O escritor, professor, psiquiatra e pré-candidato à Presidência da República Augusto Cury afirmou que a sociedade atravessa uma crise emocional marcada pelo excesso de estímulos digitais, pela hiperconectividade e pelo enfraquecimento das relações humanas.
Em entrevista às jornalistas Denise Rothenburg e Ana Maria Campos, no Podcast do Correio, Cury analisou os impactos das redes sociais sobre crianças, adolescentes e adultos, além de comentar educação, saúde mental, política e os riscos da radicalização no mundo contemporâneo.
Segundo Cury, o avanço tecnológico alterou profundamente o funcionamento emocional das pessoas. Para ele, celulares e redes sociais ampliaram a quantidade de informações recebidas diariamente e provocaram uma dificuldade crescente de concentração e aprendizado.
O psiquiatra explicou que a mente humana passou a lidar com um volume de estímulos muito maior do que em gerações anteriores, o que compromete a capacidade de retenção e atenção. "O que aconteceu é que na era digital a quantidade de registro é tão grande que a âncora não se fixa mais", afirmou. "Então, as pessoas têm um deficit de concentração enorme, um deficit de aprendizado."
Durante a conversa, Cury declarou que a chamada "síndrome do pensamento acelerado" tem sido confundida com transtornos de hiperatividade. Segundo ele, muitos jovens apresentam sinais semelhantes ao TDAH sem possuir causas genéticas ou metabólicas associadas ao transtorno.
O psiquiatra criticou diagnósticos precipitados e o uso excessivo de medicamentos para controlar comportamentos ligados à ansiedade e ao excesso de exposição digital. "Estamos na era dos mendigos emocionais", disse. "Hoje todo mundo ficou agitado, tenso, ansioso. Aí, se dá mais tela para se acalmar, aumenta mais a ansiedade e a intoxicação digital."
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Ambiente familiar
O escritor também defendeu mudanças no ambiente familiar. Para ele, pais e responsáveis precisam substituir o excesso de cobranças por diálogo e convivência mais próxima. Cury afirmou que muitos adultos recorrem ao celular para silenciar os filhos, o que intensifica problemas emocionais e comportamentais.
"O que está faltando é fazer coisas lentas com os filhos", declarou. "Ter contato com a natureza, conversar, trocar experiências e ensinar as crianças a lidar com pensamentos perturbadores."
Ao abordar saúde emocional, o psiquiatra afirmou também que escolas e universidades falham ao priorizar apenas desempenho técnico e racional. Segundo ele, estudantes aprendem conteúdos acadêmicos, mas não recebem orientação sobre gestão das emoções, frustrações e conflitos internos. "As escolas são muito cartesianas, racionalistas", afirmou. "Não se ensina o eu pilotando a mente humana."
Superexposição
Cury comentou ainda os efeitos da fama e da exposição pública sobre a saúde mental. Segundo ele, celebridades e figuras públicas enfrentam dificuldades para lidar com pressão, excesso de visibilidade e necessidade constante de aprovação social. "O ser humano não foi feito para ser exposto demais", disse. "A fama não faz bem para a saúde mental se não for bem trabalhada."
Durante a entrevista, o escritor relembrou experiências pessoais e falou sobre espiritualidade. Ele contou que passou muitos anos se declarando ateu até aprofundar estudos sobre comportamento humano e sobre a figura de Jesus Cristo. Segundo Cury, a mudança ocorreu após analisar atitudes descritas nos evangelhos sob uma perspectiva psicológica e humana. "Eu percebi que Ele não é apenas um homem espetacular", afirmou. "Ele é o filho de Deus."
Disputa eleitoral
Ao comentar a disputa eleitoral, Augusto Cury disse que pretende defender o diálogo, reduzir a polarização e estimular a empatia entre diferentes correntes ideológicas. Segundo ele, sua proposta é contribuir para a pacificação do debate público diante do avanço da radicalização política no Brasil e em outros países. "Eu gostaria de ser uma voz da pacificação e uma voz contra a radicalização doentia", declarou. "O presidente é apenas empregado da sociedade."
Ao falar sobre conflitos globais, tecnologia e inteligência artificial, Cury demonstrou preocupação com o crescimento do desemprego, da desigualdade e da instabilidade internacional. Para ele, o avanço da automação exige investimentos em empreendedorismo, educação emocional e inclusão social. "O planeta Terra precisa ser preservado, mas o planeta está colapsado", ressaltou.
Ao longo da entrevista, o escritor defendeu uma sociedade menos acelerada, mais conectada às relações humanas e capaz de valorizar experiências simples. Em sua avaliação, o excesso de estímulos digitais compromete não apenas a saúde mental individual, mas também o diálogo coletivo, a política e a convivência social.
*Estagiária sob a supervisão de Rafaela Gonçalves
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