Recife — Quando os primeiros acordes soaram no Teatro de Santa Isabel, não foram apenas os sons que reverberaram do palco para a plateia. Emoção era a nota proeminente, embora não escrita nas partituras. Na nobre casa de cultura do Recife, inaugurada em 1850, que já recebeu personagens ilustríssimos, como o imperador Dom Pedro II, e artistas consagrados nacionais e internacionais, estavam gerações de crianças, adolescentes e jovens resgatados da vulnerabilidade pelo projeto social Orquestra Criança Cidadã, que acaba de completar 20 anos de história.
Para celebrar o marco, foram realizados dois concertos, nos dias 24 e 25 de julho. Entre as atrações, uma camerata composta por 21 ex-alunos, que voltaram ao palco da instituição para uma apresentação especial. Houve a participação do Coral Infantil da OCC, e a estreia oficial da Orquestra Sinfônica Infantil da Orquestra Criança Cidadã, formada por mais de 90 crianças dos núcleos do Coque e de Ipojuca.
A comemoração contou com o lançamento do documentário Sons da Esperança, produção que resgata as duas décadas da OCC por meio de imagens históricas e depoimentos de alunos, ex-alunos, educadores e parceiros que participaram da construção da instituição.
Além disso, a Orquestra anunciou um novo projeto de formação internacional para seus estudantes mais avançados. As aulas serão realizadas em tempo real, pela internet, e contarão com a participação do contrabaixista Antonino Tertuliano (ex-aluno da OCC e integrante da Filarmônica de Duisburgo, na Alemanha), do violoncelista Jan Bogdan (da Orquestra Filarmônica de Israel), do violinista brasiliense Ayrton Pisco (músico da Kansas City Symphony, nos Estados Unidos), e do violista ítalo-brasileiro Gabriel Squizzato, radicado em Viena, Áustria.
Antonino tem uma história íntima com a OCC. Era da turma inicial de 100 crianças e adolescentes da comunidade do Coque — que tinha o menor IDH de Pernambuco —, escolhidos na abertura do projeto. O idealizador da OCC, o juiz João Targino, relembra: "Nós principiamos em 25 de julho de 2006 com 100 crianças e adolescentes na faixa dos 6 a 14 anos, os menores tocando violino e viola e os maiorzinhos tocando violoncelo e contrabaixo, que é o instrumento maior. E aí teve início essa jornada, que foi e é muito desafiadora, mas ao mesmo tempo muito rica. Eu posso dizer que as alegrias que nós vivenciamos foram maiores do que os esforços empreendidos, porque a gente viu verdadeiramente transformações de vida. Aqui tem dezenas ou centenas de histórias de casos concretos de crianças que, ao entrarem no projeto, passaram a nutrir esse bem que não deve faltar a nenhum ser humano, que é a esperança".
Há 16 anos, o projeto é patrocinado pela Caixa Econômica Federal e conta com o apoio do governo federal, por meio da Lei Rouanet. Nos primeiros anos, também recebeu o incentivo de instituições como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ainda assim, os recursos estão aquém do necessário para garantir a necessidade de expansão da escola, que hoje atende cerca de 470 crianças e adolescentes. A sede da OCC funciona, inclusive, dentro de uma área do Exército.
Foi movido por essa esperança e sem desperdiçar a grande oportunidade que Antonino Tertuliano tornou-se um contrabaixista reconhecido, hoje na Filarmônica de Duisburgo, na Alemanha. "O nosso concerto de primeiro ano de aniversário foi feito no Teatro Santa Isabel; eu estava aqui. Vinte anos se passaram e ainda tenho a lembrança desse primeiro concerto. Voltar hoje é uma emoção muito grande; poder ver as novas gerações. E agora como professor é uma alegria, mas também uma responsabilidade muito grande", diz.
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Antonino espera que os novos integrantes possam entender, o mais breve possível, "o valor e a oportunidade que eles estão tendo de poder conhecer a música e tocar num teatro como o Santa Isabel". "Olhando para a história, vejo o quanto a disciplina ensinada no projeto foi fundamental para me formar como cidadão, para evoluir passo a passo. Tive o prazer de realizar muitos sonhos e continuo em movimento", conta. Um desses sonhos foi tocar para o papa Francisco há três anos. Ele foi um dos 25 alunos e ex-alunos da OCC a participar das apresentações do Concerto pela Paz no Vaticano.
Outra egressa do projeto que esteve presente nas comemorações dos 20 anos e no concerto para o papa Francisco foi Herlane Franciele, 31 anos. Ela diz que foi inesquecível tocar o hino da Argentina para o papa Francisco. Mas confessa certa predileção por outro público: "Um dos momentos mais marcantes da minha carreira foi quando eu toquei numa casa de repouso e, no fim, uma senhorinha veio me agradecer pela minha música e disse que fiz o dia dela feliz, pois o marido também tocava violino quando em vida".
Independentemente do público, a música significa, para ela, "transcendência". "A sensação que eu tenho ao tocar para um público, ou não público, é de transcendência. O momento no palco ou de estudo do violoncelo é meu momento de sair do mundo atual e adentrar o mundo dos compositores, e trazer isso à minha audiência é uma satisfação."
Atualmente, ela vive nos Estados Unidos, é professora de algumas escolas públicas em Houston, também toca em casamentos e em algumas orquestras pelo Texas. No momento, se prepara para iniciar o doutorado em performance musical, com bolsa 100% paga pela Universidade de Houston.
A sinfonia do futuro
Outros dois ex-alunos presentes do Teatro de Santa Isabel são o violoncelista Inaldo Nascimento, 33 anos; e o violista Isaías Tavares, 33 anos. Ambos iniciaram no projeto, em 2006 e, em 2013, passaram em primeiro lugar em seus instrumentos na Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde tocam até hoje. Pela capital de Goiás também passaram Antonino e Harlane: “Foi um período de muito aprendizado”, ela resume.
“Confesso que antes não tinha expectativa sobre o futuro, mas ao conhecer o projeto tive a certeza de que queria seguir na música e deu certo. O projeto me deu muitas oportunidades para percorrer o caminho da música”, diz Inaldo. Perguntado sobre o conselho que daria para as crianças que estão hoje ingressando no projeto, ele é claro: “Agarre a oportunidade com todas as forças. Valorize que o futuro é certo”.
Para o violista Isaías Tavares, o projeto representa “vida e esperança”. “Naquele momento em que entrei no projeto, nós não vivíamos um bom momento. Éramos apenas eu e minha mãe e passávamos por muitas dificuldades. O projeto me fez entender que eu poderia realizar grandes sonhos. Bastava ter disciplina, persistência e querer realmente fazer isso na vida. Fui acolhido como uma criança de favela que não tem perspectiva de vida, não tem muitas opções, não tem portas abertas. Quando uma criança recebe essa oportunidade, ela abraça e a vida ganha um novo sentido. Consegui no projeto todas as ferramentas que eu precisava para me tornar um cidadão e também um musicista”, resume.
A mãe de Isaías, Ivone dos Santos, estava no camarote do Teatro de Santa Isabel. Emocionada, viu o filho subir ao palco para mais um concerto como mais um capítulo de sucesso na trajetória dele. Antes de se tornar o primeiro violista da Orquestra de Goiânia, aos 18 anos de idade, Isaías passou em um processo seletivo e foi estudar no conservatório superior na cidade de Salzburgo, na Áustria. Estudou e tocou na Orquestra Sinfônica de Wels. Viajou pela Europa.
“Foi muito sofrimento para chegar até aqui”, conta Ivone, mãe-solo que trabalhava como empregada doméstica. Em 2009, eles tiveram a casa destruída por uma enxurrada, e o projeto os ajudou a reconstruir sua moradia. Para eles, o projeto significou futuro e ela diz que o filho soube honrar essa oportunidade. “A gente não é só mãe e filho. Nós somos muito amigos”, conta.
São muitas as histórias de sucesso da Orquestra. Mais de 1.000 crianças e adolescentes passaram pelo projeto, fora os atendidos atualmente. “Pelo menos 80% deles vivem da música”, estima João Targino. Atualmente, a OCC atende 470 crianças e adolescentes do Coque e de outras duas comunidades de Pernambuco, em Camela (Ipojuca) e Chã de Cruz (Igarassu). O projeto oferece, além das aulas de música, três refeições, apoio psicológico, médico e odontológico, fardamentos de uso diário e de gala e aulas de idiomas. Há ainda convênios com universidades, como a Universidade AESO, em Olinda.
Um dos capítulos mais inspiradores da OCC é a Escola de Formação de Luthier e Archetier, inaugurada em 10 de setembro de 2012, que se tornou a primeira do gênero em Pernambuco e uma das poucas existentes no Brasil.
As aulas são realizadas três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, nos turnos da manhã e da tarde. Atualmente, a escola atende 28 jovens. Ao longo dos três anos de curso, os alunos aprendem a confeccionar, restaurar e preservar instrumentos de corda que levam música para salas de concerto, igrejas, teatros e orquestras de diferentes regiões do país.
O projeto também desenvolve um importante trabalho de conscientização ambiental voltado à preservação do pau-brasil, árvore símbolo do país, em extinção, e utilizada na fabricação de arcos para instrumentos de corda.
Existe um viveiro de mudas dentro da própria instituição, onde os alunos participam de todas as etapas do cultivo: da escolha das sementes ao plantio e à distribuição das mudas para a população. O objetivo é estimular a reflexão sobre a importância da preservação ambiental e garantir que as futuras gerações também possam conhecer e preservar essa espécie.
"O objetivo é formar o cidadão"
Pode relembrar como foi o início do projeto?
A Orquestra Criança Cidadã teve início a partir de uma experiência que eu vivi como coordenador do programa Criança Cidadã do Tribunal de Justiça de Pernambuco. No ano 2000, portanto há 26 anos, no início da gestão do então desembargador Nildo Nery dos Santos, como presidente do Tribunal de Justiça, ele decidiu por inovar, introduzindo um programa social como o carro-chefe de sua gestão. Isso foi algo revolucionário, porque todos os outros presidentes que vieram antes e depois tiveram a preocupação de cuidar do aspecto fim do Poder Judiciário, que é julgar e entregar a prestação jurisdicional aos jurisdicionados. O desembargador Nildo achou por bem ter como carro-chefe de sua gestão um programa voltado para pessoas, notadamente crianças e adolescentes, que se encontravam em situação de vulnerabilidade. Ele tinha uma longa trajetória na área criminal e entendia que o melhor caminho era o caminho da prevenção. Com o programa Criança Cidadã, ele buscou apoiar e introduzir ações que visassem primordialmente o aspecto preventivo. E aí, dentre essas ações que foram empreendidas no programa, teve uma que me chamou a atenção, que foi um coral de crianças de rua. Nós instituímos um coral de crianças de rua que foi regido pelo maestro Geraldo Menucci, um maestro pernambucano que residia em Olinda. E essa prática foi suficiente para convencer-me de que a música e o canto são instrumentos verdadeiramente transformadores na vida das pessoas.
Como foi a ideia de criar uma orquestra?
Quando o desembargador Nildo saiu da presidência do tribunal, em fevereiro de 2002, eu passei a nutrir o desejo de instituir dentro da Associação Beneficente Criança Cidadã, criada para dar sequência às ações. Aí eu passei a ter a certeza de que nós deveríamos criar a partir dessa experiência com o coral, não um coral, mas uma orquestra, algo maior, algo mais robusto para dar oportunidade a crianças pobres, obviamente, de uma das comunidades do Recife. A comunidade escolhida foi o Coque, que apresentava os piores índices de desenvolvimento humano de Pernambuco.
E como começou a materializar esse espaço?
Antes de iniciar propriamente o período gestacional desse projeto, eu tinha tido uma experiência de trabalho neste quartel (do Exército, onde funciona a sede da Orquestra). E sabia o tamanho dessa unidade, os vários departamentos, galpões que existem por conta de um trabalho que eu tinha feito no âmbito jurisdicional. Então, eu disse: “Se nós vamos fazer um projeto para contemplar garotos do Coque, nós devemos buscar fazê-lo dentro daquela unidade (militar) porque aí nós já ganhamos com algo que iria nos custar muito alto, que seria o item segurança”. Eu conhecia na época o comandante da 7ª Região Militar, que era o general Santa Rosa, um homem elevado espiritualmente, uma pessoa extraordinária. Marquei uma audiência com ele e expus a minha ideia. Quando eu terminei, ele pegou o telefone fixo e ligou para o coronel Elcio de Freitas Martins, que era o comandante quartel, e disse: “Abra as portas do Exército para ele”. Então conseguimos a sede do projeto, onde teríamos toda segurança.
Nós precisávamos, obviamente, dos instrumentos. E de um recurso para gente impulsionar, para comprar a mobília, pagar os primeiros salários… A ideia nunca foi fazer um projeto de voluntários porque não funcionaria no Brasil. Então nós fomos ao então presidente da CNI, um pernambucano, o Dr. Armando Monteiro Neto. Ele viu o projeto e perguntou: “A parte orçamentária está onde? Eu disse: “No fim”. E ele disse: "Os instrumentos estão garantidos porque não existe orquestra sem instrumento”. Mas faltavam recursos para a gente começar. Aí nós fomos a Chesf, que incentivou muito a cultura do Nordeste. Precisávamos de dinheiro para comprar mesa, para comprar cadeira e para pagar as pessoas. Fomos ao então presidente, Dr. Dilton da Conti. Obviamente acompanhado de amigos próximos dele, que eram também amigos nossos e isso terminou ajudando. Na época, Dr. Josias Albuquerque, da Fecomércio. Explicamos que precisávamos desse valor para mantermos o projeto por seis meses, e ele garantiu os recursos.
Como eram os primeiros alunos?
Nós selecionamos alunos, isso eu digo com muita tristeza, que estavam no quarto ou quinto ano, que eram completamente analfabetos. O maestro dizia: "Escreva dó, ré, mi, fá, sol". Não sabiam o que era um 'd', não sabiam o que era um 'r', não sabiam o que era um 'e'. Isso no quarto ou quinto ano do ensino fundamental. Aí você pergunta: como é que essa pessoa passou, pelo amor de Deus, do primeiro para o segundo, do segundo pro terceiro, do terceiro para o quarto? Completamente analfabeto. Depois nós passamos a fazer testes mais rigorosos de português, de matemática. Então, houve a seleção e nós principiamos em 25 de julho de 2006 com 100 crianças e adolescentes na faixa dos 6 a 14 anos, os menores tocando, obviamente, violino e viola e os maiorzinhos tocando violoncelo e contrabaixo, que é o instrumento maior. E aí teve início essa jornada que foi e é muito desafiadora, mas ao mesmo tempo muito rica. O projeto, ao dotar esses meninos e meninas de esperança, é como uma luz que se acende na vida deles. Temos testemunhos de casais que estavam se separando e, por conta do filho estar aqui, recebendo valores, dicas de como se deve portar à mesa ou numa conversa com a pessoa ou ao sentar-se, viam dignidade e é essa luz que vai iluminando também as outras pessoas do núcleo familiar dessa criança.
Ou seja, o projeto vai bem além da música…
O objetivo do projeto é formar o cidadão, com bons valores, com verdade. E, quando se forma um cidadão, isso é um contributo à pátria. O objetivo primeiro do projeto não é formar músico. Músico é consequência. Por quê? Porque se identificou que aquele garoto ou aquela garota tem talento musical, tem talento para música. Como poderia ter para o basquete, para o vôlei, para o atletismo, para dança, para qualquer outro meio artístico, mas foi identificado que tem, que Deus deu o talento para música. E aí o que a orquestra faz?Dá todos os apetrechos necessários para que essa criança, esse ser, esse nosso irmão menos favorecido possa crescer, possa desenvolver o seu talento. Porque talento sem oportunidade é talento que nasce, morre e ninguém vai vê-lo.
Olhando para trás, depois de 20 anos, o que representa toda essa construção?
Nós demos vida ao que não tinha vida em termos de concreto e cimento. Edificações que estavam completamente abandonadas passaram a ter vida. E nós passamos a dar vida por meio da esperança concreta, fruto da oportunidade, não dá esmola, porque a esmola destrói, a oportunidade transforma as pessoas, os irmãos nossos menos favorecidos da comunidade do Coque. Ao chegarem aqui, passaram a ser reconhecidos verdadeiramente como cidadãos. Uma oportunidade verdadeira, não oportunidade de enganação. Mais de 1.000 garotos passaram por aqui e, desses, eu diria que desses, 80% são músicos, seguiram as suas vertentes na música, mas os 1.000 são cidadãos, isso é o mais importante para a gente. Os outros 20% enveredaram por outras áreas, como o direito. Na Vara em que eu sou titular, há mais de 25 anos, três estudantes nossos que eram estagiários lá, hoje são advogados, prestaram o exame da Ordem e passaram. E são advogados certamente melhores do que aqueles que não têm a música dentro de si. Eu lamento por eu não ter a música dentro de mim. Certamente eu seria um juiz melhor.
Como você vê a Orquestra Cidadã hoje?
Vejo como um exemplo que poderia ser transportado para várias outras comunidades, não só do Recife, mas de Pernambuco, do Brasil e do mundo, porque se nós fizermos em qualquer lugar do mundo, no planeta Terra, o que nós fizemos aqui da forma como nós fizemos, de forma séria, de forma isenta, sem privilegiar quem quer que seja, não tem como dar errado, isso eu lhe garanto, não tem como dar errado. Sonho em ver esse projeto, essa luz sendo levada para ambientes onde a escuridão ainda reina.
Hoje a estrutura oferece o quê?
Desde o início, nós oferecemos três refeições diárias, porque entendemos que não tem como se pensar em uma evolução artística com uma barriga vazia. Temos apoio psicológico, médico e odontológico, os meninos têm fardamento de uso diário, fardamento de gala e também aulas de línguas — nós temos convênios com universidades, como a Universidade AESO, em Olinda. O mais importante é blindar esses meninos para que não haja furos na formação do caráter. Alguns deles têm uma carreira internacional. Muitos passaram em primeiro, segundo lugar nas seleções. Esses resultados são os que nos dão essa satisfação, esse sentimento de realização. É o motor para que a gente continue a lutar todo dia, a matar um leão todo dia, para a gente seguir. Porque você sabe o quanto é difícil você fazer, trabalhar no terceiro setor, num projeto social num país como o Brasil.
São muitas as dificuldades para manter o projeto?
Eu tenho certeza que é um projeto de Deus. Eu vi coisas aqui que fogem do parâmetro da normalidade. Antonino (Tertuliano) é um grande case. Chegou a ser aprovado num concurso para a Filarmônica de Israel. Eram 40 candidatos do mundo inteiro para duas vagas. Só ele passou. Hoje, está na Alemanha. Mas tem muitos outros pela Europa, nos Estados Unidos, aqui no Brasil, na Paraíba, em São Paulo. É uma imensa sensação de realização. São esses resultados que nos dão essa satisfação, esse sentimento de realização. É o motor para que a gente continue a lutar todo dia, a matar um leão todo dia, como eu digo, para a gente seguir. Porque você sabe o quanto é difícil você fazer, você trabalhar no terceiro setor, num projeto social num país como o Brasil. A gente trabalha há 17 anos com a Lei Rouanet, em que as empresas fazem a dedução de impostos em troca do patrocínio. Mas é preciso toda uma estratégia de convencimento.
E quais os planos para o futuro? Além da comunidade do Coque, outros locais são atendidos hoje, certo?
Além do Coque, temos um núcleo em Camela, distrito de Ipojuca (PE), uma localidade onde havia altos índices de delinquência infanto-juvenil, de prostituição infantil e juvenil, e nós fomos para lá para estarmos num lugar socialmente muito sensível de uma vulnerabilidade social muito grande para cumprir um papel preventivo. E lá muitos garotos que antes cortavam cana, porque é uma uma cidade cercada de cana de açúcar, trocaram o facão por um arco de um violino, de uma viola, de um violoncelo, de um baixo, veja que mudança extraordinária. De lá, tem alguns alunos que estão em universidades americanas já. Veja a força da oportunidade. Um menino que usava um facão para cortar a cana hoje tá numa universidade americana. E além do núcleo de Ipojuca, que tem 130 alunos nas cordas e na percussão, há 8 anos foi iniciado um núcleo menorzinho, em parceria com uma empresa que produz energia elétrica, na zona rural de Igarassu, num local denominado Chã de Cruz. Esse núcleo contempla 30 alunos, com três dias por semana. Fora isso, tem a escola, que é uma fábrica de instrumentos, construída com recursos derivados de uma instituição italiana.
As viagens internacionais começaram quando?
Começaram há 13 anos. A primeira foi em Kassel, na Alemanha, na comemoração dos 700 anos de fundação daquela cidade. Foi a primeira e vieram muitas outras, para a Itália, Portugal, Argentina, Estados Unidos.
