
Entre o calor úmido que abraça logo na chegada e a paisagem cercada por rios imensos, Manaus se apresenta como uma experiência que vai além do turismo, entregando uma nova forma de ver a vida e lidar com a natureza. A capital amazonense é, ao mesmo tempo, porta de entrada para a maior floresta tropical do planeta e sede de um dos mais importantes polos industriais do Brasil. Em poucos quilômetros, o visitante transita entre o silêncio da natureza e o ritmo preciso das linhas de produção de fábricas internacionais e nacionais.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a diversidade é certa, mas, em Manaus, todas essas diferenças se encontram em um só lugar, deixando a riqueza da cultura brasileira evidente para todos que chegam, do artesanato indígena à arquitetura de inspiração europeia, até a culinária rica de peixes tropicais e temperos da terra.
Encontro com a natureza
Em um passeio a bordo do Iate Eyruna, da agência de turismo Amazon Receptive, o primeiro impacto é inevitável: a Amazônia não é apenas um cenário bonito para as redes sociais, mas uma presença viva em cada canto. Os rios largos substituem estradas, o que faz com que grandes portos sejam a principal porta de entrada e saída de produtos, além do verde que parece não ter fim.
O ponto alto da visita a Manaus é presenciar um dos espetáculos mais emblemáticos da região: o Encontro das Águas, onde os rios Negro e Solimões correm lado a lado sem se misturar, com diferentes densidades e temperaturas, formando um fenômeno natural que impressiona. Ali, o tempo é diferente não só pelo fuso horário em relação à capital do país, mas porque é guiado pelo fluxo dos rios e pelo sol, que vai embora em um horizonte alaranjado. A biodiversidade, uma das mais ricas do mundo, manifesta-se em sons, cheiros, cores e formas.
Os sabores da floresta
A cultura amazônica se expressa, especialmente, à mesa. Ingredientes típicos carregam histórias e tradições, transformando cada refeição em uma imersão regional riquíssima. No primeiro dia, o almoço foi por conta do restaurante Choupana Cozinha Regional, responsável pelo melhor pirarucu da viagem e por um dadinho de tapioca com geleia de cupuaçu de dar saudades.
No restaurante Amazônico Peixaria Regional, o destaque foi para o arroz de tacacá, que mistura aquele famoso tacacá original, com camarão de jambu, ao grão de arroz cozido no tucupi. Além de uma sobremesa impecável: banana pacovã caramelizada com sorvete de creme.
Peixes como tambaqui e pirarucu, mais conhecido por lá como "bacalhau do Amazoas", são sempre os protagonistas, preparados de diversas formas — menção honrosa para a moqueca e a linguiça de tambaqui. Frutas como cupuaçu e tucumã também estão presentes em diferentes formas: bala de cupuaçu, sanduíche com tucumã (x-caboquinho), geleia de cupuaçu com castanha da Amazônia e o que mais sua imaginação pensar. Mais do que gastronomia, trata-se de um reflexo direto da relação entre o homem, a floresta e a ancestralidade, uma culinária moldada pela abundância e pelo afeto.
A força da indústria
Se a grandeza da natureza impressiona, a estrutura industrial não passa batida. Criado a partir da Zona Franca para impulsionar o desenvolvimento econômico da região, o Polo Industrial de Manaus (PIM) reúne 553 empresas em operação e desempenha papel estratégico na economia da Região Norte, sustentando mais de 130 mil empregos diretos, e na atração de investimentos. De acordo com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), em 2025 o faturamento do PIM superou R$ 227 bilhões, e existem 170 novos projetos aprovados para iniciarem nos próximos anos.
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Com incentivos fiscais e localização estratégica, o polo industrial abriga fábricas de grandes multinacionais, responsáveis pela produção de eletrônicos, motocicletas, bens de consumo e outros produtos que abastecem o mercado nacional. O contraste com o entorno natural é inevitável, definindo a forma com que as indústrias lidam com a floresta. O Amazonas é o estado que mais preserva a floresta amazônica, o coração do planeta, com 98,19% de cobertura natural.
O impacto do polo industrial
Visitar as fábricas foi uma das experiências que, a princípio, não me agradaram na ideia, mas me tocaram de forma inesperada. Mergulhar em um ambiente onde tecnologia, automação e logística operam em perfeita sincronia para produzir milhares de produtos diariamente nos mostra que é possível preservar e produzir com excelência. Linhas de montagem automatizadas, controle de qualidade rigoroso e processos eficientes mostram um Brasil industrializado que, muitas vezes, passa despercebido.
Com aproximadamente 15 mil funcionários trabalhando todos os dias, uma média de 6.500 motos são fabricadas diariamente na fábrica Honda de Manaus, a mais verticalizada do mundo. "Completamos 50 anos em 2026. Quando começamos aqui, não existiam muitos fornecedores e, por isso, começamos a fabricar muita coisa aqui mesmo", destaca João Mezari, diretor administrativo e financeiro da Honda, em Manaus.
O empreendedorismo amazonense também se destaca. A Rodrigues Colchões, uma empresa familiar que cresceu exponencialmente e produz cerca de 500 colchões e 1.400 camas por dia, já alçou voo para o Nordeste e planeja crescer para a produção de móveis e eletrodomésticos. "Hoje, a Rodrigues Colchões tem 30% do mercado de colchões no Norte do Brasil; no Nordeste, nós entramos em janeiro de 2025, então, ainda somos embrionários por lá. Claro que o plano é crescer lá da mesma forma que crescemos aqui", conta Alexsuel Rodrigues, CEO da empresa.
Entre dois mundos
Manaus não pode ser definida por um único aspecto. É justamente a convivência entre extremos que torna a cidade única — é a diversidade brasileira que se encontra em um só lugar, tal qual o encontro dos rios. De um lado, a floresta que desempenha papel crucial no equilíbrio climático global; de outro, um parque industrial que conecta o Amazonas ao restante do país e do mundo.
Ao final da viagem, fica a sensação de que Manaus é mais do que um destino, sua grandiosidade não está apenas em sua natureza exuberante, mas também na capacidade de reinventar-se, conciliando tradição e modernidade
A jornalista viajou a convite da Ecko Produções
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