
A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos, no dia 3 de janeiro, foi recebida com comemoração cautelosa por venezuelanos que vivem no Brasil. Detido em uma operação conduzida por forças norte-americanas, Maduro foi levado para os EUA, onde permanece preso ao lado da esposa, Cilia Flores, figura central do chavismo. O episódio, considerado histórico por parte da diáspora venezuelana, reacendeu sentimentos de esperança, mas também reforçou o medo, a tensão e a incerteza entre aqueles que deixaram o país fugindo da crise política, econômica e humanitária.
A reação não foi de euforia aberta. Para muitos, a prisão representa o fim simbólico de um ciclo, mas não o encerramento imediato do regime nem a garantia de segurança para quem ficou ou para quem pensa em voltar. Entre os venezuelanos ouvidos pela reportagem, a palavra mais repetida foi "alívio" — quase sempre acompanhada de cautela.
"A gente fica feliz, sim. Muito feliz, porque isso vai ser melhor para a Venezuela", afirma Marylin Vargas, de 38 anos, que vive no Brasil há quase nove anos. Ela chegou ao país fugindo do desemprego, da fome e do colapso do sistema de saúde. "A gente estava ficando magra, todo mundo. Não se alimentava bem. Tinha gente que morria porque não tinha dinheiro para ir ao hospital nem para comprar remédio", lembra.
Marylin diz que o Brasil foi escolhido por ser um dos países mais próximos, mas a adaptação foi difícil. "No começo foi complicado por causa do idioma. A gente fez faxina, trabalhou em restaurante, vendeu água, vendeu dindin. Mas hoje a gente está muito melhor", relata. Mesmo com saudade da Venezuela, ela não se sente segura para retornar de forma definitiva. "Eu gostaria de voltar, sim. Mas a gente fica com medo. Hoje, eu tenho filho. Antes, quando tudo aconteceu, eu não tinha", explicou. Sobre a prisão de Maduro, Marylin afirma que o episódio era esperado havia anos. "Todo venezuelano que está fora e que está lá está feliz pelo que aconteceu. A gente esperava isso há muito tempo. Desde Chávez, o país começou a piorar, mas com o Maduro ficou muito pior", disse.
Para a jornalista venezuelana Gabriela Alvarez, de 54 anos, natural de Los Teques, no estado de Miranda, a captura do presidente não foi motivo de festa, mas de alívio. Morando no Brasil desde 2010, ela acompanhou de perto o enfraquecimento das instituições democráticas e, já fora do país, os protestos e a repressão violenta. "Não foi uma alegria. Foi um alívio", resume. "A gente esgotou todos os mecanismos da democracia: eleições, protestos, referendos. Vimos estudantes sendo mortos, reprimidos pelas forças de segurança. As eleições de julho de 2024 foram a gota d'água", acrescenta. Segundo Gabriela, apesar da prisão, o sentimento predominante é de vigilância. "A gente não sente orgulho de como foi feita a captura, mas entende que era algo que não podia mais ser evitado. Agora, começa um processo muito longo. Foram 26 anos. Isso não se resolve em dois dias", aponta.
Com a família espalhada por vários países — Venezuela, Estados Unidos, Chile, Espanha e México — ela descreve a diáspora como uma experiência de vida fragmentada. "A gente que mora fora tem uma dupla vida. Metade do coração está lá e metade aqui", diz. Ainda assim, vê o momento atual como um marco. "O venezuelano está feliz, porque já não precisa ver o Maduro todos os dias", comentou a jornalista.
Medo permanece
Apesar da comemoração discreta, o medo continua sendo um elemento central entre venezuelanos que vivem fora do país. A reportagem enfrentou dificuldades para recolher depoimentos, já que muitos se recusaram a falar ou aceitaram relatar suas experiências apenas sob sigilo, temendo represálias contra familiares que permaneceram na Venezuela.
Mesmo diante da prisão de Nicolás Maduro, o alívio cauteloso é atravessado por memórias de perda, separação familiar e reconstrução da vida fora do país. É assim que a médica Andrea Perales Albuquerque, 61 anos, que vive em Goiana (PE), descreve o momento. Brasileira e venezuelana, ela afirma que a notícia é difícil de assimilar. "Parece que a ficha ainda não caiu. A gente saiu porque já não dava para viver, porque o trabalho não sustentava mais a dignidade. Falar disso mexe com tudo dentro da gente", relata.
Andrea deixou a Venezuela em 2014 para ingressar no programa Mais Médicos e construiu a vida profissional no Brasil. Para ela, o episódio não representa exatamente uma comemoração. "Existe um sentimento de justiça no que está acontecendo, mas é muito difícil falar em celebração. Ainda há muitas coisas para acontecer, muitos desafios pela frente", diz. A possibilidade de retorno ao país natal segue indefinida. "A gente deixou casa, deixou história, deixou lembranças. Mas meus filhos já não estão mais lá. Uma casa não se sustenta só com paredes, sustenta-se com quem vive dentro. Hoje, meu coração é dividido: sou brasileira, mas também sou venezuelana. O que a gente espera é que esse processo leve, de verdade, à liberdade", contou.
Uma professora universitária venezuelana de 47 anos, que vive no Brasil há cinco, pediu para não ser identificada nem ter sua área de atuação divulgada. "O regime ainda existe. Tenho medo pela integridade da minha família", afirma. Para ela, a prisão de Maduro foi recebida com incredulidade. "Nem a gente acreditava que isso ia acontecer depois de tantos anos", emendou. Apesar da esperança, ela não acredita em uma volta imediata. "Eu quero voltar para reconstruir meu país, com certeza. Mas não agora. Talvez daqui a dois anos, se for seguro", estima a docente.
Outro venezuelano ouvido sob condição de anonimato relata que a tensão atravessa fronteiras. "Mesmo fora, a gente sente que pode ser alcançado. Ainda existem pessoas ligadas ao regime que continuam com poder. Isso assusta", diz. Segundo ele, a notícia da prisão foi comemorada em grupos privados, mas com cautela: "Ninguém quer chamar atenção".
A incerteza também marca o discurso de Rossy Moreno, de 39 anos, professora de ensino fundamental e de inglês clássico, que atualmente vive na Alemanha. Ela passou quase dois anos no Brasil após cruzar a fronteira em 2017, fugindo da falta de trabalho e da escassez de medicamentos.
"Eu não via futuro na Venezuela. A gente trabalhava, trabalhava, e o que ganhava não dava para formar uma família", lembra. Segundo ela, a crise provocou a separação de milhares de familiares. "Não é só a minha. São muitas famílias espalhadas pelo mundo", relata. Sobre a prisão de Maduro, Rossy também adota um tom cauteloso. "Ainda é tudo muito cedo. Maduro não está mais lá, mas outras pessoas continuam governando. A gente não sabe o que pode acontecer", diz. Para ela, o retorno só será possível se houver emprego, segurança, investimentos e serviços públicos funcionando. "Não vai melhorar da noite para o dia", lamenta. Rossy destaca ainda o acolhimento brasileiro como um divisor de águas. "O povo brasileiro abriu as portas quando a gente mais precisava. Desde Pacaraima, a gente se sentiu mais seguro. Isso a gente nunca vai esquecer", enfatizou a professora
Fronteira monitorada
Apesar do impacto simbólico da prisão de Nicolás Maduro, o fluxo migratório entre Brasil e Venezuela segue dentro da normalidade, segundo a Polícia Federal. De acordo com o órgão, não houve aumento significativo nos movimentos de entrada ou saída de venezuelanos nos primeiros dias após o episódio. O principal ponto de contato entre os dois países continua sendo Pacaraima, em Roraima, onde o governo brasileiro reforçou equipes de saúde e segurança como medida preventiva. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a pasta está preparada para ampliar estruturas de atendimento, incluindo a instalação de hospitais de campanha, caso o fluxo migratório aumente.
Em resposta enviada exclusivamente ao Correio Braziliense, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) informou que acompanha de perto os desdobramentos na Venezuela e na região. Segundo o órgão, até o momento não foram observadas alterações expressivas nas fronteiras, mas as cadeias de suprimentos estão sendo reforçadas para garantir assistência humanitária rápida, se necessário.

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