
Assim como nos humanos, a transfusão sanguínea em animais pode ampliar as chances de salvamento de cães e gatos que passam por cirurgias ou acidentes. As informações sobre os processos de doação e recebimento de sangue ainda não são amplamente disseminadas, o que impacta diretamente os estoques dos bancos de sangue. Nesse sentido, o conhecimento sobre a importância da doação pode salvar vidas.
Anemia profunda — causada por doenças do carrapato, tumores e doenças infecciosas —, hemorragias decorrentes de atropelamentos e intoxicações, picadas de animais peçonhentos e deficiências de plaquetas ou proteínas são alguns dos casos em que pode haver necessidade de transfusão.
Salvador Ribeiro Chaves Neto, médico veterinário e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), afirma que a necessidade de transfusão nesses casos ocorre por três motivos principais: problemas imunológicos, ruptura de vasos e doenças renais.
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"A transfusão pode ocorrer em decorrência de uma falha na produção sanguínea pela medula, o que conhecemos como aplasia ou hipoplasia. Aplasia é a diminuição completa da produção, e hipoplasia é a diminuição parcial. Há também a destruição acelerada das hemácias, conhecida como hemólise, e a perda aguda de sangue decorrente de hemorragias", detalha o especialista.
Além disso, em casos de acidentes que geram traumas, o sangue pode ser perdido rapidamente, havendo a necessidade de reposição imediata. "A terceira causa envolve os traumas e a doença renal crônica. O trauma reduz a quantidade significativa de sangue de forma aguda, enquanto a doença renal crônica reduz a produção de eritropoetina pelos rins, resultando em uma anemia crônica severa", finaliza o professor.
Diante disso, os estoques de sangue animal têm grande demanda e, muitas vezes, a quantidade disponível não supre as necessidades. Plínio Rossi, médico veterinário e sócio-fundador do Centro Veterinário de Hemoterapia (CVH), vive essa realidade no dia a dia. "O maior desafio é formar e manter um número suficiente de animais doadores. Assim como ocorre na medicina humana, os bancos de sangue veterinários dependem da conscientização dos responsáveis sobre a importância da doação."
Estoques que salvam vidas
Renata Arantes, 39 anos, advogada e proprietária de pet shop, foi uma das tutoras beneficiadas. Sua cadela da raça pastor alemão, Maya, tinha anemia hemolítica — condição na qual o próprio organismo destrói os glóbulos vermelhos precocemente. "Ela precisava de transfusões constantes. O banco de sangue fornecia as bolsas e a equipe sempre foi muito solícita. Na época, precisei ficar com ela na UTI e muitos amigos levaram seus cães para doar, pois a situação dos estoques era crítica."
Ela relembra que foi a solidariedade de diversos doadores que salvou sua cadela, que morreu em dezembro do ano passado. Após essa experiência, Renata se conscientizou e levou seus outros animais para serem doadores. Hoje, mais de 10 de seus pets doam sangue a cada três meses e fazem parte do clube de doadores.
Para doarem de forma segura, os animais precisam cumprir uma série de requisitos básicos. Os cães devem pesar, no mínimo, 25kg, e os gatos 4kg, além de terem idade entre 1 e 7 anos. O comportamento dócil é fundamental para permitir a manipulação adequada pelos profissionais.
Além desses requisitos, o animal não pode ter recebido transfusões recentes, ter histórico de problemas cardíacos ou convulsões, estar no cio, gestando ou amamentando, nem tomar medicações contínuas. A carteira de vacinação e o esquema de vermifugação em dia também são exigências para garantir a segurança da doação.
Renata conta que sempre manteve cuidados rigorosos com seus animais, mas que a rotina de doação ampliou esse zelo. "Por fazerem parte do clube de doadores, a cada doação eles passam por um check-up completo com a equipe, que monitora alterações que eu não conseguiria notar no dia a dia. Além disso, o centro fornece os vermífugos para os animais doadores."
Como ocorre a coleta
O processo de coleta inicia-se com uma triagem completa para avaliar se o animal atende aos critérios necessários. Para a seleção de um doador permanente, é realizado o exame de tipagem sanguínea.
Plínio reforça a importância da rastreabilidade: "Desde o momento da coleta até a liberação do hemocomponente, cada etapa recebe uma identificação própria por meio de etiquetas e registro em sistema, garantindo a segurança e reduzindo a possibilidade de erros".
As bolsas de sangue são armazenadas em câmaras específicas para isso, mantidas a 4°C, com validade de até 30 dias. "Antes de qualquer hemocomponente ser liberado para uso, todas as bolsas permanecem em quarentena até a conclusão dos exames laboratoriais, incluindo testes de PCR e sorologias, garantindo máxima segurança transfusional", explica.
Os exames são realizados tanto no doador quanto no receptor para determinar a compatibilidade. Para evitar complicações decorrentes de incompatibilidades sérias, é feito o teste de reação cruzada, garantindo que não haverá reação imune grave, que poderia levar o receptor ao óbito.
Os tipos sanguíneos
A tipagem sanguínea dos cães é conhecida como DEA (Dog Erythrocyte Antigen). Existem 12 tipos identificados nos cães, mas os mais relevantes na prática clínica são o DEA 1.1 positivo e o DEA 1.1 negativo. O tipo DEA 1.1 é o mais importante do ponto de vista imunológico, pois possui maior potencial de desencadear respostas graves do organismo caso o sangue do doador e do receptor sejam incompatíveis. Por isso, conhecer o tipo sanguíneo do pet é essencial.
Nos gatos, os três principais tipos sanguíneos são A, B e AB. O tipo A é o mais comum entre a maioria das raças, enquanto o tipo B é encontrado em raças específicas, como devon rex e british shorthair. O tipo AB é extremamente raro. Os felinos já nascem com anticorpos naturais contra outros tipos sanguíneos, o que torna as consequências de uma transfusão incompatível ainda mais graves.
Outro ponto crucial é o bem-estar animal. Por mais cuidadoso que um abrigo seja, nada substitui o acompanhamento individualizado e o vínculo de um lar. Por isso, a presença dos tutores é essencial nas salas de coleta. Para garantir um processo tranquilo, utiliza-se a técnica de manejo gentil, com reforço positivo, carinho e petiscos, sempre respeitando o comportamento individual de cada doador.
"A coleta propriamente dita é rápida, durando cerca de cinco minutos, enquanto a avaliação clínica anterior leva em torno de 15 a 20 minutos. A punção venosa em si não costuma causar desconforto. O que mais incomoda o animal é a contenção necessária para realizar o procedimento com segurança. Cada indivíduo reage de uma forma, e nossa equipe busca adaptar a abordagem para tornar a experiência o mais positiva possível", conclui.
Juliana Fernandes, 49 anos, é protetora independente de gatos e observa a dificuldade, principalmente nas organizações não governamentais. "Quando há a necessidade da transfusão, não conseguimos encontrar locais com estoque para o atendimento. As pessoas não entendem a importância desses bancos, pois os animais são acometidos, tal qual os humanos, pelas doenças." Ela reforça a relevância da criação de redes públicas para sanar essa defasagem. "Não queremos ver nossos animais morrendo por falta de recursos", clama ela.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
Quais locais no Distrito Federal recebem doações para bancos de sangue?
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Hospital Veterinário Brasília (HVB): Asa Sul (CRS 504, Bloco C, Loja 14 — Plano Piloto).
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Centro Veterinário de Hemoterapia (CVH): Taguatinga Norte (St. B Norte, QNB 17).
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Centro de Hemoterapia Pet do Distrito Federal (OHV): Núcleo Bandeirante (SIBS, Quadra 2, Conjunto CL1, Lote 3)
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