Segundo reportagem da revista “Veja”, as águas que um dia foram símbolo de riqueza para o país estão impregnadas de petróleo cru, resíduos sólidos, esgoto doméstico e microalgas tóxicas, dando à enorme massa d’água uma coloração verde-escura e um odor ácido que se espalha pelas margens.
Especialistas ambientais alertam que décadas de exploração petrolífera intensiva, infraestrutura obsoleta e ausência de tratamento adequado de resíduos transformaram o lago em um dos corpos d’água mais contaminados da América Latina, comprometendo a vida aquática e a saúde das comunidades ribeirinhas.
Em várias áreas, tubulações antigas liberam óleo constantemente, instalações deterioradas liberam poluentes e nutrientes excessivos, como nitrogênio e fósforo, alimentam florescências de cianobactérias - conhecidas localmente como “verdin” - cuja toxicidade prejudica peixes, crustáceos e pode afetar seres humanos.
Com mais de 13 mil quilômetros quadrados de extensão, o Lago Maracaibo é uma das maiores e mais antigas massas d’água do planeta, com registros geológicos que apontam entre 20 e 36 milhões de anos de existência, o que o torna um dos lagos mais antigos do mundo.
A forma atual do lago é de uma grande baía salobra conectada ao Caribe pelo estreito de Tablazo, resultado de transformações naturais e interferências humanas ao longo dos séculos.
Alimentado por numerosos rios, o maior deles o Catatumbo, o lago cruzou um longo percurso desde sua ocupação por povos indígenas até tornar-se peça central nos processos de colonização espanhola e construção da identidade venezuelana no fim do século 16.
O nome “Venezuela”, que significa “Pequena Veneza”, remonta a 1499, quando exploradores europeus encontraram casas sobre palafitas nas margens do lago e lembraram da cidade italiana.
Ao longo dos séculos 16 e 17, a região alternou entre tentativas de colonização e conflitos, até que a cidade de Maracaibo foi definitivamente estabelecida em 1574 e mais tarde se tornaria cenário de batalhas importantes, como a decisiva Batalha Naval do Lago Maracaibo em 1823, durante a guerra de independência da Venezuela.
No século 20, a descoberta de petróleo nas proximidades do Maracaibo em 1914 e a construção de poços comerciais a partir de 1922 transformaram a região em um dos corações da indústria petrolífera venezuelana.
A bacia de Maracaibo abriga uma enorme rede de poços, milhares de quilômetros de oleodutos e plataformas de extração que impulsionaram a economia do país por décadas, fazendo da Venezuela uma potência no setor.
A abertura, na década de 1930, de um canal para permitir a entrada de navios petroleiros oceânicos alterou a hidrologia do lago e facilitou a entrada de água salgada, mudando o ecossistema original e contribuindo para problemas ambientais futuros.
Por sua dimensão e posição estratégica, o Lago Maracaibo sempre teve importância econômica além do petróleo. Suas águas e arredores sustentaram uma atividade pesqueira significativa, com peixes, camarões e outras espécies que alimentaram comunidades locais e abasteceram mercados regionais.
Além disso, fenômenos naturais notáveis, como o relâmpago do Catatumbo - descargas elétricas quase contínuas geradas na região onde o rio Catatumbo encontra o lago - tornaram a área um ponto de interesse meteorológico mundial, com uma das maiores frequências de raios por ano no planeta.
No entanto, o mesmo desenvolvimento petrolífero que trouxe prosperidade deixou um legado de degradação ambiental difícil de reverter.
As consequências para as comunidades que dependem do lago são visíveis: pescadores relatam quedas drásticas nas capturas, danos a equipamentos e problemas de saúde ligados à contaminação das águas.
A degradação ecológica também afeta espécies nativas e o equilíbrio dos ecossistemas, ameaçando a biodiversidade que, historicamente, fez do Maracaibo um ambiente rico em vida aquática, incluindo várias espécies de peixes endêmicos e mamíferos aquáticos como o peixe-boi.
Nos últimos anos, iniciativas de limpeza e esforços ambientais liderados por comunidades locais, cientistas e mesmo alguns programas governamentais têm buscado formas de mitigar o impacto da poluição e recuperar partes do lago, embora essa seja uma tarefa colossal diante das décadas de negligência e do tamanho do problema.