Bichos

Vida além do casco: quelônios como pets

Tartarugas, cágados e jabutis se popularizam como animais domésticos. Eles exigem cuidados especiais, como banho de sol e alimentação regrada. Antes de adotá-lo, é preciso, também, ficar atento à sua origem

Os jabutis precisam de espaço para explorar
     -  (crédito: Magnific)
Os jabutis precisam de espaço para explorar - (crédito: Magnific)

Silenciosos, longevos e aparentemente fáceis de cuidar, os quelônios — como tartarugas, jabutis e cágados — conquistaram espaço nos lares brasileiros como animais de estimação alternativos. No entanto, por trás do casco resistente, que lhes rendeu o apelido de "tanques de guerra", esses répteis, habitantes do planeta há milhões de anos, exigem cuidados específicos, como alimentação adequada e adaptação do ambiente doméstico para atender às suas necessidades.

Embora sejam frequentemente confundidos, os quelônios apresentam diferenças biológicas e hábitos distintos. Os jabutis são animais estritamente terrestres, com cascos altos e patas pesadas, em formato de coluna, ideais para a locomoção em terra. Já os cágados são semiaquáticos, adaptados a lagos e rios, mas também necessitam de uma área seca para descansar e tomar sol. Por fim, as tartarugas aquáticas possuem cascos mais hidrodinâmicos e patas em formato de remos, adaptadas à vida em mares ou em águas doces profundas.

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Uma das principais características comuns a esses animais é a presença do casco. Essa estrutura funciona como uma proteção para as partes dorsal e ventral do corpo e integra o esqueleto do animal, não sendo uma casa ou armadura removível. O médico veterinário de animais silvestres Rafael Fernandes explica que, em casos de quedas ou acidentes, essa parte do corpo não deve ser negligenciada apenas por aparentar ser resistente. "Muitas lesões que parece superficiais podem acometer tecidos e órgãos internos, como os pulmões, podendo acarretar hemorragias fatais", alerta.

Além disso, os répteis, de modo geral, são animais ectotérmicos, ou seja, dependem de fontes externas de calor para regular a temperatura corporal. Nesse sentido, Rafael destaca a importância dos cuidados com a hidratação e a temperatura. Segundo ele, os banhos podem ajudar a manter a hidratação em determinadas situações, mas devem ser realizados de acordo com as necessidades de cada espécie.

O habitat

O médico veterinário de animais exóticos e silvestres Douglas Perx explica como devem ser feitas as adaptações nos ambientes domésticos para proporcionar uma vida saudável aos quelônios. "Por se tratar de um animal terrestre, os jabutis necessitam de espaço para explorar. Esses animais precisam de tocas em ambientes seguros. Quando são pequenos, não podem ser deixados perto de animais grandes, pois existe o perigo de serem mordidos. Com o crescimento, é recomendado que fiquem em quintais e jardins com acesso à luz solar para a regulação térmica."

Já as tartarugas aquáticas precisam de acesso à água e de um ambiente adequado às suas características. "O principal erro dos donos é o espaço pequeno que é oferecido aos animais. Quando não existe espaço adequado, o crescimento é afetado", afirma Rafael.

O veterinário também relembra a importância da exposição à radiação ultravioleta. "Os raios UV ajudam em um melhor desenvolvimento da carapaça e dos músculos." Importante é manter a rotina conforme o ciclo biológico normal: tomar sol durante o dia. "Para quem vive em lugares que não possuem acesso direto à incidência solar, é possível utilizar luzes artificiais com UVA e UVB durante o dia para essa adequação biológica", orienta.

Em uma casa cheia de animais, Francyelle Lima, 19 anos, e Kauê Lima, 16, ambos estudantes, ganharam duas tartarugas de presente da mãe há 10 anos. Atualmente, apenas uma delas permanece viva e saudável — e ainda é capaz de dar sustos na família. "Um dia, a colocamos para tomar banho de sol, como de rotina, e fomos fazer nossas coisas. Ao contrário do que as pessoas pensam, as tartarugas são muito ágeis e, quando percebemos, nosso bichinho tinha sumido. Procuramos muito e, em algum momento, perdemos a esperança, achando que ela tinha sido roubada. Três meses depois, ela reapareceu, muito bem, na nossa casa", relembra Francyelle.

Ela explica que, por conviver com outros animais, como coelhos, pássaros e cachorros, percebe diferenças no comportamento de cada espécie. "A tartaruga não gosta de contato, ela vive a rotina dela e não é fã de afeto. É um animal muito curioso, é silenciosa e quieta no canto dela", conta.

A dieta

A alimentação inadequada é um dos fatores que podem levar os quelônios a precisar de atendimento veterinário. Douglas desmistifica a ideia de que esses animais precisam apenas de alface e tomate. "Vemos muitos animais com uma dieta muito pobre em nutrientes. Por exemplo, um dos maiores erros dos tutores é esquecer que os jabutis são animais onívoros. Eles precisam consumir proteínas, inclusive de origem animal, de forma semelhante ao que ocorre em seu ambiente natural", explica.

Douglas destaca que a alimentação deve ser planejada de acordo com as necessidades nutricionais de cada espécie. Segundo ele, uma dieta equilibrada deve considerar as proporções adequadas de vegetais, fontes de proteína e outros alimentos ou rações específicas. Além disso, os tutores precisam observar constantemente a quantidade de alimento ingerida. "Como são animais que apresentam sintomas sutis, quando existe algum problema de saúde, como uma doença, um dos sinais pode ser a falta de apetite", alerta.

A qualidade da água em que os animais vivem e da qual bebem também pode provocar problemas de saúde. "Problemas relacionados ao pH, à amônia, ao nitrito e a outras substâncias presentes na água podem causar lesões bacterianas e fúngicas na córnea, por exemplo. O ideal é sempre manter a água com parâmetros estáveis, com um bom sistema de filtragem e oxigenação, de acordo com as necessidades das espécies", afirma Rafael.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 


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postado em 18/10/2026 06:00
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