
Uma tosse durante as brincadeiras. O cansaço depois de poucos minutos de atividade. A recusa em correr, apesar de ser conhecida pela energia. Para Caroline Martí, os sinais apresentados por Chloe, uma border collie, então com um ano e meio, eram estranhos demais para serem ignorados.
Moradora de Jundiaí (SP), Caroline costumava levar a cachorra para o litoral, onde vivem os pais. A família não sabia, até então, que uma picada de mosquito poderia transmitir uma doença capaz de comprometer o sistema cardiopulmonar dos cães. "Ela começou a ter essas tosses esquisitas, ficar cansada muito mais rápido, recusar brincar. Para uma border collie, é estranho", conta.
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A investigação começou com exames de sangue e um ecocardiograma, realizado durante um período em que a família estava em Fortaleza. O exame revelou o parasita no coração. Na volta para Jundiaí, um novo teste confirmou o diagnóstico e o tratamento foi iniciado. Conhecida como doença do verme do coração, a dirofilariose é uma infecção causada pelo nematódeo Dirofilaria immitis, um parasita que tem os cães como principais hospedeiros. A transmissão ocorre pela picada de mosquitos infectados. Diferentes gêneros podem participar do ciclo, entre eles Aedes, Anopheles e Culex.
No organismo do cão, o parasita amadurece e pode chegar ao coração e às artérias pulmonares. Conforme a infecção evolui, a presença dos vermes provoca alterações no sistema cardiopulmonar. Por isso, embora seja conhecida popularmente como "verme do coração", a doença não se restringe ao órgão.
Segundo a cardiologista veterinária Camilla Beccon, o parasita se aloja principalmente nos vasos e pulmões e, com o aumento da carga parasitária, pode provocar alterações cardíacas. "Os principais sinais clínicos, geralmente, são tosse, síncope, desmaio. Um cachorrinho que viaja para a região litorânea precisa ter esse cuidado de prevenção", explica.
O diagnóstico pode envolver exames de sangue e ecocardiograma. Durante o tratamento, o animal precisa evitar corridas e atividades físicas intensas devido ao risco de complicações. Em casos de alta carga parasitária, a cirurgia pode ser necessária.
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Tratamento desafiador
Para Chloe, o tratamento também foi um desafio. A primeira tentativa precisou ser interrompida depois que a cadela passou mal com o antibiótico, vomitou e deixou de comer. A família estava retornando de Fortaleza para Jundiaí de carro. "Ela começou a passar mal por conta do antibiótico e recusar a comida. A gente optou por parar o tratamento, fazer um novo exame e recomeçar depois de um tempo", relata Caroline.
Cerca de dois meses depois, o protocolo foi retomado, dessa vez com medicação para proteger o estômago e uma formulação mais adequada. Foram dois antibióticos por dia durante 30 dias, seguidos de acompanhamento. "Ainda não foi fácil. A gente percebeu que ela tinha alguns sintomas por conta do antibiótico. Chegou a recusar algumas vezes o remédio e a comida, mas conseguimos contornar e finalizar o tratamento", conta.
Um novo ecocardiograma confirmou o fim da infecção. Desde então, Chloe recebe a medicação injetável anual indicada pelo veterinário. "Não é uma injeção barata e não é fácil de encontrar. Mas o tratamento depois sai bem mais caro do que fazer a prevenção anual", compara Caroline. A veterinária Camilla ressalta que o remédio anual costuma ser confundido com vacina. "É uma medicação injetável com duração anual. Para o leigo, pode até ser confundida com vacina, mas não é uma vacina especificamente", explica.
Quando não há sintomas
Nem sempre o animal apresenta sinais que levem o tutor ao consultório. Duna, hoje com 12 anos, foi diagnosticada aos 10, durante um check-up de rotina. Na época, Rafaella Pinheiro Cesario morava em Águas Claras. Alguns índices dos exames estavam alterados e, após uma investigação inconclusiva, a cadela realizou o teste para dirofilariose. O diagnóstico foi confirmado posteriormente por ecocardiograma. "Nós a levamos apenas para um check-up. Ela não estava apresentando nenhum sintoma", lembra a tutora.
A família suspeitou que Duna pudesse ter sido infectada durante uma viagem à praia. Como o parasita ainda era pequeno e a viagem havia ocorrido havia algum tempo, também surgiu a possibilidade de a infecção ter ocorrido em Brasília. O tratamento foi feito com uma medicação injetável para eliminar os vermes, seguido de acompanhamento e repetição dos exames. Como a filária era pequena, uma aplicação foi suficiente.
O caso se aproxima da experiência da médica veterinária Mariah Rocha. Uma cadela da família, Bela, vira-lata caramelo de sete anos, também foi diagnosticada com dirofilariose. Adotada depois de ser abandonada em uma estrada dentro de uma caixa de papelão, ela nunca havia saído de Brasília.
Para Mariah, mestre em biologia animal pela Universidade de Brasília e especializada em gastroenterologia veterinária e medicina felina, a doença pode passar despercebida porque os sinais são pouco evidentes nas fases iniciais. "É uma doença que compromete principalmente o coração e os pulmões e, nas fases iniciais, a gente não vê tantos sinais clínicos, então o diagnóstico acaba sendo dificultado", explica.
Com a progressão, podem surgir tosse, cansaço, intolerância ao exercício e dificuldade respiratória. Embora o Distrito Federal tenha menor incidência em comparação com regiões litorâneas, a circulação de cães entre diferentes localidades mantém o risco. "Ainda existe o risco, principalmente, porque os cães fazem viagens para essas áreas endêmicas e acabam trazendo a doença para outros locais", afirma a veterinária.
Prevenção
Para Mariah, os cuidados devem levar em conta não apenas onde o animal mora, mas também os locais que frequenta. A prevenção pode incluir coleiras repelentes e medicamentos específicos, administrados por via oral ou injetável, conforme avaliação veterinária. "A principal forma de controle é a prevenção. Podemos usar medicações específicas, como as coleiras repelentes, que evitam a transmissão do parasita", explica. O protocolo deve ser individualizado e acompanhado por um médico veterinário.
O problema é que a ausência de sintomas pode fazer com que a consulta seja adiada. Camilla afirma que alguns tutores atribuem a tosse à seca ou consideram normal que determinado animal apresente o sintoma. "O equívoco mais comum que pode fazer os tutores demorarem a procurar ajuda é achar que o paciente está tossindo mais por conta da seca ou que é comum aquele paciente ter tosse", alerta.
A orientação é procurar avaliação diante de tosse persistente, cansaço fora do habitual ou intolerância ao exercício. "Sempre que observar, principalmente tosse, que são os primeiros sintomas, ou cansaço mais fácil, é importante levar ao cardiologista para avaliação", orienta.
Em alguns casos, o diagnóstico ocorre antes mesmo dos sinais. Camilla relata ter atendido cães assintomáticos em Brasília que foram identificados durante exames de rotina e conseguiram negativar os testes após o tratamento. Para Caroline, a experiência com Chloe reforçou a importância de observar mudanças sutis no comportamento. "A gente conhece o nosso cão melhor que qualquer outra pessoa. Então, qualquer sinal de uma fadiga mais rápida, dessa tosse estranha, já é motivo para ficar atento e fazer os exames", afirma.
Chloe terminou o tratamento e está bem. Duna foi diagnosticada durante um check-up. Bela mostrou que nem mesmo um cão que nunca saiu de Brasília está necessariamente fora do alcance da doença. Entre casos sintomáticos e descobertas por acaso, os animais revelam que conhecer a rotina do cão, considerar os destinos das viagens e discutir a prevenção com o veterinário podem ajudar a impedir que uma picada aparentemente pequena se transforme em uma ameaça ao coração.
Revista do Correio
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