A recuperação depois da atividade física deixou de ser vista apenas como uma etapa complementar e passou a fazer parte da rotina de quem busca melhorar o desempenho, cuidar do corpo e estar preparado para a próxima sessão de exercícios. Depois de treinos intensos, corridas ou competições, o organismo precisa de tempo e cuidados para se recuperar do esforço. Entre atletas profissionais e praticantes amadores, os espaços de recovery reúnem técnicas voltadas ao relaxamento, à redução da sensação de fadiga e à preparação do corpo para novas atividades.
Segundo o fisioterapeuta esportivo e proprietário da Recovery Box, Rogério Guedes, a ideia é aproximar do público comum ferramentas que antes estavam mais restritas ao esporte de alto rendimento. A experiência, no entanto, não segue um modelo único para todos os clientes. Rogério explica que o atendimento considera as condições apresentadas pela pessoa no dia da sessão, como nível de cansaço, desconfortos, rotina de treino e objetivo. “A gente não trabalha com um protocolo engessado”, afirma. A partir dessa avaliação, os profissionais definem quais recursos podem ser mais adequados para aquele momento.
Entre as opções disponíveis estão botas de compressão pneumática, banheiras de água fria e quente, sauna seca e úmida, técnicas de contraste térmico, massagem esportiva, liberação miofascial e fisioterapia esportiva. De acordo com Rogério, os recursos também podem ser combinados durante uma mesma experiência. “Muitas vezes, o benefício não está em utilizar um único equipamento isoladamente, mas em organizar uma experiência completa e adequada para aquele momento.”
Cada técnica possui uma finalidade diferente dentro do processo de recuperação. A compressão pneumática, por exemplo, pode contribuir para a sensação de recuperação das pernas e diminuir a percepção de fadiga após exercícios intensos ou de períodos prolongados em pé. Já a imersão em água fria é bastante utilizada depois de atividades que provocam maior desgaste muscular.
Os recursos de calor seguem uma proposta diferente. A sauna e a imersão em água quente podem proporcionar relaxamento, sensação de bem-estar e ajudar na percepção de rigidez muscular. Segundo Rogério, a sauna também pode estar relacionada à qualidade do sono e à redução do estresse, principalmente pela resposta de relaxamento proporcionada após a sessão.
A massagem esportiva e aliberação miofascial são outras alternativas, principalmente, para quem busca conforto, redução da sensação de tensão e melhora da mobilidade. Já a fisioterapia esportiva entra em situações que exigem uma abordagem mais específica. “Na fisioterapia, entramos de forma mais específica quando existe dor, lesão ou alguma limitação funcional”, explica Rogério.
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Depois do esforço, o cuidado
Para o fisioterapeuta João Pedro Fialho, a recuperação muscular tem papel importante depois da prática de exercícios, especialmente quando o corpo é submetido a esforços intensos. Durante a atividade, os músculos passam por processos que exigem tempo para se reorganizar. “A importância da recuperação muscular após uma atividade física é, principalmente, para prevenir lesões”, afirma.
O profissional explica que os efeitos variam de acordo com a técnica escolhida. No caso das botas de compressão e do banho de gelo, por exemplo, ocorre uma vasoconstrição, ou seja, uma diminuição do calibre dos vasos sanguíneos. Segundo João Pedro, esse processo pode influenciar a resposta inflamatória e contribuir para diminuir a percepção de dor, cansaço e fadiga.
A indicação também pode mudar conforme a modalidade praticada e a intensidade do exercício. João Pedro destaca que os recursos são bastante utilizados ematividades de endurance, que exigem esforço durante períodos mais longos. Apesar disso, exercícios de curta duração e alta intensidade também podem contar com estratégias de recovery para auxiliar o organismo após a atividade.
Entre treinos e competições
Essa necessidade é especialmente presente na rotina de atletas profissionais, que precisam conciliar treinos intensos, competições e períodos reduzidos de recuperação. É o caso de Kim Gabriel Ludgero, de 25 anos, atleta profissional e professor de jiu-jitsu. Ele conheceu as técnicas de recovery há alguns anos, quando começou a utilizá-las entre os treinos de luta.
Kim explica que, depois dos treinos intensos, costuma sentir o corpo inflamado e percebe diferenças quando utiliza alguma estratégia de recovery. Atualmente, ele possui uma banheira de gelo em casa e, segundo o atleta, a imersão em água fria faz parte dos cuidados entre os períodos de treinamento. “Toda vez que eu vou, estou com o corpo inflamado, já dá uma boa acelerada no processo inflamatório”, relata. Para ele, além da sensação física, o procedimento contribui para relaxar o corpo durante a rotina de treinos.
Do treino à experiência
A percepção de Kim se aproxima da experiência relatada por Will Pedrosa, 43, artesão e designer. Will conheceu o recovery por meio de publicações de amigos e recebeu uma cortesia depois de participar de uma maratona. Ele havia realizado uma sessão de tiros de corrida e também um treino de musculação. “Minhas pernas estavam destruídas”, conta. Para auxiliar na recuperação, experimentou a bota de compressão e as banheiras de água fria e quente. Depois dos procedimentos, o designer percebeu uma mudança na sensação corporal. “Já saí de lá mais relaxado”, relata.
Apesar da variedade de técnicas, o fisioterapeuta João Pedro reforça que é importante observar os sinais apresentados pelo próprio corpo. “O corpo fala com a gente, dá sinais de quando precisa descansar, de quando precisa de uma liberação, um recovery”, afirma. Para atletas de alto rendimento, essa percepção pode ser acompanhada por avaliações e marcadores relacionados à resposta do organismo.
A frequência de utilização também muda conforme o perfil de cada pessoa. Enquanto atletas profissionais podem recorrer aos recursos com maior frequência por causa da quantidade de treinos e competições, praticantes amadores também podem se beneficiar. “Não existe muita diferença, existe só a frequência”, explica João Pedro.
No entanto, o recovery não deve ser entendido como uma solução isolada para o cansaço provocado pelos treinos. Rogério reforça que sono, alimentação, hidratação e controle adequado da carga continuam sendo fundamentais. “Recovery não significa ‘apagar’ completamente o cansaço de um treino”, afirma. As técnicas entram como ferramentas complementares dentro de uma rotina de cuidados.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
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