O segredo dessa façanha encontra-se principalmente nas patas traseiras do animal. Seus dedos longos contam com franjas de pele que se expandem ao tocar a água, aumentando a área de contato com a superfície e funcionando como pequenos remos. A cada passada, o lagarto golpeia a água com grande velocidade, empurrando o líquido para baixo e gerando uma força de reação capaz de sustentar temporariamente o peso do corpo.
Ao mesmo tempo, é formada uma pequena bolha de ar sob as patas, o que contribui para evitar que ele afunde. Antes que essa bolsa de ar desapareça, o membro já foi retirado e projetado para o próximo passo. O processo ocorre em uma sequência extremamente precisa. Primeiro acontece o impacto rápido e vertical da pata contra a água. Em seguida, a pressão desloca o líquido ao redor e cria a cavidade de ar que fornece sustentação momentânea.
Por fim, a retirada veloz do membro impede a perda do apoio. A repetição contínua desse ciclo permite que o réptil percorra vários metros sobre rios e igarapés, principalmente quando precisa escapar de predadores. Além da técnica de locomoção, outras características favorecem esse desempenho do tamanquaré.
Seu corpo leve e alongado distribui melhor a massa corporal, enquanto a coloração esverdeada oferece excelente camuflagem entre a vegetação das margens. Essas adaptações aumentam suas chances de sobrevivência em um ambiente onde a competição por recursos e a presença de predadores são constantes.
Pesquisas realizadas com câmeras de alta velocidade permitiram analisar cada etapa desse movimento em detalhes. Os estudos mostraram que a velocidade é o fator decisivo para o sucesso da corrida sobre a água. Indivíduos mais jovens e leves costumam percorrer distâncias maiores antes de perder a sustentação.
Um dos trabalhos científicos mais conhecidos sobre o tema foi publicado na revista científica Nature ('Um modelo hidrodinâmico da locomoção na água pelo lagarto basilisco'), contribuindo para explicar as forças hidrodinâmicas envolvidas nesse fenômeno. As descobertas também despertaram interesse fora da biologia.
Engenheiros utilizam os princípios observados no lagarto para desenvolver robôs e veículos anfíbios capazes de se deslocar em superfícies instáveis com maior eficiência energética. Dessa forma, uma adaptação aperfeiçoada ao longo de milhões de anos pela evolução passou a inspirar soluções tecnológicas modernas.
Uma curiosidade é que o nome popular 'tamanquaré' varia conforme a região amazônica. Fora do Brasil, as espécies do mesmo gênero (Basiliscus) são mundialmente conhecidas pelo apelido de 'lagarto-Jesus', uma referência direta à capacidade de andar sobre a água. Existem diferentes espécies de basiliscos na América Central e do Sul, embora nem todas vivam na Amazônia.
Além disso, o tamanquaré pode atingir cerca de 60 a 80 centímetros de comprimento, grande parte correspondente à cauda. Os machos costumam apresentar cristas na cabeça, no dorso e na cauda, características que lhes conferem uma aparência pré-histórica. Quando a corrida sobre a água não é suficiente, o animal pode mergulhar por até 30 minutos!
Apesar de sua notável capacidade, o tamanquaré amazônico enfrenta ameaças relacionadas à degradação ambiental. O desmatamento das matas que margeiam rios, lagos e nascentes, a poluição dos rios e a introdução de espécies exóticas comprometem as condições necessárias para sua sobrevivência.
Como esse réptil depende diretamente da qualidade dos ambientes aquáticos e florestais, sua presença também funciona como um indicador da saúde dos ecossistemas amazônicos. Protegê-lo significa preservar não apenas um dos fenômenos mais fascinantes da natureza, mas também os delicados processos ecológicos que sustentam a biodiversidade da maior floresta tropical do planeta.