Fitness e Nutrição

Além do apoio: cheerleading cresce e exige preparo físico de ponta

A prática do cheerleading, que tem se popularizado no Brasil, envolve não apenas os músculos. É um pacote completo de concentração e força para os atletas

Gabriel Miranda participa de uma equipe competitiva de cheerleading -  (crédito: Arquivo Pessoal)
Gabriel Miranda participa de uma equipe competitiva de cheerleading - (crédito: Arquivo Pessoal)

Com berço nos Estados Unidos, a cheerleading, ou liderança de torcida, em tradução livre do termo em inglês, é uma prática esportiva que envolve dança, ritmo e acrobacias individuais ou em grupo. O esporte tem se popularizado cada vez mais, principalmente entre estudantes universitários, que montam equipes para torcer por seus times de outras modalidades. Além disso, conta com competições próprias ao redor do Brasil e do mundo.

A prática pede uma entrega total da força. No entanto, de acordo com o estudante de ciências biológicas e atleta Iago de Sousa, é algo que pode ser desenvolvido e não pré-requisito para começar a treinar. "O condicionamento físico e a consciência corporal podem ser adquiridos praticando o cheerleading, porém pessoas que já possuem um condicionamento bom têm mais facilidade em aprender e se desenvolver no esporte." 

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O personal trainer Elton Luís destaca a importância de fortalecer os músculos para além da prática, como uma medida de segurança. "A musculação e o treinamento funcional têm um papel importantíssimo para potencializar e dar ainda mais segurança aos movimentos. Principalmente visando evitar lesões e aperfeiçoar o desempenho dessa atividade", justifica. 

Iago reforça a ideia de que, mesmo não sendo um fator limitante, exercícios de força o auxiliam nos treinos competitivos. "Fora dos treinos de cheer eu pratico calistenia, então ter uma rotina de algum esporte mais focado no ganho de força e de fôlego é extremamente importante quando se está em uma equipe competitiva de cheerleading", relata o estudante.

Na equipe universitária do estudante de educação física Gabriel Miranda, 27, a busca, ao aceitar novos participantes, é por pessoas com alguma qualificação que contribua para o esporte, mas não específica do cheerleading. "Aceitamos atletas que nunca praticaram cheerleading, mas buscamos qualificações gerais como flexibilidade, consciência corporal, força, resistência e potência", reforça. 

Além disso, Gabriel recomenda, para quem deseja evoluir no esporte, a prática de exercícios que trabalhem o corpo inteiro, com foco em fortalecer e potencializar o movimento, e sugere a procura por atletas mais experientes, ao iniciar. "Para a parte mais técnica do esporte, eu indico buscar veteranos no esporte e tentar treinar movimentos básicos. Eles são, literalmente, a base para qualquer habilidade mais complexa. Quanto mais consistente o básico, melhor e mais rápida vai ser a evolução." O estudante afirma, ainda, que tentar pular etapas nesse processo pode ser muito danoso.

O cheerleading, porém, não cobra apenas; o esporte também contribui para o desenvolvimento físico do atleta conforme a evolução. Iago, por exemplo, afirma que, mesmo tendo um histórico de prática esportiva, ser cheerleader o ajudou não apenas no físico, mas também no fôlego. "Depois que eu comecei a treinar, o fôlego melhorou. Fiquei mais resistente, consegui fazer a atividade por mais tempo e definir o corpo, principalmente a musculatura inferior, que antes do cheer eu treinava menos que a parte superior", relata.

A mente trabalha

O cheerleading pode ser considerado um esporte de risco. Ao praticar um stunt, a segurança do flyer depende das mãos ensaiadas da base e do back. A psicóloga de esportes e mestranda em educação física da Universidade Católica de Brasília Emily Gonçalves explica que essa responsabilidade pode fortalecer o compromisso e o pertencimento, mas há um lado obscuro. Quando o atleta pensa que o resultado e a segurança de todos dependem exclusivamente dele, nasce uma sobrecarga e necessidade de perfeccionismo por medo de decepcionar. "A culpa pode ser construtiva quando leva ao pensamento de que se pode aprender com o erro, mas torna-se prejudicial quando se transforma em vergonha e o atleta se considera o erro", detalha a psicóloga.

A necessidade de precisão em cada movimento não significa apenas um bom desempenho, mas a segurança de cada participante da manobra. A psicóloga destaca a necessidade de um ambiente de treino onde as inseguranças e os medos sejam bem recebidos. "O impacto psicológico depende do equilíbrio entre as exigências e os recursos percebidos pelo atleta", conta. As exigências são parceiras ao desenvolver concentração, disciplina, consciência corporal e confiança, mas em um espaço desequilibrado, o atleta pode ter pensamentos catastróficos. "Quando o atleta interpreta o erro como ameaça de lesão ou de prejuízo aos colegas, podem surgir ansiedade antecipatória, hipervigilância e tensão muscular, comprometendo a execução", observa a especialista.

Jéssica Gomes Gutierrez Braga, psicóloga do Hospital Brasília, destaca o fator do ambiente agradável. "Ao construir uma mentalidade de confiança coletiva, é fundamental desenvolver uma comunicação clara e previsível no grupo. A equipe precisa saber que pode confiar não apenas na competência técnica dos colegas, mas também na reação deles sob pressão", examina. Na hora de fazer a apresentação acontecer, a equipe deve se alinhar, inclusive, em uma comunicação não verbal em momentos decisivos. "Uma estratégia eficaz é estabelecer sinais simples, contato visual e posicionamentos corporais padronizados para situações específicas, treinando-os repetidamente em contextos de pressão", indica a psicóloga.

E tratando de coletivo, a psicóloga Emily destaca que o esporte tem o potencial de construir uma resiliência coletiva, que não surge a partir do risco, mas da conversa e confiança. "Ela é construída quando o atleta enfrenta desafios progressivos com preparação e apoio. Vale lembrar que resiliência não significa suportar medo ou dor em silêncio, mas reconhecer essas experiências e responder a elas de maneira segura", alerta.

O resultado é coletivo

Para a educadora física Elisangela Garcia, o cheerleading funciona como uma escola para a vida em diversos momentos. Os atletas aprendem a controlar o próprio medo e o nervosismo para realizar as acrobacias da coreografia. "É um conjunto de habilidades emocionais e sociais", diz. A dependência de um esportista em outro ajuda no desenvolvimento socioemocional de forma rápida e profunda, criando laços que são levados para a vida fora dos treinos. É exatamente isso que Iago relata sobre a convivência na prática. "O esporte ajuda a fazer novos amigos por ser coletivo. Eu tenho amigos que levo para a vida por conta do cheer", conta.

Para Elisangela, a modalidade se diferencia, pois todas as pessoas têm papel decisivo. "No futebol, por exemplo, um jogador pode decidir o resultado final da partida. Já na modalidade em questão, precisamos de 100% de todos os componentes, independentemente da sua habilidade individual", exemplifica. A especialista acredita que o determinante não é apenas o espírito de equipe, mas uma relação de entrega e confiança em todos os indivíduos. "O esforço individual está diretamente atrelado ao sucesso coletivo".

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte


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postado em 30/08/2026 06:00 / atualizado em 31/08/2026 15:03
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