chegou cremoso. Os croissants, impecáveis. O de peito de peru era leve e equilibrado. Já o de crema belga com geleia parecia sobremesa de filme francês.
A proprietária do café, Juliana Evangelista, explica que a cidade possui uma identidade gastronômica própria, construída não apenas pelos sabores, mas pela forma de servir. "Buscamos fazer um resgate à experiência de se alimentar confortavelmente, sem complexidades ou excessos", afirma.
Segundo ela, o patrimônio histórico influencia diretamente os restaurantes da cidade. "Essa experiência é completada com diversos estabelecimentos instalados em casarões antigos, trazendo sensação de bem-estar e acolhimento."
A preservação da estética colonial também ajuda a manter o charme do município. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) estabelece regras para construções e reformas na região central, garantindo que a cidade mantenha suas características originais.
No almoço, o Empório do Cerrado apresentou outra faceta de Pirenópolis, a valorização da cultura regional. Localizado na Rua do Lazer, o restaurante une música ao vivo, carta de vinhos e pratos inspirados nos sabores do cerrado. O grande destaque da casa foi o Risoto Cerrado, feito com pequi e sobrecoxa de frango desossada grelhada na laranja. Um prato intenso, aromático e muito brasileiro.
O proprietário Aniz Zampieri Neto acredita que o acolhimento da cidade passa diretamente pelas pessoas. "A gastronomia em Pirenópolis se deve aos cozinheiros de mãos maravilhosas que repassam carinho e amor aos pratos vindos dos antepassados", diz. Ele também defende a preservação da identidade arquitetônica da cidade. "Quem foge dessa identidade está fugindo das raízes maravilhosas dessa bela cidade."
Outra experiência gastronômica marcante foi o restaurante italiano Detália. O espaço pequeno e aconchegante parecia abraçar os clientes. O ravioli de queijos com iscas de filé e cogumelos chegou delicado e extremamente saboroso. Já o risoto trio de cogumelos transformou um almoço comum em um daqueles momentos que permanecem na memória da viagem.
Mas talvez a experiência mais surpreendente tenha vindo da sobremesa. A sorveteria Colorê virou parada obrigatória nos dois dias da viagem. Entre sabores tradicionais e combinações improváveis, experimentei sorvete de limão com manjericão e outro de gorgonzola com goiaba. Apesar dos sabores fugirem do convencional, surpreenderam no sabor.
Imersão na natureza
Pirenópolis também conquista pela natureza. E a Reserva Andorinhas traduz isso bem. O local reúne trilhas curtas, cachoeiras, piscinas naturais, restaurante, cafeteria e um dos pores do sol mais bonitos da região. Para quem não gosta de caminhadas longas, a experiência é ideal, pois são quatro cachoeiras e a mais distante fica a apenas 12 minutos de caminhada.
O gerente operacional da reserva, Anésio Ferreira Soares Neto, explica que o espaço tenta unir ecoturismo, gastronomia e contemplação. "Tudo o que queremos é um bom lugar, com conforto e requinte, em meio à natureza. Isso acaba criando um vínculo emocional", afirma.
Para os aventureiros, a reserva ainda oferece atividades como rapel e canionismo. Em breve, uma trilha de mountain bike também será inaugurada. O espaço também desenvolve projetos ambientais, como reaproveitamento de materiais recicláveis, compostagem e reflorestamento.
Mas nenhuma experiência em Pirenópolis traduz tão bem o conceito de aconchego quanto acordar cercado pela natureza. Hospedada na Villa dos Pireneus, entendi rapidamente por que tantos visitantes trocam hotéis tradicionais por pousadas integradas ao Cerrado.
A estrada de terra de seis quilômetros até a propriedade já funciona como uma espécie de transição entre a correria da cidade e a tranquilidade da serra. No entanto, apesar do espaço ser ideal para quem busca relaxar e se conectar com a natureza, carece de uma logística maior para quem também quer aproveitar as belezas do centro da cidade.
A pousada combina arquitetura inspirada em haciendas mexicanas, quartos espaçosos, decoração acolhedora e uma piscina de borda infinita que parece se conectar diretamente com a paisagem natural. O vento constante da Serra dos Pireneus, o silêncio, o cheiro do mato e o céu alaranjado no fim da tarde criam uma sensação rara de descanso verdadeiro.
O café da manhã tinha cara de comida feita em casa. Os espaços coletivos eram tão bem decorados que dava vontade de permanecer ali mesmo sem programação alguma. Arthur Fonseca, proprietário da pousada e frequentador de Pirenópolis desde os anos 1970, acredita que o maior luxo da cidade é justamente a natureza. "A busca pela pousada é essa interação entre conforto e natureza. Tendo a natureza como o luxo da hospedagem", resume.
Segundo ele, o acolhimento da cidade também está ligado à preservação cultural e histórica. "O que faz Pirenópolis ser acolhedora é seu aspecto original e pouco mexido, sobretudo o charme do pé de moleque", afirma, referindo-se às tradicionais ruas de pedra do centro histórico.
Arthur relembra que a cidade há décadas atrai artistas, intelectuais, diplomatas e viajantes em busca de tranquilidade. E talvez seja exatamente essa mistura entre simplicidade, cultura e natureza que torna Pirenópolis tão especial.
Visitar a Igreja Nossa Senhora do Rosário, considerada o maior patrimônio histórico eclesiástico de Goiás, ajuda a entender a dimensão histórica da cidade. Construída em taipa, a igreja abriga a imagem da padroeira local e segue como um dos símbolos mais importantes do município.
Mas o verdadeiro encanto de Pirenópolis não está apenas nos pontos turísticos. Está nos detalhes. Em caminhar sem pressa pelas ruas históricas, em encontrar um restaurante escondido, em entrar em uma lojinha de artesanato sem intenção de comprar nada, em parar para tomar um drinque enquanto o céu muda de cor, em mergulhar numa cachoeira gelada depois de enfrentar o calor de 30ºC de Goiás, sentir o corpo formigar e minutos de clareza mental silenciosa.
Pirenópolis parece funcionar exatamente nessa pausa. Uma cidade onde o turismo ainda consegue coexistir com história, natureza e identidade cultural. Não à toa, entrou para a lista dos destinos mais acolhedores do planeta.
*A repórter viajou a convite do Booking.com

Revista do Correio
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