CB Debate

Universidade é "infraestrutura democrática de confiança pública", diz professora

Daniela Garrossini, da Universidade de Brasília (UnB), pontuou que as instituições de ensino superior têm papel de "manter vivos os procedimentos de validação do conhecimento"

Garrossini diz que enfrentamento da desinformação não pode depender apenas de uma ação individual, precisa ser assumido como política institucional -  (crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)
Garrossini diz que enfrentamento da desinformação não pode depender apenas de uma ação individual, precisa ser assumido como política institucional - (crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)

A universidade deve ser compreendida como uma “infraestrutura democrática de confiança pública”, avaliou Daniela Garrossini, assessora de comunicação do gabinete da reitoria e professora da Universidade de Brasília (UnB), nesta quinta-feira (28/5), durante o CB Debate “O impacto da desinformação: da saúde à democracia”.

O evento, uma realização do Correio Braziliense com promoção da CB Brands, reuniu autoridades, pesquisadores e especialistas para discutir como conteúdos falsos ou manipulados têm afetado áreas como saúde pública, ciência, política e democracia.

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De acordo com Garrossini, a confiança nas universidades não se sustenta “por reputação ou autoridade formal”, mas “por práticas continuadas, pela transparência, escuta, presença social, responsabilidade pública e abertura ao contraditório”.

“No ambiente digital marcado por essa aceleração absurda, pela fragmentação e disputa permanente pela atenção, a universidade vai preservar uma função essencial: criar condições para que a sociedade interprete problemas complexos, com rigor, memória e contexto. Sua contribuição ultrapassa a produção de pesquisa e a formação profissional. A universidade tem esse papel de manter vivo os procedimentos de validação do conhecimento — a dúvida metódica, a verificação por pares, o debate fundamentado, a revisão crítica e responsabilidade, talvez o papel mais importante, diante das consequências públicas do saber”, observou.

Embora reconheça que as instituições que mediavam a informação para a sociedade, como escola, universidade, imprensa, ciência, o sistema de justiça e as políticas públicas, “nunca foram neutras e nem perfeitas”, a pesquisadora aponta que existiam “procedimentos essenciais para a vida democrática”. “A verificação, a responsabilidade, o contraditório, o método, a evidência e a memória institucional. O ambiente digital reorganizou profundamente essa lógica.”

“Hoje, muitas vezes, a autoridade de uma informação depende muito mais da sua capacidade de circulação do que da sua consistência pública. É nesse ambiente que a evidência perde espaço para o engajamento, a complexidade vai perder espaço para a comoção e a credibilidade passa a disputar lugar com a capacidade de viralização. Esse deslocamento altera profundamente a experiência democrática”, avaliou.

Para Daniela, o ambiente da desinformação ganha força tanto pela capacidade de circulação de conteúdo falso quanto por explorar “fragilidades mais profundas nas formas como produzimos confiança, reconhecemos autoridade e compartilhamos referências em comuns sobre a realidade”.

“A cidadania não se realiza apenas pelo direito de emitir opinião, mas pela existência de condições sociais, técnicas e institucionais que permitam compreender problemas públicos, avaliar evidências, reconhecer fontes confiáveis, participar do debate coletivo de forma qualificada. Quando a visibilidade algorítmica passa a organizar o que aparece como relevante, a esfera pública deixa de ser apenas um espaço de debate e se torna também um território de disputa pela atenção, confiança e interpretação da realidade”, disse.

A especialista ponderou, no entanto, que as instituições precisam se atualizar e não podem “permanecer restritas aos seus próprios circuitos acadêmicos”. É preciso, segundo ela, disputar os espaços públicos, traduzindo conhecimento “sem empobrecê-lo” e dialogando com a sociedade, “sem abandonar a complexidade”.

“O enfrentamento da desinformação não pode depender apenas de uma ação individual, de pesquisadores específicos, em momentos de crise, precisa ser assumido como política institucional”, declarou.

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postado em 28/05/2026 14:07 / atualizado em 28/05/2026 14:12
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