
No cenário tecnológico de Brasília, a inovação deixou de ser apenas uma busca por eficiência para se tornar uma ponte essencial de inclusão. A trajetória da Rybená, empresa brasiliense voltada à acessibilidade digital, surgiu de um propósito social, antes mesmo de se tornar um negócio.
Alderval Milhomens, um dos fundadores, relembra que o projeto teve origem nos anos 2000, dentro de uma iniciativa sem fins lucrativos ligada ao desenvolvimento de soluções tecnológicas para pessoas com deficiência. A virada ocorreu a partir de 2016, quando a demanda por acessibilidade digital começou a crescer de forma mais consistente. "As instituições passaram a demonstrar interesse real em ter soluções de acessibilidade, principalmente em ambientes web", explica.
O passo decisivo veio em 2019, ano de fundação da empresa. Hoje, transforma a experiência digital ao converter textos para Libras com avatares 3D e oferecer leitura assistida por voz em três idiomas (português, inglês e espanhol). É uma ponte de inclusão que remove barreiras para surdos, disléxicos, idosos e pessoas com diferentes níveis de alfabetização ou deficiência intelectual. A solução da Rybená reúne mais de 30 recursos e segue em constante evolução. Um dos principais diferenciais é o uso de inteligência artificial para adaptar conteúdos para Libras, por exemplo. Atualmente, a tecnologia está presente em mais de mil sites e conta com mais de 200 clientes.
Apesar dos avanços, o empreendedor aponta que há desafios, especialmente no que diz respeito à conscientização. "A legislação determina que sites devem ser acessíveis. Mas, na prática, muitas instituições ainda não tratam isso como prioridade", afirma. A barreira cultural é um dos principais entraves. "Muitas empresas acham que não têm pessoas com deficiência como público, ou simplesmente não conhecem essas dificuldades", aponta.
Tanto pela proximidade com instituições quanto pelo contato direto com comunidades de pessoas com deficiência, Brasília teve papel central no desenvolvimento da Rybená. "A cidade nos permitiu validar nossas soluções muito de perto, com apoio de universidades como a UnB, de intérpretes e usuários. Esse feedback constante foi fundamental para a evolução da plataforma", enfatiza.
Ele confia nas possibilidades que Brasília proporciona. "A cidade ainda é muito voltada ao setor público, mas tem um enorme potencial na área de tecnologia. Se mais pessoas investirem nesse caminho, acredito que podemos ver surgir grandes empresas daqui", avalia.
A ciência de empreender
No coração do país, onde o concreto modernista de Brasília simboliza planejamento e ousadia, uma nova geração de empreendedores vem redesenhando o futuro a partir da capital. É o caso do Escrita com Ciência, que nasceu da percepção de que transformar boas ideias em projetos estruturados ainda é um dos principais gargalos do empreendedorismo no Brasil, especialmente quando ele surge dentro das universidades. "Nós ainda temos um deficit de letramento científico muito grande. Não adianta abrir editais se as pessoas não foram ensinadas a escrever projetos", afirma o professor universitário e pesquisador Marcos Costa, sócio-fundador da empresa.
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O projeto auxilia estudantes e pesquisadores a tirar (ou colocar) seus projetos de pesquisa do papel, por meio de mentorias, aulas on-line e presenciais, entre outros instrumentos. Está aí o diferencial: aproximar a visão acadêmica da empreendedora. "Elaborar um projeto de pesquisa é, antes de tudo, um exercício de organização do pensamento e da própria lógica do texto científico", explica Erika Gadelha, que também é sócia-fundadora da empresa. Esse pensamento gerou resultados. A iniciativa ganhou prêmios como o 1º Lugar na "Empresa Cria" e 1º Lugar na "Competição de Selos" e venceu a Competição de Pitchs no Like a Boss do Distrito Federal, organizado pelo Sebrae-DF.
Para Marcos Costa, o empreendedorismo contemporâneo exige mais do que inovação: requer capacidade de articulação, clareza e estratégia. "Não adianta ter uma boa ideia se você não consegue comunicá-la", destaca. O professor também chama atenção para o papel de cidades como Brasília nesse cenário. "Estar aqui nos coloca no lugar certo para transformar conhecimento em impacto", observa.
Erika reforça a importância de formar uma nova geração preparada para esse desafio. "Brasília é, talvez, uma das poucas cidades do país onde é possível conectar, no mesmo território, universidade, governo, inovação e impacto social", assinala.

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