Em abril, a Livraria Fénix, de Badalona, recebeu uma encomenda de uma empresa canadense interessada em uma quantidade atípica de livros em catalão. Novas solicitações chegaram nas semanas seguintes, em intervalos muito curtos e com despesas de transporte consideradas fora do padrão.
A situação despertou a desconfiança do livreiro Marçal Font, que procurou o pesquisador de IA Xavier Vinaixa para entender a origem das compras. Os dois descobriram que comerciantes de outros países haviam recebido pedidos semelhantes, inclusive na Alemanha, na Nova Zelândia e na Austrália.
A investigação passou a ser relacionada ao chamado 'Projeto Panamá', iniciativa atribuída à empresa de IA Anthropic para digitalizar grandes quantidades de livros físicos com o objetivo de utilizar seus conteúdos no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
Documentos revelados durante um processo judicial mencionaram um plano para escanear obras de forma ampla, inclusive com métodos capazes de destruir os exemplares físicos. A técnica mais rápida consiste em retirar a lombada dos livros, separar as páginas e colocá-las em equipamentos industriais que fazem a leitura em alta velocidade.
Depois do processo de digitalização, os livros deixam de poder ser remontados e geralmente são enviados para reciclagem. O interesse por obras antigas cresce devido à necessidade de dados para treinar modelos de linguagem, que aprendem padrões a partir de grandes quantidades de textos.
Inicialmente, usavam-se materiais da internet, mas a expansão dos modelos aumentou a busca por jornais, bibliotecas e livros menos conhecidos. Isso levou livreiros a receberem pedidos por obras de pouco interesse comercial, gerando preocupação com o destino de exemplares raros, esgotados ou históricos.
Especialistas destacam que a digitalização não preserva elementos físicos importantes, como encadernação, anotações e marcas de propriedade. Há ainda receio sobre o acesso aos arquivos e a preservação de materiais sem ISBN. Enquanto isso, cresce o debate sobre alternativas que conciliem preservação cultural e uso de dados para IA.
'A digitalização de um livro não é a mesma coisa que a conservação de um livro; geralmente esse arquivo digital fica em uma base de dados privada, fora do alcance de leitores, bibliotecas e pesquisadores', afirmou à BBC o jornalista especializado em tecnologia do portal argentino Todo Noticias, Rodrigo Álvarez.