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Transplante de órgãos no Brasil: entre o recorde e o receio

Em 2025, foram realizados cerca de 31 mil procedimentos, um crescimento de 21% em relação a 2022. Porém, o país ainda convive com a resistência das famílias. Dados mostram que 45% delas não autorizam a cessão depois da morte do parente

O maior problema enfrentado pelo sistema de transplante é a resistência das famílias. As justificativas para recusa vão do medo ao dogma religioso -  (crédito: Divulgação/Governo do RJ)
O maior problema enfrentado pelo sistema de transplante é a resistência das famílias. As justificativas para recusa vão do medo ao dogma religioso - (crédito: Divulgação/Governo do RJ)

O Brasil bateu o recorde histórico de transplantes de órgãos e tecidos, com a doação de aproximadamente 31 mil órgãos em 2025. Isso representa um crescimento de 21% em relação a 2022, quando 25,6 mil órgãos foram doados. Mas, mesmo com aumento, 45% das famílias brasileiras ainda não autorizam o transplante depois da morte.

Segundo o Ministério da Saúde, entre os motivos que levam à recusa da doação, estão a não aceitação do manuseio do corpo, crença religiosa, medo da reação de parentes, desconfiança da assistência médica e a não compreensão do diagnóstico de morte encefálica. Para a presidente do Instituto Gabriel, Maria Inês Toledo, a doação de órgãos ainda é um tabu entre os brasileiros.

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"As pessoas têm medo de conversar sobre o assunto porque sempre associam à morte. A doação de órgãos não é falar sobre a morte, mas falar sobre a continuidade da vida em outras pessoas", observou.

De acordo com o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), responsável por coordenar e monitorar a realização dos procedimentos, na quarta-feira havia 85.009 pessoas esperando por transplante de órgãos e tecidos no país. A doação de órgão só pode ser feita depois de constatada a morte encefálica, geralmente provocada por traumatismo craniano ou derrame cerebral, que é definida como a perda completa e irreversível das funções cerebrais. Pela lei, depois da morte, o órgão só pode ser doado com autorização da família, mesmo que em vida a pessoa tenha demonstrado desejo de ser doadora.

"Para o Estado, não adianta pôr em documento. Mas, hoje, a gente acha que é uma boa saída porque é uma forma de lembrar à família que a pessoa queria ser doadora. Isso ajuda bastante, porque quando a família sabe, ela tende a respeitar a decisão", observa Maria Inês.

Entre os transplantes mais realizados em 2025, estão o de córnea (17.790 procedimentos), de rim (6.697), de medula óssea (3.993), de fígado (2.573) e o de coração (427). O Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por 86% dos procedimentos no Brasil.

Em 2025, o Ministério da Saúde gastou R$ 1,5 bilhão em recursos para o SNT. Em 2022, o investimento foi de R$ 1 bilhão. Além disso, o transporte dos órgãos por companhias aéreas e pela Força Aérea Brasileira (FAB) também cresceu: foram 4.808 voos, um aumento de 22% de 2022 a 2025.

Os números também mostram que a Central Nacional de Transplantes (CNT) viabilizou 867 transplantes renais, 375 hepáticos, 100 cardíacos, 25 pulmonares e quatro de pâncreas. As equipes de captação também cresceram, passando de 1.537, em 2022, para 1.600, em 2026.

Apesar da melhora nos números, Maria Inês avalia que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer. "Apesar de toda a tecnologia, de toda a capacidade do Brasil em fazer transplantes, ainda é um tema muito sensível para as pessoas", avalia.

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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postado em 08/05/2026 03:55
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