Professora do departamento de História da PUC-Rio, a autora apresenta em 'Trabalho como missão: padres-operários entre a Europa e o Brasil (1943-1976)' uma investigação sobre as relações entre fé, mundo do trabalho e mobilização política ao longo de mais de três décadas.
O estudo parte do surgimento dos chamados padres-operários na Europa após a Segunda Guerra Mundial, período marcado pelo distanciamento de parcelas da classe trabalhadora em relação à Igreja Católica. Em vez de permanecer restritos às paróquias, esses sacerdotes passaram se 'infiltrar' em fábricas e a compartilhar o cotidiano das comunidades operárias.
A iniciativa também alcançou o Brasil durante o contexto da Guerra Fria, com a chegada de religiosos estrangeiros a cidades industriais e áreas periféricas. Em Osasco, por exemplo, a Vila Yolanda se tornou um dos espaços analisados pela pesquisadora.
O trecho mostra como os padres desenvolveram uma experiência comunitária baseada na divisão de tarefas. O grupo funcionava de forma semelhante a uma república: os religiosos mais jovens cumpriam jornadas nas fábricas e contribuíam para as despesas da casa, enquanto os mais experientes cuidavam da organização do espaço, preparavam as refeições e atuavam na evangelização dos moradores do bairro.
A pesquisa também registra casos de outros religiosos submetidos à vigilância dos órgãos de segurança, além de prisões, interrogatórios e torturas. Para os estrangeiros, a deportação era outra possibilidade diante do envolvimento com trabalhadores e sindicalistas.
O recorte da obra chega aos anos 1970, período em que os padres-operários perderam parte do espaço que haviam conquistado dentro do catolicismo progressista. A expansão da chamada 'Teologia da Libertação' alterou essa perspectiva ao dar mais atenção a populações pobres e grupos considerados oprimidos nas periferias latino-americanas.