Na véspera do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, dez meninos e meninas entre 5 e 12 anos responderam às mesmas perguntas. Como sabem que alguém gosta delas? O que é família? O que faz um bom amigo? E o que mudariam no mundo, se pudessem? As respostas mostram diferentes formas de compreender sentimentos e relações, mas revelam algo em comum, a importância do cuidado.
Para uma criança, amor pode estar em um abraço, em uma brincadeira ou até em um prato de comida preparado com carinho. Família pode ser quem protege, acolhe e permanece ao lado nos momentos difíceis. Um bom amigo é aquele que brinca, ajuda, consola e mostra o caminho certo. Quando perguntadas sobre o que mudariam no mundo, porém, as respostas vão muito além do universo infantil, com menções à fome, à pobreza, à poluição, às guerras, ao bullying e até a situação dos animais abandonados.
Aos 5 anos, Levi Barbosa resume o afeto a ações da sua rotina. Alguém gosta dele quando está "amando, brincando e ajudando a gente". Família é "amar o pai, a mamãe e a irmã", e um bom amigo é quem sabe brincar. Se pudesse mandar no mundo, escolheria "ajudar as pessoas".
A psicóloga clínica e hospitalar Izabelle Santos explica que crianças pequenas costumam compreender conceitos abstratos a partir das experiências concretas. "Entre 4 e 6 anos, ela ainda está muito ligada ao concreto e às experiências que vivencia. Então, amor pode ser 'quem cuida de mim', amizade pode ser 'quem brinca comigo' e família pode ser 'quem está comigo'", afirma.
É justamente o que aparece na fala de Catarina Aredes, 9. Para ela, o carinho está em quem "vive cuidando de mim, me acolhe, me faz tudo com carinho... até comida". Família é "amar, cuidar, gostar. É família. E amar", e um bom amigo "cuida, protege, ama e brinca".
Laura Barbosa, 9, amplia a ideia de afeto para o apoio. Família é "aquele que fica perto de nós e sempre nos apoia e acolhe a gente", e um bom amigo é "aquele que sempre está perto, apoiando todos os nossos sonhos". Quando pensa no mundo, ela não fala apenas do seu cotidiano. "Que nenhuma criança passasse fome e que não existisse bullying", responde.
Acompanhando o desenvolvimento
Segundo Izabelle, a maneira como as crianças definem esses sentimentos acompanha o desenvolvimento. "Entre 7 e 9 anos, a criança começa a perceber melhor questões como confiança, respeito, reciprocidade e cooperação. Já entre 10 e 12 anos, ela consegue compreender aspectos mais abstratos das relações, como empatia, lealdade, diferenças, conflitos e a importância dos vínculos."
Bernardo Kraskin, 9, associa o carinho à amizade. "Eu sinto quando a pessoa vira minha amiga. Eu acho que a pessoa gosta de mim, e ela fica conversando muito comigo", afirma. Ele define família como amor e como uma relação da qual nunca se deve desistir. Sobre os amigos, é direto. "Ele ajuda as pessoas, ele traz bons sentimentos, faz as pessoas tristes ficarem felizes." Para mudar o mundo, acabaria com a pobreza dos moradores de rua e gostaria que as pessoas fossem boas.
Dante Guiné, 8, pensa primeiro nos pais ao explicar como reconhece o amor. "É porque os meus pais me ajudam quando eu preciso de ajuda, me acolhem, me protegem do perigo. Quando eu vou fazer algo que vai dar errado, eles me avisam", conta. Família, para ele, são pessoas que acolhem, que devem ser acolhidas e amadas e que também precisam de ajuda.
Aos 12 anos, Jade Guiné apresenta uma definição mais abstrata. "Eu sei quando alguém gosta de mim quando a pessoa é legal comigo, quando a pessoa é carinhosa, quando a pessoa me respeita", diz. Para ela, família é "cuidar, amar", e a amizade envolve confiança. "Um bom amigo, você pode confiar nele para tudo." A coisa que mudaria no mundo é a fome, preocupação que aparece também nas respostas de outras crianças e mostra como questões sociais atravessam o olhar infantil.
Maria Helena Vasconcelos, 10, reconhece o carinho nas pequenas atitudes. "Quando a pessoa brinca comigo, cuida de mim", conta. Família é quem "te ajuda, ama, cuida", e um bom amigo "brinca, defende, ajuda". A mudança que ela quer para o mundo tem um alvo mais específico. "Tirar todos os gatinhos de rua e trazer para minha casa."
Vítor Aredes, 10, também parte das relações próximas. "A mamãe gosta de mim, pois ela me ama muito." Sobre os amigos, é objetivo. "Meu amigo gosta muito de mim porque eu brinco todo dia com ele." Família é "sempre união", e um bom amigo pode "me consolar, consolar o outro". Se pudesse, "tiraria todas as coisas ruins que existem".
Pedro Lima, 9, reconhece o carinho "pelas atitudes das pessoas, se ela quer ficar mais perto, brincando, divertindo". Família, para ele, é presença, sobretudo quando as coisas não vão bem. "Quando você está nos momentos ruins e bons, sua família sempre vai estar com você, mesmo nos momentos ruins, e sempre vai estar do seu lado", destaca. Na amizade, valoriza os momentos compartilhados e o apoio. "A gente brinca, a gente se diverte, nos momentos ruins, ele vai me ajudar, vai fazer umas coisas que ficam gratas no nosso coração." Quanto ao mundo, acabaria com as guerras e proibiria drogas, cigarro e bebida alcoólica.
João Moreira Lima, 12, define o carinho pelas atitudes e pela personalidade de quem está ao seu lado. Família é "quem te ajuda nos piores momentos, quem te dá amor, quem te dá carinho, quem te dá atenção". E um bom amigo é quem "te ajuda, te mostra o caminho certo das coisas". Sobre o mundo, traz uma preocupação ambiental. "A poluição sonora e a poluição visual." Ele cita a poluição em cidades como São Paulo e na Índia, explica que ela interfere na camada de ozônio e fala do incômodo do som alto durante a noite.
Mais do que pessoas
Para a psicóloga Regina Vera, escutar essas respostas ajuda os adultos a ver a infância além da ideia de que crianças são apenas pessoas em aprendizado. "Quando realmente escutamos uma criança, descobrimos que ela não é apenas alguém que precisa aprender com os adultos. Ela também possui uma maneira própria, sensível e, muitas vezes, surpreendente de interpretar a realidade", explica.
A especialista lembra que a família costuma ser a primeira referência na forma como a criança aprende a se relacionar. "A família é, geralmente, o primeiro espaço em que a criança aprende o que significa estar no mundo e se relacionar com o outro." É nesse ambiente, explica, que se constroem referências sobre confiança, segurança, autoestima e pertencimento.
As crianças não estão alheias aos problemas do mundo, mas precisam de apoio para lidar com o que sentem. Para Izabelle, o desenvolvimento emocional saudável depende de vínculos seguros, afeto, proteção e espaço para experimentar e aprender. "Uma criança emocionalmente saudável não é aquela que nunca fica triste, com raiva ou com medo. É aquela que aprende que pode sentir essas emoções e que existem adultos que podem ajudá-la a compreender e lidar com o que está sentindo."
Em um cotidiano marcado por telas e rotinas aceleradas, Regina chama atenção para a necessidade de preservar a infância. "As telas, por si só, não são necessariamente o problema. Elas fazem parte do mundo atual e podem oferecer entretenimento, aprendizagem e conexão." O desafio, segundo ela, é evitar que as telas tomem o lugar das brincadeiras, do contato com a natureza, da convivência e das experiências que ensinam a esperar e a lidar com frustrações.
No fim, as próprias crianças parecem indicar o que precisam. Em diferentes idades e com palavras próprias, falam de estar perto, cuidar, brincar, proteger, acolher, ajudar e amar. E, quando imaginam um mundo diferente, muitas vezes escolhem, justamente, o que já reconhecem como essencial nas relações mais próximas: o cuidado e a solidariedade. "Talvez o maior aprendizado para os adultos seja justamente desacelerar. Nem toda conversa com uma criança precisa resultar em uma explicação, uma correção ou um conselho. Às vezes, é preciso simplesmente estar presente e tentar compreender o mundo a partir do olhar dela", afirma Regina.
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