TRABALHO

Brasileiros querem CLT, mas mercado empurra para a informalidade

Pesquisa mostra que garantia de direitos é um desejo dos empreendedores; entre os motivos para sair do trabalho formal, estão os baixos salários e exigências abusivas

Basta uma pesquisa rápida nas redes sociais para encontrar algum conteúdo cômico ou irônico sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). As postagens e vídeos fazem com que o trabalhador assalariado se reconheça nos memes. Por outro lado, os trabalhadores no regime de CLT protagonizam posts com termo pejorativo, associada ao trabalho exaustivo e mal remunerado. A transformação de um símbolo da luta dos trabalhadores em um sinônimo de precarização intriga especialistas, que veem novas tendências no mundo do trabalho e no estilo de vida da população. 

Pesquisa encomendada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) à Vox Populi mostra que 53,4% dos entrevistados avaliam que os brasileiros preferem ser empreendedores, enquanto 40,1% apontam que os brasileiros desejam carteira assinada. Levantamento ouviu 3.850 pessoas de forma presencial entre maio e junho de 2025. 

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Embora os resultados demonstrem a valorização do empreendedorismo, trabalhadores demonstram que direitos trabalhistas são um dos pontos prioritários. Entre trabalhadores do setor privado sem carteira assinada, maioria Microempreendedores Individuais (MEIs) ou com contrato via pessoa jurídica (PJ), 56% afirmam que já foram CLT e 59,1% desse grupo aponta que gostaria de voltar ao regime de trabalho. 30,9% afirmam que poderiam voltar a serem celetistas. 

Já entre os empreendedores, 58,9% com certeza não voltaria a ter carteira assinada e 32,7% poderia voltar ou com certeza voltaria.

Para o presidente nacional da CUT, Sérgio Nobre, os resultados refletem um descontentamento com as ofertas de trabalho, mas não com a CLT. “Não é verdade que a classe trabalhadora está acabando”, declara. “O que é grave é que a precariedade do mercado de trabalho está levando as pessoas a empreender”. 

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Nobre destaca os memes e a onda de desinformação sobre a CLT que, para ele, atuam para “demonizar” a proteção ao trabalhador. Ele explica que essa visão sobre os direitos trabalhistas passou a ser difundida nos anos 1990, quando o salário deixou de ser visto como um investimento e passou a ser entendido como um gasto. Mas há um risco associado a essa informalização do mercado de trabalho, segundo o especialista. Nobre alega que a falta de formalização no trabalho afeta as contas públicas e a previdência social. 

Única alternativa

A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), destaca a presença dos “empreendedores por necessidade”, aqueles que tiveram que desenvolver o próprio negócio por falta de alternativas. Segundo a especialista, longas jornadas, altas exigências e salários baixos, além dos descontos na folha de pagamento, contribuem para o crescimento desse nicho. 

“Muitas vezes a escolha por empreender ou ser PL é um jeito de ganhar um pouco a mais”, explica. Desse modo, aponta a especialista, a opção de sair do CLT não significa que o trabalhador não prioriza os direitos, mas uma estratégia de se manter. 

A pesquisa também mostra uma heterogeneidade no mercado de trabalho e um crescimento do salário mínimo que não acompanha o custo de vida. 

Para o entregador Vinícius de Aguilar, 23 anos, a informalidade foi o meio encontrado para se manter e custear os estudos em tecnologia da informação. “O que me fez escolher esse segmento é que eu não tenho curso superior e nenhuma formação que diferencie meu currículo para conseguir algum trampo que pague melhor”, explica. “A maioria esmagadora das vagas de emprego das quais eu tenho chance pagam um salário mínimo e são 6 por 1”. 

O jovem, que já atuou como assalariado três vezes, conta que não teve uma boa experiência. A alta rotatividade, desvios de função e comportamento dos chefes são alguns dos fatores negativos citados. “Eu fiz muitas coisas que estavam fora do escopo do meu trabalho, em um deles, eu trabalhava como caixa, mas eu era estoquista, auxiliar de limpeza, se precisasse pular para a cozinha para ajudar, eu tinha que ir”, conta. 

Mesmo com o amparo legal, Vinicius conta que as demissões eram comuns. “Eu fiz tudo isso e mesmo assim a estabilidade, o fantasma da estabilidade que as pessoas falam não aconteceu. Fui mandado para a rua do mesmo jeito, mesmo me desdobrando, fazendo tudo o que me foi pedido, andando na linha, cumprindo o horário, tudo certinho”, relata. 

Vinicius reconhece as dificuldades do trabalho informal. “Você não tá amparado por nada, é você contra o mundo. Se eu cair e me machucar, é problema meu. Se der problema na minha bicicleta, eu tenho que tirar dinheiro para consertar”, destaca. “Sim, é uma chance de ganhar um pouco mais, mas é nada mais além do que uma chance, ainda recebo pouco, mas recebo mais do que um salário mínimo”. 

Perto de concluir a graduação, o jovem encontrou a verdadeira vocação profissional em uma área bem diferente do TI: a tatuagem. “Eu vejo na tatuagem uma possibilidade de redenção com o mundo do trabalho, de ganhar equivalente ao meu esforço e ver sentido no meu trabalho”, declara. 

Vinícius critica ainda discursos que acusam jovens de não querer trabalhar. “Eu vejo muito o discurso de que tem vaga e falta trabalhador, que as pessoas não querem trabalhar, eu não acredito que seja isso”, afirma. “Elas querem trabalhar, elas precisam trabalhar, mas elas não querem ser enganadas, não querem ser humilhadas, suar muito, ganhar pouco”. 

Novas prioridades

As frustrações com as vagas refletem nos processos de recrutamento e seleção, explica a psicóloga Layana Paiva. “As pessoas se candidatam por necessidade, mas saem rápido ao perceber qualquer desvio de função, sobrecarga ou até mesmo falta de sentido no trabalho”, aponta. “O recrutamento acaba tendo que lidar com um candidato mais cansado, hipervigilante e que, muitas vezes, vê o empreendedorismo como um ‘bote salva-vidas’.”

Segundo a especialista, os trabalhadores não fogem da CLT, mas da exaustão e desvalorização. Essas condições geram um desgaste físico e mental no trabalhador, o que cria a ilusão de que empreender é o melhor caminho. “Quando o trabalhador 'escolhe' empreender, muitas vezes ele está apenas tentando recuperar algum senso mínimo de autonomia psíquica e corporal”, aponta. 

Ela explica que a estabilidade continua sendo um fator determinante, sobretudo para a população com faixas de renda mais baixas. No entanto, ela deixou de se referir apenas à estabilidade financeira, mas também à emocional e psíquica. 

“Quando não há previsibilidade de renda, descanso ou futuro, o corpo não relaxa. Isso impacta sono, digestão, libido, atenção e regulação emocional. Por isso, mesmo trabalhadores que estão fora da CLT expressam, no fundo, um desejo por continência, previsibilidade e proteção”, aponta. “A questão maior é que as pessoas já adoeceram muito em busca da estabilidade e ‘vestindo a camisa da empresa’”. 

Mesmo com o desgaste, o trabalho ainda é visto como meio de satisfação pessoal e ocupa um ponto central na vida das pessoas. “O trabalho ocupa um lugar central na identidade das pessoas, tanto como forma de sentido e propósito quanto como fonte de adoecimento e sofrimento”, aponta. “Isso mostra uma cisão entre o desejo de investir no trabalho e o corpo, que já não acompanha”. 

Segundo a pesquisa encomendada pela CUT, 7 a cada 10 pessoas consideram o trabalho fundamental, enquanto 9 em cada 10 associam à valorização pessoal e 8 em cada 10 reconhecem como fonte de propósito.

Busca pela estabilidade

Para quem busca estabilidade financeira e mais tempo livre, os concursos continuam a ser uma alternativa amplamente buscada. Em 2025, o governo federal registrou 761,5 mil candidaturas para 3.652 vagas no Concurso Público Nacional Unificado (CPNU). A rotina de estudos, no entanto, esbarra nas rotinas exaustivas e o sonho de ser concursado pode demorar mais do que o desejado. 

Talita Magali de Farias, 30 anos, é servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e conta que o processo de preparação foi longo. “Eu achava que ia estudar só um ano, ia passar, ser nomeada e trabalhar. Eu tinha 23 anos e quebrei a cara, não consegui passar nas primeiras provas”, conta.

O vice-reitor do Uniprocessus, centro universitário com foco em gestão pública, Gustavo Castro, destaca a adesão dos mais jovens ao mundo dos concursos. “O mercado de trabalho formal, sobretudo pelas últimas reformas, está ficando muito mais precário. Muitos direitos, que antes pareciam irreversíveis, hoje estão desaparecendo”, explica. 

“Isso leva nossos jovens a procurar novas alternativas: uma é o empreendedorismo, que tem suas mazelas e seus obstáculos, e o outro é o emprego público, porque ainda traz a segurança que no âmbito da CLT hoje pode não ser encontrado”, pontua. 

Castro explica ainda que os certames se tornaram mais complexos nos últimos anos, o que leva pessoas a se prepararem cada vez mais cedo. “Há 10 anos, nossos alunos eram majoritariamente pessoas de mais idade que eram empregados públicos e procuravam uma formação para maior estabilidade, no ano passado, percebemos que a procura por nossos cursos foi cada vez mais de pessoas mais jovens”, comenta. “Tem também alunos que buscam se formar mais rapidamente porque fizeram concurso público que exige curso superior”. 

No caso de Talita, a formação em Química tinha como objetivo o trabalho como perito criminal, plano que se transformou com os anos. Na época, a jovem atuou em empregos temporários e informais, mas continuou com foco nos concursos até a aprovação, em 2022.

Em 2024, concursada e com horários flexíveis, resolveu empreender. Ela abriu a Sala dos Aprovados, um espaço com aluguel de cabines de estudos que funciona 24h por dia. Para ela, o empreendedorismo não surgiu por necessidade, mas como uma forma de complementar a renda e ter mais satisfação profissional. “Eu primeiro fui para o serviço público porque foi o que me deu a base, hoje assim eu posso fazer os compromissos sabendo que eu vou ter salário todo mês”, pontua.

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