CB DEBATE

Desinformação é projeto político de poder e não vai acabar, alerta Fiocruz

Durante evento do Correio, o pesquisador Wagner Vasconcelos apontou o avanço da IA como potencializador de conteúdos falsos e defendeu o diálogo horizontal e a comunicação comunitária para reconstruir a confiança nas instituições

O ceticismo, embora seja um traço positivo de criticidade, tem sido distorcido em um
O ceticismo, embora seja um traço positivo de criticidade, tem sido distorcido em um "relativismo pernicioso", apontou o especialista - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Durante o CB Debate “O impacto da desinformação: da saúde à democracia”, realizado nesta quinta-feira (28/5), o pesquisador e assessor da direção da Fiocruz Brasília, Wagner Vasconcelos, defendeu que a desinformação contemporânea deve ser compreendida como um projeto político e de poder, e não meramente como um erro fortuito.

Segundo ele, existe hoje uma indústria que lucra financeiramente e gera status social a partir da disseminação de conteúdos falsos. Vasconcelos argumentou que a desinformação não será extinta, especialmente com o avanço da inteligência artificial (IA), que tende a tornar essas narrativas ainda mais elaboradas, exigindo da sociedade um constante exercício de senso crítico e estudo.

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O evento, uma realização do Correio Braziliense com promoção da CB Brands, reúne autoridades, pesquisadores e especialistas para discutir como conteúdos falsos ou manipulados têm afetado áreas como saúde pública, ciência, política e democracia.

Para contextualizar o cenário atual, o pesquisador resgatou o conceito de pós-verdade, termo atribuído ao dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, que o utilizou no início dos anos 90 para criticar a cobertura da Guerra do Golfo. Vasconcelos explicou que o prefixo "pós", neste caso, indica a superação ou o declínio do valor da verdade factual.

A característica central desse período é a predominância das emoções e crenças individuais, que passam a se sobrepor aos fatos concretos na formação da opinião pública. Ele citou como exemplo a pandemia da covid-19, momento em que, apesar da produção de dados científicos por instituições como a Fiocruz e universidades, grupos populacionais ignoraram as evidências por não atenderem aos seus apelos emocionais.

O pesquisador alertou que o ceticismo, embora seja um traço positivo de criticidade, tem sido distorcido em um "relativismo pernicioso", gerando um clima de desconfiança sistêmica nas instituições democráticas, incluindo o governo, a política, a imprensa e a própria ciência.

Transparência

Diante da impossibilidade de eliminar a mentira, Vasconcelos propôs caminhos para a reconstrução da confiança, começando pela abertura das instituições ao diálogo horizontal e à criação de espaços legítimos de escuta que vão além de simples pesquisas de satisfação.

Por fim, Wagner destacou a necessidade de uma transparência real nos métodos científicos, permitindo que a sociedade compreenda como uma pesquisa nasce, quais suas motivações e como é conduzida, evitando que os resultados cheguem apenas em linguagens inacessíveis.

Ele enfatizou que o investimento mais crucial deve ser na comunicação comunitária, atuando diretamente nos territórios onde as relações de afeto e confiança são construídas. Para Vasconcelos, o papel das instituições de pesquisa deve ir muito além da tradução de termos técnicos, focando na construção conjunta de conhecimento com a população para impedir que o cenário de desinformação prospere.

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postado em 28/05/2026 12:00 / atualizado em 28/05/2026 12:03
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