TRABALHO

Sonhava vendo TV na vizinha: mineira hoje já visitou 30 países

Sem TV em casa, Miriã Fernandes viajava pelo mundo através da tela da vizinha. Anos depois, o sonho virou profissão e ela cruzou fronteiras

Uma menina que sonhava explorar o mundo enquanto assistia a filmes na televisão na casa da vizinha transformou o desejo de infância em realidade. A mineira Miriã Fernandes, hoje com 52 anos, começou a trabalhar aos 15 em uma pista de patinação em Belo Horizonte e, anos depois, passou a integrar a equipe de turnês do Disney On Ice. Durante mais de uma década, Miriã conheceu 30 países atuando nos bastidores do espetáculo. Entre desafios como o frio, as diferenças culturais e a saudade da família, construiu uma trajetória internacional movida por coragem e determinação.

A história de Miriã começou de forma simples, mas cheia de sonhos. Nascida e criada em BH, ela cresceu em uma família com poucos recursos. Na infância, sem televisão em casa, Miriã encontrou um pequeno portal para o mundo na sala de uma vizinha. Era ali, nas tardes em frente à televisão emprestada, que os olhos daquela menina brilhavam ao enxergar o que ainda não conhecia.

“Quando eu era criança, eu via aqueles lugares na tela e dizia que um dia eu iria conhecer o mundo. Quando eu assistia o meu filme favorito, ‘Castelos de Gelo’, me imaginava naqueles países escandinavos como a Dinamarca, Noruega e Suécia. Eu ia pra Alemanha quando assistia ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’. Já as ‘Aristogatas’ me levava diretamente às elegantes ruas de Londres”, relembra.

A paixão pela patinação no gelo nasceu justamente durante aqueles filmes que não eram apenas histórias — eram passaportes para lugares distantes, que a faziam viajar pelo mundo dentro dos seus próprios sonhos.

Os movimentos dos patinadores, a música e a estética das apresentações despertaram uma conexão imediata com o esporte. Na prática, aquilo parecia muito distante da realidade de Miriã. Mas tudo começou a mudar no início dos anos 1990, quando uma pista de patinação foi inaugurada em um shopping da capital.

Ao saber da novidade, Miriã viu a oportunidade que esperava para realizar um de seus sonhos: patinar no gelo. Havia um obstáculo, o custo. Sem condições financeiras para praticar, ela decidiu dar um jeito de se aproximar daquele universo de alguma forma.

Com apenas 15 anos, tomou uma atitude que mais tarde mudaria seu futuro. “A patinação era um esporte muito caro. Como eu não tinha dinheiro, pensei que se eu trabalhasse lá, poderia patinar de graça”, conta.

A iniciativa deu certo, e ela conseguiu uma vaga. Atitude simples mas ousada, primeiro passo de uma jornada que a levaria à realização de um sonho maior do que imaginava.

Trabalhando na pista do shopping, Miriã passou a conviver com pessoas que compartilhavam da mesma paixão e que, pouco a pouco, influenciariam seu caminho. Entre colegas e amigos, um deles se tornou peça-chave em sua trajetória. Um “amigo-irmão”, como ela define. 

“O Mário Castro se tornou um grande patinador e foi quem me levou para o mundo mágico do gelo e do Mickey Mouse. Por meio dele surgiu a oportunidade que transformaria minha vida: integrar a equipe do Disney On Ice. E o mundo se abriu diante de mim”, recorda.

O espetáculo itinerante no gelo leva personagens clássicos da Disney para apresentações de patinação artística em arenas ao redor do planeta. A estrutura envolve centenas de profissionais, entre patinadores, técnicos, produtores e equipes de apoio responsáveis por garantir que cada apresentação aconteça com precisão.

A partir daí, o sonho de infância daquela pequena menina ganhou forma, cor e movimento. Durante mais de uma década, Miriã viveu uma rotina intensa e fascinante, cruzando fronteiras, enfrentando desafios e acumulando experiências que moldaram não apenas sua carreira, mas também sua visão de mundo. Ao todo, conheceu 30 países — da Europa à América do Sul — incluindo destinos como Irlanda do Norte, Suécia, Noruega, França, Itália, Alemanha, Espanha, Grécia, Bélgica, Argentina e Chile.

Cada lugar trouxe aprendizados únicos, mas também desafios intensos. A primeira viagem como parte da equipe foi um marco inesquecível — e não apenas pelo destino. “Viajei para a Noruega, com o espetáculo do High School Musical. Fazia -18°C. Eu chorei.” O frio intenso parecia testar o corpo e também a coragem de quem havia decidido sair da zona de conforto.

Nos bastidores do espetáculo, Miriã tinha uma missão essencial: fazer parte do setor oficial de souvenirs. Para ela, o trabalho ia muito além da função técnica. “Era responsável pelo atendimento ao público internacional, vendas, organização estratégica de produtos e controle de estoque. Mas, mais do que vender produtos, eu entregava experiências.”

E era exatamente isso que via nos olhos das crianças ao fim de cada apresentação: encantamento puro. “Cada criança que saía dali com um souvenir levava um pedaço daquele momento mágico para casa.”]

A rotina exigia disciplina e muita energia. Os dias eram longos, com preparação antes dos espetáculos, atendimento intenso durante os eventos e organização nos bastidores. “Era mágico e técnico ao mesmo tempo. Cada detalhe era cronometrado. Uma verdadeira aula de excelência. Nos bastidores, tudo precisava ser sincronizado. Cada espetáculo era único. Disciplina, organização, pontualidade e trabalho em equipe eram fundamentais.”

Mas nem tudo mágico. Por trás do brilho, havia desafios profundos — muitos deles invisíveis ao público. “O maior desafio foi sair da zona de conforto. Deixar família, amigos e segurança para enfrentar o desconhecido exige coragem.”

A solidão, o cansaço e as barreiras culturais fizeram parte da jornada. “Nem todos os dias foram fáceis. Houve momentos de medo. O idioma também foi um desafio. Mas, aprendi a sempre ter um plano B, porque nem sempre as coisas saem como o esperado.”

Ainda assim, foi justamente nesses momentos que ela mais cresceu. “Aprendi a ser mais independente, ter confiança e ser resiliente. Cada dificuldade me fortaleceu.”

Mas acima de tudo, teve muita beleza e encantamento. Momentos que ficaram gravados na memória como símbolos de conquista. “A primeira neve foi inesquecível. O primeiro Natal longe da família também. E a cada novo país que eu conhecia era uma sensação de superação.”

Entre todos os destinos, um lugar ganhou um espaço especial em seu coração. “De todos os lugares que conheci, a Irlanda do Norte foi muito especial, principalmente a Calçada dos Gigantes. É um lugar único, impressionante.”

Ao longo das turnês, Miriã também vivenciou o encontro de culturas. Trabalhando com pessoas de diferentes nacionalidades, ela aprendeu lições que vão além do profissional. “Convivi com cerca de 10 nacionalidades diferentes. Com eles aprendi sobre respeito, diversidade e empatia.” Muitas dessas relações ultrapassaram o tempo e a distância. “São amizades que levo para a vida inteira.”

E, como toda jornada intensa, também houve espaço para situações inesperadas. “Tive malas extraviadas, diferenças culturais curiosas e alguns ‘micos’ com idiomas que hoje rendem boas risadas”, conta.

Com o passar dos anos, a menina que sonhava diante da televisão da vizinha se transformou em uma mulher com uma visão de mundo ampla e sensível. “Aprendi que o mundo é grande, mas as pessoas são muito parecidas. Todas querem amor, segurança e oportunidades.”

Durante uma pausa entre turnês, Miriã também teve a oportunidade de trabalhar com o Cirque du Soleil no Brasil. “Essa experiência agregou ainda mais à minha trajetória profissional em grandes espetáculos internacionais.”

Hoje aos 52 anos, Miriã segue colhendo os frutos dessa trajetória. Atuando na área de automóveis, com atendimento exclusivo a clientes estrangeiros, ela utiliza diariamente os idiomas que aprendeu ao longo da vida. “Sou trilíngue. Tudo o que vivi lá fora eu aplico hoje aqui.”

Ela fala português, inglês e espanhol. "Sempre gostei de língua estrangeira, dentro das minhas possibilidades quando dava, eu fazia cursos de inglês, como era muito caro. Mas isso não foi um impedimento para mim. Quando não havia Internet e nem o celular em nossas mãos, eu comprava nas bancas de jornais aqueles cursos que vinham com uma fita k7, e depois foi evoluindo os livros vinham com CD, e assim eu continuava a praticar o meu inglês, com filmes também e músicas."

O Espanhol foi mais na prática, Miriã aprendeu trabalhando durante as turnês com mexicanos, argentinos e espanhóis. "Não precisei de usar livros ou ver filmes. Quando eu não entendia perguntava e pedia para repetirem e falarem devagar, e funcionava."

Apesar de todas as conquistas, ela nunca esqueceu o que a sustentou durante toda a jornada. “Na minha mala, eu sempre levava fé, coragem e fotos da minha família.”

E se há um símbolo que representa tudo isso, para ela, é um personagem que atravessa gerações. “O Mickey me marcou muito. Ele simboliza a magia, a infância e a realização de sonhos.”

Décadas depois, o reencontro com essa vizinha — hoje com 94 anos — trouxe a confirmação de que o sonho havia se tornado realidade. “Ela me disse: ‘Você foi, né, Mirinha?’ E eu respondi: ‘Fui… e muito mais’.”

Mesmo após conhecer tantos países, Miriã ainda mantém novos objetivos. “Tenho vontade de conhecer países da África e o Japão. Ainda há muito para aprender e viver. Quero continuar aprendendo e ampliando minha visão de mundo.”

Ao olhar para trás, ela não vê apenas viagens ou conquistas profissionais — vê uma história de superação. E, ao resumir tudo o que viveu, deixa uma frase que carrega o peso da própria experiência: “Sonhos não têm prazo de validade — basta coragem, fé e atitude para dar o primeiro passo.”

E é essa mensagem que ela deixa especialmente para os jovens. “Abrace as oportunidades que surgirem nas suas vidas. Muitas vezes, o que parece impossível começa com uma atitude corajosa. Não deixem que a realidade atual defina o tamanho do seu sonho.”

Para Miriã, o segredo não está na sorte, mas na disposição de agir. “Sonhos não têm CEP, não têm classe social e não têm prazo de validade. Eles precisam apenas de coragem, disciplina e fé. Nunca pare de sonhar. Porque os nossos sonhos se tornam realidade — depende apenas de você”, finaliza.

 

Bate-bola com Miriâ Fernandes

1. Cidade de que mais gostou.

  • Galway, na Irlanda.

2. País que surpreendeu positivamente.

  • Finlândia.

3. Lugar que não atendeu às expectativas.

  • Lisboa, em Portugal.

4. Cena que nunca vai esquecer.

  • A sensação horrível no museu de Auschwitz (Museu do holocausto na Polônia).

5. Momento mais emocionante da viagem.

  • A primeira vez no Vaticano.

6. Maior perrengue que passou.

  • Quando estava no trem em Madri na Espanha, tive crise de pânico no metrô, pois era a mesma linha onde havia tido um atentado a bomba alguns anos antes.

7. País mais frio que visitou.

  • Noruega.

8. País mais quente.

  • Espanha.

9. País que tem a cultura mais diferente da brasileira.

  • Lituânia.

10. Lugar mais bonito que conheceu e todo mundo deveria conhecer.

  • A calçada dos Gigantes, na Irlanda do Norte.

11. Cidade em que você moraria.

  • Estocolmo, na Suécia.

12. Cidade em que não moraria de jeito nenhum.

  • Auschwitz, na Polônia.

13. Prato típico de que mais gostou.

  • Goulash (Gulyás), o ensopado clássico húngaro

14. Prato mais estranho que experimentou?

  • Feijão doce (baked beans), tradicional da Inglaterra

15. Culinária mais gostosa.

  • Francesa, sem sombra de dúvida.

16. Lugar mais caro que visitou.

  • Suíça, nem queira tomar um cafezinho na rua.

17. Lugar mais barato que visitou.

  • Polônia.

18. Melhor lembrança que trouxe na mala.

  • A cultura. O que adquirimos, ninguém nos tira.

19. Lugar para onde voltaria hoje sem pensar.

  • Irlanda.

20. Qual lugar parecia cenário de filme.

  • O norte e nordeste da Inglaterra. Oxford a cidade no sul da Inglaterra é um filme

21. Já pagou mico em algum país? Qual?

  • Na Suíça peguei um ônibus na direção errada e voltei para França. Era como se fosse de BH até Contagem.

22. Algum país parecia “outro planeta”?

  • A Noruega em algumas partes parece outro planeta, principalmente no inverno.

23. Um pôr de sol inesquecível.

  • Na Finlândia. Eu fiquei impressionada com as pessoas saindo para a rua ver o pôr do sol que é muito raro.

24. Melhor comida de rua que provou.

  • Na Alemanha. Eles fazem umas salsichas com um molho delicioso.

25. Se pudesse reviver um único dia dessas viagens, qual seria.

  • A primeira viagem, quando pisei em Oslo, na Noruega.

26. País que quer muito conhecer.

  • Japão.

*Estagiária sob supervisão do editor Benny Cohen

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