MÚSICA

Meu encontro com Brasília: berço, luta e movimento

Brasília só é plena quando seu horizonte pertence a quem ousa inventar uma cidade melhor

Dani Neri -  (crédito: Arquivo pessoal)
Dani Neri - (crédito: Arquivo pessoal)

Brasília é o meu berço, meu colo e meu útero. Nasci em 1983, filha de Cacá e Tadeu — ela mineira, ele goiano, ambos jovens com a mesma idade da cidade, recém-saídos de uma ditadura militar. Sou a primeira geração da minha família a brotar neste chão; um fruto do Cerrado que aprendeu a ler o mundo mergulhada nos espaços culturais desta capital.

Meus pais se conheceram em grupos movidos pela Teologia da Libertação, tendo a arte como ferramenta de transformação. Sou filha do OPA — Oração pela Arte, onde fui batizada e aprendi cedo a falar com Deus cantando, dançando e celebrando a vida. Fui crescendo assim, embalada pelo pandeiro da minha mãe, os violões do meu pai e do meu avô Neri, e minha avó Lulu me botando para recitar poesias nos saraus da família. Cacá foi a primeira aluna mulher de pandeiro no Clube do Choro e, anos depois, uma das fundadoras do "Toque de Salto", primeiro grupo de samba feminino do DF, onde também me criei e ganhei madrinhas que me abençoam por toda a vida.

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Fui criança na Escola Parque, onde toquei as primeiras notas na flauta doce. A Escola de Música virou minha segunda casa. Ali, fiz parte do ArsFemina, um coral icônico só de mulheres que cantava em chinês, japonês, javanês, tcheco, russo... Foi com elas que comecei a me aventurar nas produções e viagens para festivais. Ali também me tornei flautista e toquei meu primeiro choro amparada pelo mestre Carlinhos 7 Cordas. Teve Curso de Verão, "24 Horas de Música", big bands, óperas, orquestras, corais, bandas e concertos — tudo ali: acessível, integrado, de graça.

Eu fazia meus deveres de casa na Biblioteca Demonstrativa, fiz muitos cursos no Espaço Cultural da 508 Sul e vivi intensamente o Clube do Choro como aluna e ouvinte. Aos 14 anos, entrei na Oficina dos Menestréis e, aos 15, estreei com eles no Teatro Nacional, na Sala Martins Pena lotada, os musicais do Oswaldo Montenegro sob direção do "Detão". Dali, o teatro nunca mais saiu de mim e ganhei uma irmandade que está comigo até hoje.

A Agrupação Teatral Amacaca (ATA) é com quem caminho há mais de 10 anos. Nos unimos em volta do mestre Hugo Rodas, com quem trabalhamos até os últimos dias de sua vida, e agora seguimos reexistindo, nos reinventando neste grande desafio de ser uma companhia de teatro de grupo no DF. Em 2004, ajudei a fundar a primeira banda de pífanos de Brasília, a Ventoinha de Canudo. No nosso 23º carnaval, tivemos a alegria de sermos premiados como o "Melhor Momento do Carnaval" pelo CB Folia 2026. Foi nesse pulsar que, na folia de 2014, comecei a namorar o Tupã; são 13 carnavais nesta parceria atuando juntos na cena cultural da cidade.

Minha história se escreve em rede e as parcerias se fortalecem. Sou feita dos espaços que resistem: da Vila Cobra Coral à Ocupação Mercado Sul Vive, do Teatro Dulcina, do Santuário dos Pajés, do Espaço Inventado, do Pé Direito, da Amanduarte, do Terreiro do Seu Estrelo e da Casa da Martinha do Coco. Há mais de 20 anos, me joguei na produção e na arte-educação por missão e sobrevivência, levando oficinas a diversas regiões administrativas. Sou com muito orgulho, militante cultural desta cidade. Luto pelos direitos de uma classe que mesmo tendo tantos berços culturais, ainda sobrevive à invisibilidade das políticas do GDF.

Somos operários da utopia. Brasília faz 66 anos e eu sigo aqui, com meus 42, parindo a continuidade.

Entrego ao futuro meus filhos, Cauã e Ravi. Que eles aprendam que a criatividade é nossa maior resistência e que o sonho é o combustível para a luta. Brasília só é plena quando seu horizonte pertence a quem ousa inventar uma cidade melhor.

Dani Neri é atriz e musicista

 


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postado em 21/04/2026 03:41
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