No Brasil, adolescentes e jovens que já convivem com diferentes vulnerabilidades sociais enfrentam um risco ainda maior quando se identificam como pessoas trans. Uma nova análise da Pesquisa Diversidade Jovem Espro/Diverse, divulgada no contexto do Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29/1), evidencia como o preconceito e a exclusão se intensificam para esse grupo.
Os números indicam que a experiência de discriminação entre jovens trans supera a média registrada entre jovens em geral em praticamente todos os espaços analisados. Instituições de ensino aparecem como o ambiente mais hostil: 97% dos jovens trans afirmam já ter sentido ou presenciado preconceito na escola ou na faculdade, enquanto entre os jovens em geral esse percentual é de 78%. Em seguida, surgem o ambiente familiar e os serviços — como transporte, saúde, restaurantes e lojas — ambos com 81% de relatos de preconceito entre pessoas trans.
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Diante desse cenário, estratégias de autoproteção se tornam mais frequentes. A pesquisa aponta que 78% dos jovens trans já esconderam informações pessoais na escola ou faculdade para evitar situações de intolerância, quase o dobro do percentual observado entre jovens em geral (41%). Esse comportamento também aparece no âmbito familiar (72%) e no acesso a serviços (69%), revelando o quanto a necessidade de se proteger atravessa o cotidiano dessas pessoas.
Mesmo com essas estratégias, o impacto emocional e social é profundo. Dois terços dos jovens transgênero (66%) já deixaram de frequentar o ambiente familiar por não se sentirem confortáveis ou seguros, um índice superior ao dos jovens em geral (28%). Além disso, 47% deixaram de acessar serviços e 41% abandonaram, ao menos temporariamente, a escola ou a faculdade por medo de discriminação.
Segundo Andreson Nascimento, especialista em Inteligência de Mercado do Espro, esse afastamento sucessivo de espaços fundamentais tem efeitos duradouros. “Essa exclusão progressiva dos espaços familiares, educacionais e de serviços contribui para que esses jovens se tornem cada vez mais marginalizados, limitando suas oportunidades de desenvolvimento, acesso a direitos básicos e inserção social plena, reforçando um ciclo de vulnerabilidade social e emocional”, afirma.
As barreiras se estendem ao mercado de trabalho. Entre jovens trans, 59% acreditam já ter sido desclassificados de processos seletivos por conta de sua diversidade, frente a 32% entre jovens em geral. Além disso, 63% relatam exclusão de grupos no ambiente profissional, 59% afirmam ter sofrido violência verbal e 41% dizem não ter recebido o devido reconhecimento por ideias apresentadas, o que evidencia obstáculos adicionais à permanência e ao crescimento profissional.
Ainda assim, a pesquisa também revela sinais construção de redes de apoio. O diálogo sobre diversidade está presente no cotidiano de muitos jovens trans: 91% relatam esse tipo de conversa no ambiente familiar, 81% em serviços e 75% na escola ou faculdade. Quando presenciam situações de preconceito, a maioria adota uma postura ativa: 81% oferecem ajuda à vítima, 59% buscam apoio e 53% recorrem a canais de compliance ou ética. Para Nascimento, “os achados mostram que os jovens transgênero adotam uma postura ativa e atuam como protetores em seus ambientes, mesmo diante de riscos pessoais”.
A representatividade na mídia também aparece como um fator relevante de transformação. Para 84% dos respondentes trans, a presença de pessoas trans em espaços de visibilidade contribui para a aceitação pessoal, inspira adolescentes e jovens e amplia referências positivas, fortalecendo o sentimento de pertencimento.
A pesquisa foi realizada por meio de questionário online, com coleta entre 8 de outubro e 7 de novembro de 2025, e contou com a participação de 3.203 jovens de todas as regiões do país. Desse total, 32 se identificaram como transgêneros, cerca de 1% da amostra, proporção próxima à estimativa da população trans no Brasil apontada por pesquisa da Unesp (0,69%). O estudo apresenta grau de confiabilidade de 99% e margem de erro de 2%.
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