
Aconteceu semana passada, no Teatro Nacional, uma noite extraordinária. Conduzida pelo maestro Claudio Cohen, no Dia Internacional da Paz, a Orquestra Sinfônica Claudio Santoro mostrou que é uma das melhores do planeta. E foi aplaudida de pé por pessoas de diferentes idades, histórias, crenças e trajetórias reunidas por um mesmo desejo: imaginar e, por algumas horas, experimentar, um mundo orientado pela paz. Não éramos apenas uma plateia diante de um espetáculo. Éramos uma comunidade inundada pela esperança.
A música nos lembrou de uma verdade essencial: nenhum som precisa desaparecer para que o outro exista. Cada instrumento preserva sua identidade e, justamente por isso, engrandece o todo.
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Que bela metáfora da paz!
A música tocada naquela noite foi sublime. Não apenas pela excelência dos músicos, dos solistas e do coro, mas pelo que despertou em cada pessoa presente. Havia algo acontecendo para além daquilo que os olhos podiam ver. Como se cada acorde alcançasse regiões da alma onde as palavras raramente conseguem chegar.
A música tem esse poder misterioso de abrir portais. Ela libera dores antigas, ressentimentos, traumas, lembranças difíceis e marcas de violências que, muitas vezes, o corpo guarda em silêncio. Algumas pessoas choravam. Outras sorriam. Algumas permaneciam imóveis, de olhos fechados, talvez reencontrando partes de si mesmas que haviam ficado esquecidas em algum lugar do caminho.
Uma vez, conversando com a doutora Lúcia, diretora-geral da Rede Sarah, ouvi dela um relato que nunca esqueci. Quando o hospital promove apresentações musicais para os pacientes, nos dias seguintes diminui drasticamente a quantidade de analgésicos necessária. Mesmo pessoas em estados gravíssimos, recuperando-se de fraturas e traumas, sentem menos dor.
A música conforta e embala num nível tão profundo que chega a aliviar a dor física. Ela não apaga o que aconteceu, mas modifica a maneira como o corpo atravessa o sofrimento. Onde havia apenas tensão, oferece repouso. Onde havia medo, cria amparo. Onde o trauma havia interrompido o fluxo da vida, ela abre uma passagem.
Foi exatamente isso que senti naquela noite no Teatro Nacional. A Orquestra Sinfônica não estava apenas executando peças musicais. Estava cuidando de nós.
Tive a sorte e a honra de participar daquela celebração cheia de alegria e elegância, oferecendo pequenas intervenções artísticas e reflexivas entre as obras. Mas, diante da grandeza do que se formou ali, compreendi que nenhum de nós era apenas espectador, solista ou convidado. Todos fazíamos parte de uma mesma composição.
Na minha fala de encerramento, procurei lembrar que a beleza de uma orquestra não nasce somente da apresentação dos solistas. Ela existe por causa de cada nota tocada por cada instrumento, de cada voz do coro, de cada pausa respeitada e de cada pessoa disposta a escutar. Com a paz acontece o mesmo: ela não depende apenas de líderes, tratados internacionais ou grandes discursos. Cada um de nós tem uma nota indispensável nessa construção.
A paz pode começar quando saímos de casa mais cedo e evitamos ultrapassagens perigosas, buzinas e falta de paciência com quem demora mais de 15 segundos diante de um sinal que acaba de se abrir. Quando conseguimos conversar dentro de casa antes que uma pequena desavença se transforme em ressentimento, humilhação ou violência. Quando escutamos sem interromper, reconhecemos um erro ou encontramos coragem para pedir perdão.
Ela aparece no trabalho, quando discordamos sem humilhar e recusamos alimentar uma fofoca. Nas escolas, quando ensinamos às crianças que diferença não é motivo para exclusão. Nas redes sociais, quando verificamos uma informação antes de compartilhá-la e nos lembramos de que existe um ser humano do outro lado da tela. Nenhum algoritmo pode ter mais poder sobre nós do que a nossa consciência.
A paz também se manifesta na política, quando compreendemos que discordar não nos transforma em inimigos. Ela está na fila, no elevador, no condomínio, na escola dos filhos e, sobretudo, na maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca.
Só posso dizer que, naquela noite sublime, ela nos alcançou.
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Revista do Correio
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