
Com a rotina corrida, muitos tutores não conseguem dedicar o tempo ideal aos seus pets. Por isso, oferecer estímulos na ausência de humanos é fundamental para evitar o tédio e o sedentarismo. Para atender a essa demanda, brinquedos automáticos, formas lúdicas de alimentação e até canais de televisão dedicados ao bem-estar animal vêm ganhando espaço no mercado.
A veterinária comportamental Nathália Rye Moraes explica que cachorros e gatos têm necessidades distintas em relação à presença dos tutores. "Os cães são animais sociais, buscam formar grupos e gostam de estar perto da gente. Já os gatos preferem mais privacidade e tendem a ficar sozinhos", ressalta.
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Nathália alerta, porém, para uma visão equivocada e prejudicial sobre os gatos: a de que podem passar horas ou dias desacompanhados sem problemas. Na ausência dos tutores, eles frequentemente entram em um processo de inatividade, passando a maior parte do tempo dormindo ou se movimentando pouco.
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A quantidade de horas que um animal pode ficar sozinho sem prejuízos ao bem-estar físico e mental depende da idade, dos hábitos sanitários, da raça, da rotina e da saúde. Apesar dessas diferenças, os tutores devem ter bom senso no trato desses seres vivos.
A veterinária comportamental Carolina Ferrare exemplifica como cada forma de agir interfere nas dependências dos animais. "Um filhote não deve ficar sozinho sem supervisão, com acesso livre à casa. Ele precisa estar num ambiente seguro e à prova de acidentes, assim como uma criança humana. Um cachorro jovem, cheio de energia, se ficar sozinho em um apartamento por oito horas diárias, provavelmente, vai desenvolver problemas comportamentais. Se um cão que não utiliza tapete higiênico passar 12 horas dentro de casa sem urinar/defecar, provavelmente vai adoecer."
Quando esse quadro se agrava, o pet pode desenvolver a síndrome de ansiedade por separação (SAS) — um distúrbio em que o animal sente extremo estresse, pânico ou angústia ao se ver separado do seu tutor.
Carolina esclarece que o transtorno não deve ser confundido com mero tédio. "É muito raro que um cachorro com ansiedade por separação fique apenas deitado o dia todo esperando a família voltar. O frequente é que ele lata por horas, destrua portas e machuque as patas no processo. Coma pedaços do sofá, defeque na sua cama ou lamba as patas até ferir."
As diferentes sensações
Para garantir o desenvolvimento pleno e saudável dos animais, Carolina destaca que é preciso incentivar pilares essenciais, como exercícios físicos, socialização, estímulos cognitivos e o chamado enriquecimento alimentar. A veterinária explica que, para estarem mentalmente saudáveis, os pets precisam exercer comportamentos naturais, como farejar, cavar e forragear. Como essas oportunidades não surgem de forma espontânea na rotina urbana, as atividades de enriquecimento ambiental tornam-se indispensáveis.
Assim, combinar diferentes tipos de estímulos durante o tempo em que o animal fica sozinho é fundamental. No campo visual e sonoro, uma novidade recente foi o lançamento de uma série animada sobre focas pela Netflix — chamada Sealook —, desenvolvida especialmente para o público pet. Sem diálogos e com ruídos leves e sons da natureza, a atração utiliza uma paleta de cores ajustada ao espectro visual de cães e gatos para captar e reter a atenção dos bichos.
"A gente frequentemente recomenda deixar uma TV ou música ligada porque isso pode trazer conforto para alguns cães, já que é algo que acontece também quando estamos em casa. Mas, a princípio, não faz diferença o que está passando. A vantagem de canais ou programas específicos para animais é que não há o risco de ter barulhos altos que vão assustar os bichos", diz Carolina.
Para gatos, a distração vem da rua. Nathália detalha: "Pontos de observação na janela, por exemplo, podem ser o contato dos felinos com o mundo exterior, no qual há pássaros e pessoas".
No entanto, estímulos visuais não são a única alternativa. Para animais sem restrições, brinquedos recheáveis, mastigáveis naturais, pelúcias e tapetes de fuçar, além de tabuleiros cognitivos são excelentes recursos para instigar o instinto de busca. Nathália reforça que pequenas dinâmicas dentro de casa fazem grande diferença para tirar os pets da rotina, como esconder petiscos pelos cômodos ou utilizar comedouros no estilo quebra-cabeça.
A veterinária ressalta, contudo, que qualquer introdução de novos objetos ou brinquedos deve ser feita de maneira gradual e, preferencialmente, sob supervisão inicial do tutor para evitar acidentes. Combinar estímulos visuais, sonoros, cognitivos e alimentares é a estratégia mais eficiente para transformar a solidão em um momento relaxante e enriquecedor, garantindo a saúde física e mental dos companheiros de quatro patas.
A chegada do tutor
Tão importante quanto enriquecer o ambiente é cuidar da forma como o tutor se despede e reencontra o animal. Fazer "grandes festas", demonstrar ansiedade na hora de sair ou fazer recepções efusivas ao voltar para casa pode intensificar o estresse do pet, aumentando a expectativa em torno da ausência do tutor. O ideal é manter a neutralidade nesses momentos, ignorando o animal nos primeiros minutos do reencontro até que ele se acalme. Da mesma forma, deve-se evitar categoricamente punir ou dar broncas por estragos ou sujeiras feitos durante a ausência; os pets não associam a bronca a um comportamento passado, o que só gera confusão, medo e mais ansiedade para os próximos períodos de solidão.
Leo Valdez, estudante de 20 anos, tem três gatos em seu apartamento: Tonico, Lola e Guadalupe. "Eles passam grande parte do dia sozinhos, sei que eles podem ficar entediados e, por isso, disponibilizo brinquedos, como bolinhas, que ficam espalhadas e escondidas pela casa."
Ele explica que, mesmo com a saudade, evita demonstrar animação excessiva para não gerar ansiedade nos bichos. "Sinto muito falta deles durante o dia. É muito gratificante, com a minha chegada, vê-los se aproximando e me fazendo carinho, como se falassem que sentiram saudades. Evito demonstrar minhas emoções para eles, para que continue sendo uma relação saudável."
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
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