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A esperança que vem da solidariedade: a transfusão sanguínea animal

Doação de sangue entre os pets tem o poder de dar nova chance de vida ao animais. Descubra se seu cachorro ou gato está apto a doar e ajude a reforçar os estoques

Os animais devem seguir uma série de requisitos para serem doadores -  (crédito: Magnific)
Os animais devem seguir uma série de requisitos para serem doadores - (crédito: Magnific)

Assim como nos humanos, a transfusão sanguínea em animais pode ampliar as chances de salvamento de cães e gatos que passam por cirurgias ou acidentes. As informações sobre os processos de doação e recebimento de sangue ainda não são amplamente disseminadas, o que impacta diretamente os estoques dos bancos de sangue. Nesse sentido, o conhecimento sobre a importância da doação pode salvar vidas.

Anemia com repercussão clínica, hemorragia aguda e distúrbios hemorrágicos associados à trombocitopenia, disfunção plaquetária ou deficiência de fatores da coagulação são algumas situações em que pode haver indicação de transfusão de hemocomponentes. 

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Salvador Ribeiro Chaves Neto, médico veterinário e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), afirma que a necessidade de transfusão nesses casos ocorre por três motivos principais: redução de sua produção pela medula óssea, perda sanguínea ou destruição acelerada das hemácias, chamada hemólise

"Pode ser decorrente de uma falha na produção, na medula, que a gente conhece como aplasia ou hipoplasia. Aplasia é quando ocorre a diminuição completa e hipoplasia parcial, uma destruição acelerada da hemácia, conhecida como hemólise, e uma perda de sangue aguda decorrente de uma hemorragia. Um trauma sobre um vaso sanguíneo, resultando em uma hemorragia intensa", detalha o especialista.

Além disso, em casos de acidentes, o sangue pode ser perdido rapidamente, havendo a necessidade de reposição imediata. "Traumas e hemorragias de forma aguda, decorrente de um atropelamento, a laceração de uma víscera e até uma ruptura de um tumor, como o hemangiosarcoma, que ocorre frequentemente no baço. Pode gerar o que a gente conhece como choque hipovolêmico, decorrente de uma perda substancial de sangue."

"Quando o sistema imune e destrói as hemácias, levando a uma queda rápida, o hematócrito, que é a quantidade de sangue total do indivíduo. A hemotrofose, que são doenças transmitidas por carrapato, como a herlique, a abdése, o anaplasma, essas causam uma anemia severa e uma redução da quantidade de plaquetas e requer também a transfusão de plaquetas, assim como o concentrado de hemácias", finaliza o professor.

Diante disso, os estoques de sangue animal têm grande demanda e, muitas vezes, a quantidade disponível não supre as necessidades. Plínio Rossi, médico veterinário hematologista, fundador e responsável técnico do Centro Veterinário de Hemoterapia (CVH) e sócio-fundador da Associação Brasileira Veterinária de Hematologia e Medicina Transfusional (ABVHMT), vive essa realidade no dia a dia. "O maior desafio é formar e manter um número suficiente de animais doadores. Assim como ocorre na medicina humana, os bancos de sangue veterinários dependem da conscientização dos responsáveis sobre a importância da doação."

Estoques que salvam vidas

Renata Arantes, 39 anos, advogada e proprietária de pet shop, foi uma das tutoras beneficiadas. Sua cadela da raça pastor alemão, Maya, tinha anemia hemolítica — condição na qual o próprio organismo destrói os glóbulos vermelhos precocemente. "Ela precisava de transfusões constantes. O banco de sangue fornecia as bolsas e a equipe sempre foi muito solícita. Na época, precisei ficar com ela na UTI e muitos amigos levaram seus cães para doar, pois a situação dos estoques era crítica."

Ela relembra que foi a solidariedade de diversos doadores que salvou sua cadela, que morreu em dezembro do ano passado. Após essa experiência, Renata se conscientizou e levou seus outros animais para serem doadores. Hoje, mais de 10 de seus pets doam sangue a cada três meses e fazem parte do clube de doadores.

Para doarem de forma segura, os animais precisam cumprir uma série de requisitos básicos. Os cães devem pesar, no mínimo, 25kg, e os gatos 4kg, além de terem idade entre 1 e 8 anos. O comportamento dócil é fundamental para permitir a manipulação adequada pelos profissionais.

Além desses requisitos, o animal não pode ter histórico de recebimento de transfusões, problemas cardíacos ou convulsões, estar no cio, gestando ou amamentando, nem tomar medicações contínuas. A carteira de vacinação e o esquema de vermifugação em dia também são exigências para garantir a segurança da doação.

Renata conta que sempre manteve cuidados rigorosos com seus animais, mas que a rotina de doação ampliou esse zelo. "Por fazerem parte do clube de doadores, a cada doação eles passam por um check-up completo com a equipe, que monitora alterações que eu não conseguiria notar no dia a dia. Além disso, o centro fornece os vermífugos para os animais doadores."

Como ocorre a coleta

O processo de coleta inicia-se com uma triagem completa para avaliar se o animal atende aos critérios necessários. Para a seleção de um doador permanente, é realizado o exame de tipagem sanguínea. A triagem clínica, hematológica e infecciosa é feita no doador. No receptor são realizados os testes pré-transfusionais necessários, como tipagem sanguínea e prova de compatibilidade.

Plínio reforça a importância da rastreabilidade: "Desde o momento da coleta até a liberação do hemocomponente, cada etapa recebe uma identificação própria por meio de etiquetas e registro em sistema, garantindo a segurança e reduzindo a possibilidade de erros".

Após o processamento, cada parte do sangue é armazenado em temperatura e pelo período de validade apropriados às suas características. "Antes de qualquer hemocomponente ser liberado para uso, todas as bolsas permanecem em quarentena até a conclusão dos exames laboratoriais, incluindo testes de PCR e sorologias, garantindo máxima segurança transfusional", explica.

Os exames são realizados tanto no doador quanto no receptor para determinar a compatibilidade. Para evitar complicações decorrentes de incompatibilidades sérias, é feito o teste de reação cruzada, reduzindo os riscos que não haverá reação imune grave, que poderia levar o receptor ao óbito.

Os tipos sanguíneos

Os cachorros contam com um sistema diferente conhecido como Dog Erythrocyte Antigen (DEA), que apresenta oito variações: DEA 1.1, DEA 1.2, DEA 3, DEA 4, DEA 5, DEA 6, DEA 7 e DEA 8. Nesta espécie foram descobertos três antígenos adicionais, Dal, Kai-1 e Kai-2. Nesse sentido, entra a importância de identificar o tipo sanguíneo do doador e nunca deixar de realizar o teste de compatibilidade antes das transfusões.

Nos gatos, os três principais tipos sanguíneos são A, B e AB. O tipo A é o mais comum entre a maioria das raças, enquanto o tipo B é encontrado em raças específicas, como devon rex e british shorthair. O tipo AB é extremamente raro. Os gatos podem desenvolver naturalmente aloanticorpos contra antígenos sanguíneos que não possuem, sem necessidade de transfusão anterior. Por isso, uma incompatibilidade pode provocar reação grave já na primeira transfusão.

Outro ponto crucial é o bem-estar animal. "A ABVHMT recomenda que os doadores sejam domiciliados, tenham um responsável definido e não convivam em ambientes com entrada e saída frequente de animais possivelmente infectados. O contato com muitos animais aumenta a possibilidade de exposição recente a agentes infecciosos. Durante a janela diagnóstica, o animal pode apresentar resultados negativos mesmo estando infectado, criando risco para o receptor", salienta Plínio. 

Para que a coleta seja tranquila, é utilizada a técnica do manejo gentil, com reforço positivo, com carinho e petiscos, sempre respeitando o comportamento individual de cada doador. "A coleta propriamente dita é rápida, durando cerca de cinco minutos, enquanto a avaliação clínica anterior leva em torno de 15 a 20 minutos. A punção venosa em si não costuma causar desconforto. O que mais incomoda o animal é a contenção necessária para realizar o procedimento com segurança. Cada indivíduo reage de uma forma, e nossa equipe busca adaptar a abordagem para tornar a experiência o mais positiva possível", conclui.

Juliana Fernandes, 49 anos, é protetora independente de gatos e observa a dificuldade, principalmente nas organizações não governamentais. "Quando há a necessidade da transfusão, não conseguimos encontrar locais com estoque para o atendimento. As pessoas não entendem a importância desses bancos, pois os animais são acometidos, tal qual os humanos, pelas doenças."  Ela reforça a relevância da criação de redes públicas para sanar essa defasagem. "Não queremos ver nossos animais morrendo por falta de recursos", clama ela. 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte


Quais locais no Distrito Federal recebem doações para bancos de sangue? 

  • Hospital Veterinário Brasília (HVB): Asa Sul (CRS 504, Bloco C, Loja 14 — Plano Piloto).

  • Centro Veterinário de Hemoterapia (CVH): Taguatinga Norte (St. B Norte, QNB 17).

  • Centro de Hemoterapia Pet do Distrito Federal (OHV): Núcleo Bandeirante (SIBS, Quadra 2, Conjunto CL1, Lote 3)

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postado em 09/08/2026 06:00 / atualizado em 11/08/2026 12:00
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