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Correio Braziliense

Fiéis de Formosa pedem respostas em manifestação contra padres presos

Cerca de 100 pessoas se reuniram em frente ao Ministério Público da cidade, onde três suspeitos de desviar dinheiro da Igreja Católica prestaram depoimento


postado em 21/03/2018 12:17 / atualizado em 21/03/2018 14:52

Católicos de Formosa relataram estar decepcionados com a revelação do esquema de desvio de dinheiro, que pode ultrapassar R$ 2 milhões(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Católicos de Formosa relataram estar decepcionados com a revelação do esquema de desvio de dinheiro, que pode ultrapassar R$ 2 milhões (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Moradores de Formosa fizeram, nesta quarta-feira (23/3), uma manifestação em apoio às investigações do Ministério Público de Goiás (MPGO) que resultou na prisão de sete religiosos e dois empresários acusados de desviar dinheiro da Igreja Católica. A movimentação começou por volta das 11h e cerca de 100 pessoas se reuniram em frente à sede do MP, pedindo justiça. Três viaturas da Polícia Militar acompanharam o protesto. 
 
A maioria dos participantes era formada por fiéis que se diziam decepcionados com a revelação do esquema, que desviou cerca de R$ 2 milhões, segundo a apuração dos procuradores. O ato ocorreu enquanto três dos suspeitos prestavam depoimento. No momento em que os acusados deixaram o prédio, os fiéis começaram a rezar em uníssono. 
 
 
 
Três vereadores do município também participaram do ato. De acordo com um deles, Genedir Ribas (DEM-GO), 51 anos, um dos organizadores do protesto e membro da Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição, localizada em Formosa, os manifestantes pedem dedicação pelas igrejas. "Precisamos de respostas e que a justiça seja feita", comentou. Genedir ressalta que desde 2015 existem boatos sobre o esquema na cidade, porém os moradores não imaginavam uma proporção tão grande do prejuízo.


Esquema milionário

Nesta segunda-feira (19/3), a Polícia Militar e Civil do estado de Goiás cumpriu 13 mandados de busca e apreensão contra religiosos de Formosa. Por meio da Operação Caifás, foram presos temporariamente o bispo da cidade — e responsável por outras 33 paróquias —, dom José Ronaldo Ribeiro; o monsenhor Epitácio Cardozo Pereira, vigário-geral da Diocese da cidade; os padres e párocos Moacyr Santana, Waldoson José de Melo e Mário Vieira de Brito; o padre e juiz eclesiástico Thiago Wenceslau; o secretário da cúria, Guilherme Frederico Magalhães; e os empresários, acusados de serem laranjas da quadrilha, Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira.

O Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) acusa os religiosos de terem desviado mais de R$ 2 milhões da Igreja Católica desde 2015. A verba seria proveniente de batismos, casamentos, crismas, festividades religiosas, doações e dízimos dos fiéis. Segundo informações da investigação, o montante foi usado para a compra de uma fazenda, uma casa lotérica, dinheiro em espécie e em contas bancárias, computadores, carros e artigos de luxo. 

Na terça-feira (20/3), o Correio noticiou com exclusividade as notas promissórias de uma casa lotérica no município de Posse (GO), no nome do padre Moacyr Santana. O estabelecimento estava no nome dos empresários Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira. Áudios de uma conversa entre os suspeitos apontam que 55% do estabelecimento pertencem ao padre.

Ainda na tarde de terça-feira (20/3), o MPGO começou a escutar os envolvidas no esquema criminoso. Durante a tarde, o padre Waldoson José de Melo, e os empresários Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira prestaram depoimento. Os acusados optaram por deixarem a defesa se pronunciar durante os questionamentos. 
 
Na início da manhã desta quarta-feira (21/3), outros três acusados foram escutados pela justiça. O padre e pároco Waldoson José de Melo e os empresários, indicados como laranjas do esquema criminoso, Pedro Henrique Costa Augusto e Antônio Rubens Ferreira. A expectativa do MPGO é de que até sexta-feira (23/3), todos os nove suspeitos sejam escutados. 

Além dos desvios de dinheiro, gravações de escutas telefônicas, autorizadas judicialmente, foram primordiais para que o Ministério Público pudesse comprovar a conduta do bispo de Formosa, dom José Ronaldo Ribeiro. O documento possui 51 páginas, com conversas dos investigados. Nos áudios, investigadores identificaram a participação de alguns familiares dos sacerdotes católicos, que entraram no esquema como laranjas. Identificou-se que o bispo também solicitava uma parcela do dinheiro desviado nas paróquias para manter os padres nas igrejas,  de acordo com o promotor Douglas Chegury. Em outra conversa, é dito que o juiz eclesiástico Thiago Wenceslau intimidou padres que estavam insatisfeitos com a falta de transparência nos dados das paróquias. 
 
Apesar do escândalo envolvendo dom José Ronaldo Ribeiro, nesta quarta-feira (23/3), foi publicado na página oficial do Vaticano que o religioso continuará como o bispo de Formosa. Durante a ausência do bispo, o arcebispo Paulo Mendes Peixoto, de Uberaba (MG), irá administrar a Diocese da cidade, responsável por 33 paróquias, distribuídas em 20 municípios goianos. 
 
Na tarde de terça-feira, a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) divulgou uma nota, onde pedia que fiés continuassem unidos em oração. Ainda, o texto o secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, pediu justiça durante as investigações.
 

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