Quando a ditadura militar endureceu a repressão no Brasil, nos anos 1970, a carioca Margarida Genevois passou a atuar em uma das principais redes civis de apoio às vítimas do regime. Ontem, a socióloga, reconhecida como uma das figuras mais importantes da defesa dos direitos humanos no país, completou 103 anos. Para ela, apesar dos avanços com a criação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), a tentativa de golpe de Estado, orquestrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, é um dos maiores retrocessos da história recente do país.
Formada em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), Margarida ganhou projeção a partir de sua atuação na Comissão Justiça e Paz (CJP) de São Paulo, criada pelo então arcebispo dom Paulo Evaristo Arns nos anos mais duros do regime dos generais. No espaço, que se tornou um dos principais centros de acolhimento a vítimas da repressão, ela atuou diretamente no registro de denúncias de tortura, desaparecimentos e prisões políticas.
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Lúcida, ela ainda se preocupa com as questões políticas e sociais do Brasil. "A defesa dos direitos humanos faz parte da minha vida desde quando fui convidada pelo arcebispo dom Paulo Evaristo Arns para integrar a Comissão Justiça e Paz, criada por ele em São Paulo, em plena ditadura militar. Na época, o mais importante era conseguir o apoio de advogados corajosos para acompanhar os casos de prisão e tortura, 'desaparecimento' e morte daqueles que contestavam o governo, com risco de vida. 'Direitos humanos' eram direito à vida, a começar pelo acesso à Justiça", afirmou ao Correio.
Margarida citou a importância da busca pela igualdade de direitos para todos, ressaltando que a democracia e os direitos humanos devem ser prioridades, dando como exemplo a tentativa de golpe de Estado, em 2022, orquestrada por Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão. O ex-presidente foi considerado culpado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.
"Houve um brutal retrocesso causado pela vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, defensor da tortura, racista, misógino, inimigo radical dos direitos humanos. Outro retrocesso enorme são as escolas públicas cívico-militares, marcadas pelo autoritarismo", critica.
Ao longo de sua trajetória, Margarida também participou de iniciativas voltadas à formação cidadã e à educação em direitos humanos. Uma das ações mais relevantes ocorreu no fim da década de 1980, quando começaram as primeiras discussões sobre a inclusão do tema nas escolas públicas.
"Em 1987, a CJP iniciou os primeiros encontros para incluir na escola pública a Educação em Direitos Humanos, entendida como formação em valores. O que significa a formação de uma cultura de respeito à dignidade de todo ser humano, o que se consegue por meio de um processo que engloba o reconhecimento, a promoção e a vivência dos valores da liberdade, da justiça, da igualdade de direitos, da solidariedade, da cooperação, da tolerância e da paz", explicou.
Para a socióloga, a participação política e social da população é fundamental para a construção de sociedades mais justas. Ela disse, ainda, que os jovens precisam se envolver mais e entender o papel que têm na sociedade.
"Aproveitem a energia e a criatividade da juventude para conhecer melhor o país, a cidade, os problemas que existem e como participar das propostas de desenvolvimento em benefício de todos. Entendam que participar da política é mais do que votar — é participar, democraticamente, da construção e da defesa do bem comum. Vocês verão, tenho certeza, que essa participação cidadã faz parte do que chamamos felicidade", destacou.
Guerra e meio ambiente
Ela também faz um apelo às lideranças globais diante dos desafios enfrentados pelo planeta, especialmente em relação às guerras e à crise ambiental. "Nosso planeta está sofrendo. Nossos povos estão sofrendo. A natureza grita. O que vocês estão fazendo? Até quando teremos guerras absurdas, dominação desenfreada dos ricos capitalistas, criação de bunkers em terras de gelo, ao invés de cuidar seriamente do meio ambiente? O que vamos deixar para nossos netos? Direitos humanos incluem o direito à paz. Mas não existe paz sem justiça", frisa.
Sobre o momento atual do país, Margarida afirma que é preciso manter a esperança e o compromisso com a transformação social. "Num país como o nosso, marcado por desigualdades devastadoras, não podemos sucumbir ao pessimismo ou à melancolia dos conformistas — pelo contrário. Pensando na juventude e no futuro, quero afirmar, com o peso dos meus 103 anos, que, sem emoção, alegria, afetividade e senso de humor, não desenvolvemos a crítica criativa nem o ânimo vital para a transformação. Vamos em frente", exorta.
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