Crônica

Crônica: As rosas adoecidas do nosso jardim

A ilusão da saciedade e o vazio emocional do emagrecimento rápido com o uso das canetas emagrecedoras

As canetas emagrecedoras e o dilema entre vazio e saciedade -  (crédito: maurenilson)
As canetas emagrecedoras e o dilema entre vazio e saciedade - (crédito: maurenilson)

Rosa nunca comeu apenas por fome. Comia para anestesiar a raiva que não podia expressar. Para preencher o silêncio das noites. Para suportar a solidão. Para recompensar uma infância difícil. A comida era menos um alimento do que um analgésico emocional.

Engordou. E, numa sociedade que transformou a magreza em virtude moral, passou a carregar não apenas quilos, mas culpa, vergonha e invisibilidade. Então, surgiu o milagre.

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Uma pequena caneta prometia aquilo que décadas de dietas jamais haviam conseguido. Pela primeira vez, Rosa não precisava lutar contra a comida. Era como se o cérebro finalmente desligasse o ruído incessante da compulsão. O desejo diminuía, a saciedade aparecia, o peso caía. Ela renascia diante do espelho.

Mas havia uma pergunta que quase ninguém fazia. Se a comida era a muleta que sustentava a dor, o que acontece quando tiramos a muleta antes de tratar a fratura?

Os agonistas de GLP-1, como o Mounjaro, não atuam apenas no intestino. Conversam com regiões profundas do cérebro: hipotálamo, sistema límbico, tronco cerebral e circuitos de recompensa como o núcleo accumbens e a área tegmental ventral. Não reduzem apenas a fome; alteram a forma como o cérebro atribui valor, prazer e motivação. Para quem tem diabetes, representa uma luz no fim do túnel, mas, para milhões de pessoas que estão se automedicando, não é bem assim.

A comida deixa de consolar, mas a tristeza continua ali. Apenas perdeu sua tradução em chocolate, pizza ou sorvete. Alguns descrevem uma sensação estranha: tudo parece um pouco mais cinza. A ciência chama isso de anedonia, a dificuldade de sentir prazer. É como se o volume da recompensa cerebral tivesse sido abaixado junto com o apetite.

Na semana passada, um movimento chamou a atenção do mercado. A Lilly, fabricante do Mounjaro e do Zepbound, anunciou a aquisição da Atai Beckley por US$ 3,8 bilhões. O grande interesse não era um novo remédio para emagrecer, mas um spray nasal para depressão resistente, em fase avançada de desenvolvimento. Decisão estratégica visionária? O que será que uma das maiores farmacêuticas do mundo enxergou que nós ainda não enxergamos?

Seria precipitado concluir que há uma relação direta entre os dois movimentos? Se uma tecnologia modifica profundamente os circuitos de recompensa do cérebro, é razoável investigar como restaurar, quando necessário, a capacidade de sentir prazer, motivação e significado. Nossa personagem hipotética Rosa emagreceu. Recebeu elogios. Voltou a entrar nas lojas que antes evitava. As pessoas passaram a dizer que ela estava linda, incrível e radiante. Só ela sabia que não estava.

Porque a verdadeira obesidade nunca morou apenas em seu corpo, e sim nas dores invisíveis que ela carregava. Não consigo deixar de refletir sobre esse tema, pois sei que o cérebro humano não funciona por departamentos. Alterar os circuitos da fome pode reverberar nos circuitos do prazer, da motivação e do sentido de viver. Sei também que não existe almoço grátis. Nem mesmo quando ele promete nos proteger das próprias fomes.

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postado em 02/08/2026 06:00
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