
Nem tudo o que dói ou conforta encontra abrigo na linguagem falada. Quando a ansiedade trava a garganta ou o trauma desorganiza o pensamento, a tentativa de explicar em palavras o que se passa na mente pode virar um obstáculo a mais na terapia. É nesse intervalo, no qual a fala gagueja ou silencia, que a expressão artística emerge não como mera distração visual ou literária, mas como um recurso terapêutico capaz de dar contornos concretos ao que não consegue ser dito.
Dessa forma, a arte atua como uma via complementar à psicoterapia tradicional ao acessar conteúdos emocionais antes mesmo de eles serem racionalizados. "A arte não substitui a linguagem, mas amplia as formas de representação da experiência psíquica", explica Paulo Henrique Roberto, psicanalista e professor do curso de psicologia do Centro Universitário Uniceplac. "A produção artística pode mobilizar processos sensoriais, motores, atencionais e emocionais, favorecendo estados de atenção e regulação emocional", completa.
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pode facilitar a elaboração e a comunicação da experiência subjetiva, que pode complementar a psicoterapia verbal", destaca o especialista.
No entanto, a diferença fundamental entre o uso da palavra e a criação artística reside na "porta de entrada" dos estímulos no cérebro. Michele Andrade, professora de psicologia do Centro Universitário de Brasília (Ceub), ressalta que ambas as práticas envolvem redes neurais amplas, mas a arte permite começar pelo gesto, pela imagem e pela metáfora. "A palavra conta a experiência, enquanto a arte também permite experimentá-la, observá-la e transformá-la", aponta.
O desabafo no papel
A ponte entre a crise e o alívio por meio da criação é vivida na pele por quem transforma a dor em expressão. A escritora Maria Luísa Guerra, 21 anos, encontrou na literatura a ferramenta exata para dialogar com a própria mente quando a fala falhava durante as sessões de análise. "Desde muito nova, faço terapia. Eu me recordo da psicóloga perguntar o que eu sentia no auge de uma crise depressiva, e eu não conseguia falar. Até que resolvi dizer que tinha um caderninho onde as palavras saíam e formavam um esboço da minha alma. A partir dali, ela conheceu pedaços meus que até então eu não conseguia verbalizar", revela a jovem.
Com isso, a prática diária do caderninho acabou dando origem ao livro Palavras nuas e cruas. Para a autora, a poesia vai além do entretenimento. "Para nós, poetas, é eufemismo chamar de hobby; é necessidade para viver e refúgio da própria alma em verso. No início do processo, é meio descompassado, uma chuva de palavras, mas ao final sinto que a parte do peso que carreguei se transforma naquelas letras. É a sensação de desabafar com o papel e se sentir ouvido."
Desde que assumiu esse posto de escritora no mundo, Maria Luísa fez desse refúgio um lugar compartilhado para outras pessoas. O que antes era uma dor solitária, agora conta com uma plateia de muita gente que não quer passar pelo mesmo sem ninguém. "Inicialmente, escrevia para mim e de vez em quando enviava para os amigos. Até que um dia, enviei um compilado maior e recebi apenas choros e incentivos para colocar no mundo a minha arte, e não apenas no meu caderninho escondido na estante. Depois de tomar muita coragem, tenho dois livros publicados", revela.
Maria Luísa brinca que é como se fosse um "nude da alma". "Muita coisa tão profunda e tão minha, são versos que todos podem ler. Mas, novamente, a poesia nos surpreende em sua graça. Cada um interpreta a medida da sua realidade, conforme a necessidade daquele verso na sua vida", finaliza a escritora e estudante de direito.
Sem cobrança por desempenho
Um dos principais equívocos ao aproximar a arte da saúde mental é a exigência por técnica ou beleza estética. Na arteterapia, a busca pela perfeição pode surtir o efeito oposto, gerando frustração. "A arte aplicada aos fins terapêuticos não deve ser comparada a uma aula experimental de desenho. A atividade pode reproduzir justamente experiências de autocrítica, perfeccionismo e medo de julgamento que estão relacionadas ao sofrimento do sujeito. O processo permite que a pessoa experimente algo que o cotidiano frequentemente não permite: a possibilidade de errar sem ser punido; experimentar, não performar; e criar sem precisar justificar o resultado."
A professora Michele Andrade enfatiza que o valor de um trabalho terapêutico não reside na aprovação externa. "A cobrança excessiva transforma o momento em mais uma avaliação de desempenho — uma prova com pincéis. Na arteterapia, o belo não é uma exigência. Muitas vezes, a obra mais importante não é a mais bonita, mas aquela que permite à pessoa reconhecer algo verdadeiro sobre si mesma."
Processo semelhante vive a ilustradora Viviane Moura, 24 (@gaivotart). Ela reaproximou-se do desenho em 2020, depois de um período distante desse entorno criativo. Foi na pandemia que, buscando formas de controlar a ansiedade, ela decidiu retornar para o lugar do qual nunca deveria ter partido. "Este refúgio foi a minha salvação. A criação em dias difíceis é até mais produtiva porque acolhe minha sensibilidade. Existe uma Viviane antes de começar uma obra e outra após concluir. É como se questões pessoais encontrassem espaço para serem expressas e amenizadas", relata.
Apesar das idas e vindas, a ilustradora, para além de ter se apoiado na própria arte, também fez dela profissão. No entanto, mesmo com os quadros e as obras que produz, ainda mantém certas produções em silêncio, como um jeito de preservar sentimentos que só precisam ser conhecidos pela artista. "Muitas dessas artes nasceram em momentos nos quais eu precisava apenas estar ali, física e mentalmente conectada ao silêncio, como se existíssemos somente eu e a criação. Como consequência desse desligamento do mundo exterior, a arte produz em mim um efeito semelhante ao de um medicamento, eu me sinto em paz."
Limites clínicos e hábitos sustentáveis
Apesar dos benefícios comprovados para quadros como depressão, ansiedade e estresse, especialistas ressaltam que a expressão artística não atua como uma solução isolada ou milagrosa. Michele Andrade lembra que, em contextos como o burnout ou traumas graves, a arte deve integrar um plano terapêutico mais amplo. "Se as condições inadequadas de trabalho permanecem, pintar ou ouvir música não resolve o fator que produz o adoecimento. Além disso, em casos de trauma, a criação precisa respeitar os limites do paciente para não gerar reativação emocional dolorosa sem o devido suporte", finaliza.
Revista do Correio
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