
Nas redes sociais, a carne deixou de ocupar apenas o espaço central do prato e passou a representar, para alguns grupos, um estilo de vida. Impulsionada por influenciadores que associam o consumo de alimentos de origem animal à força, disposição, composição corporal e até masculinidade, a dieta carnívora ganhou espaço entre homens que buscam mudanças físicas e metabólicas. O movimento, porém, não se restringe a eles. Mulheres também aderem à alimentação e relatam transformações no corpo e na relação com a comida.
Em sua versão mais rígida, a proposta é retirar praticamente todos os alimentos de origem vegetal e concentrar a alimentação em carnes, ovos e, dependendo da versão, outros produtos animais. Frutas, verduras, legumes, cereais, grãos e leguminosas ficam de fora. Além disso, a intenção é fazer o mínimo de refeições possíveis em um dia.
A médica Júlia Chagas, 41 anos, começou a estudar o modelo alimentar a partir de uma abordagem voltada à fisiologia do metabolismo. Antes de chegar à dieta carnívora, passou por uma alimentação cetogênica.
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Desde 1º de junho de 2025, Júlia mantém uma alimentação essencialmente de origem animal. Segundo ela, a mudança trouxe resultados físicos e também alterações na rotina. "Eu costumo dizer que sou outra pessoa depois dessa mudança alimentar. Hoje, tenho o menor percentual de gordura corporal que já tive e, ao mesmo tempo, tive um crescimento muscular muito importante", conta.
Ela também relata melhora na energia, na saciedade, no sono e na concentração. "Minha energia ficou muito mais estável ao longo do dia, minha saciedade aumentou muito e praticamente desapareceu aquela necessidade constante de consumir doces e carboidratos", destaca. A adaptação, porém, teve dificuldades. Durante três meses, sentiu fadiga e redução na performance da academia, além da chamada "gripe cetogênica". Para ela, a experiência mostrou que a estratégia precisa ser individualizada.
Dieta da selva
Entre os adeptos, existem diferentes interpretações sobre o que significa retirar alimentos da dieta. É o caso do influenciador digital José Roberto Brandini, 31, que diferencia sua alimentação da dieta carnívora tradicional. "A única diferença é que a dieta carnívora só come carne. A minha dieta, a da selva, come carne com fruta e mel e iogurte. É parecida, mas não é igual", diz.
Segundo Brandini, sua alimentação prioriza carnes, ovos e frutas e exclui ultraprocessados, grãos e açúcar refinado. "Eu como carne, de preferência vermelha, gordurosa, com frutas de sobremesa. Também como ovo, carne de porco, de frango, etc. É uma dieta em que não ingiro ultraprocessados", afirma.
Antonio Kraychete, 27, mentor e empresário, conheceu a dieta carnívora em fevereiro de 2023, depois de assistir a um vídeo sobre os benefícios do padrão alimentar. "No vídeo, um homem falava que estava há 100 dias na dieta carnívora e tinha melhorado da depressão, da ansiedade, tinha perdido mais de 20 quilos, tinha melhorado muita coisa", relata.
Depois, passou a estudar a proposta antes de experimentá-la. Desde novembro daquele ano, mantém o padrão alimentar. "Minha alimentação no dia a dia é basicamente nada no café da manhã, jejum. Quando eu como, são três ou cinco ovos. Vou treinar, depois eu faço uma ou duas refeições. O almoço e, se sentir fome, repito o que comi às 18h. Eu como 500 a 700 gramas de carne gordurosa, como picanha, carne moída gordurosa ou bife ancho", conta.
Kraychete atribui à dieta uma perda de 20 quilos, melhora da pele, disposição e concentração. "Eu costumo falar que eu comecei a acordar pronto para a guerra", destaca. A adaptação, segundo ele, foi acompanhada de sintomas passageiros, como diarreia. Para ele, a dieta também mudou a relação com ultraprocessados e reduziu a vontade de determinados alimentos. "Eu me viciei em me sentir bem", destaca.
O que dizem
Apesar dos relatos, a dieta carnívora ainda não tem respaldo científico suficiente para ser considerada segura para toda a população. "A dieta carnívora é um padrão alimentar extremamente restritivo, caracterizado pelo consumo quase exclusivo de alimentos de origem animal e pela retirada praticamente completa dos alimentos de origem vegetal", explica a nutricionista integrativa Rayanne Marques.
Segundo ela, o principal problema está na redução da variedade nutricional. "A principal preocupação nutricional é que a retirada de praticamente todos os alimentos vegetais reduz significativamente a variedade de nutrientes e compostos bioativos disponíveis na alimentação."
A especialista destaca ainda a redução ou ausência de fibras, além de possíveis inadequações de vitamina C, vitamina E, folato, magnésio, cálcio e potássio. "A fibra é particularmente importante porque participa do funcionamento intestinal, da saciedade, do metabolismo da glicose e da saúde da microbiota intestinal", destaca.
Rayanne também diferencia carnes frescas de processadas. "Mesmo dentro de uma dieta carnívora, existe uma diferença importante entre priorizar alimentos de origem animal in natura e basear a alimentação em carnes processadas", diz. Para ela, bacon, linguiça, salsicha, salame e presunto devem ser limitados.
A nutricionista Danielle Luz Gonçalves, coordenadora do curso de nutrição do Centro Universitário Uniceplac, também destaca que não existe uma definição única para a dieta. "A dieta carnívora é um padrão alimentar extremamente restritivo, no qual a alimentação é composta quase exclusivamente por alimentos de origem animal", afirma.
As especialistas também diferenciam os possíveis efeitos de uma alimentação com poucos carboidratos da dieta carnívora propriamente dita. Segundo Rayanne, algumas pessoas podem apresentar perda de peso, maior saciedade e melhora de determinados marcadores metabólicos, mas isso não significa que eliminar todos os alimentos vegetais seja necessário. "A perda de peso pode ocorrer porque a alimentação passa a ter grande quantidade de proteínas e elimina uma série de alimentos muito calóricos e ultraprocessados, além de reduzir drasticamente os carboidratos", afirma.
Danielle reforça que não existem comprovações científicas suficientes de que retirar todos os alimentos vegetais ofereça benefício adicional. "Isso é muito diferente de dizer que 'a dieta carnívora trata diabetes'. Não existem ensaios clínicos robustos demonstrando que eliminar todos os vegetais ofereça um benefício adicional sobre simplesmente reduzir carboidratos refinados, melhorar a qualidade alimentar e produzir perda de peso", enfatiza.
Dieta para toda a vida?
Para os adeptos entrevistados, a resposta é positiva. Júlia pretende manter a alimentação como base pelo resto da vida. "Foi a estratégia alimentar com a qual eu, individualmente, obtive os melhores resultados em composição corporal, crescimento e densidade muscular, percentual de gordura, energia, saciedade, funcionamento intestinal, sono, clareza mental e qualidade de vida", justifica.
Brandini, por sua vez, acredita que, socialmente, viver apenas da dieta carnívora para sempre é muito difícil e defende a flexibilidade de seu modelo. Já Kraychete afirma que pretende continuar. "Três anos já é longo prazo, porque eu me sinto superbem, super-humano, então não quero parar", diz.
Para as especialistas, entretanto, a manutenção por períodos prolongados exige cautela. Pessoas com doenças crônicas, alterações importantes do colesterol, doenças renais ou hepáticas e determinadas condições clínicas devem buscar avaliação profissional antes de adotar uma alimentação tão restritiva. Gestantes, lactantes, crianças e adolescentes também exigem atenção especial.

Revista do Correio
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