Um ônibus de viagem e um caminhão carregado de rodas de veículos bateram de frente e se incendiaram, provocando a morte de oito pessoas, deixando 10 feridas e interditando a rodovia BR-251, na altura do km 236, em Santa Cruz de Salinas, no norte de Minas, na madrugada deste domingo (25/5).
- Rodovia da morte: em dois meses, 13 morreram na BR-020 em acidentes com vans
- Como a PRF usa a tecnologia para fiscalizar as rodovias do país
Um dos corpos é de um bebê. A ocorrência engrossa as estatísticas trágicas da rodovia, que vem sendo apelidada de "Estrada do Medo", após seguidos desastres, como o que provocou a morte de seis pessoas de uma mesma família, em 21 de abril, em Salinas, a 72 quilômetros do ponto onde aconteceu o desastre de ontem. A estrada está em processo de concessão, com leilão já realizado e assinatura de contrato prevista para julho.
Todos as vítimas que morreram no acidente de Santa Cruz de Salinas estavam no ônibus e tiveram os corpos carbonizados, segundo informações do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. O acidente gerou um engarrafamento de mais de 15 quilômetros. A carreta seguia no sentido Salinas, enquanto o ônibus tinha Aracaju como destino final.
Após a colisão inicial, houve vazamento de combustível e fluidos inflamáveis, que provocou um incêndio. As chamas se alastraram para os veículos e ameaçavam atingir a vegetação nas bordas da rodovia.
O fogo gerou uma intensa cortina de fumaça escura, comprometendo as condições de visibilidade na pista e provocando risco de explosões. Diante do cenário de perigo, o fluxo viário nos dois sentidos precisou ser bloqueado pelo Corpo de Bombeiros e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Pista molhada
O trecho é íngreme, estreito e em curva escavada entre dois barrancos no corte de um morro. Informações preliminares indicam que a pista estava escorregadia por causa da chuva fina que caía. No fim de uma descida, o motorista perdeu o controle do ônibus, que avançou pela contramão, bateu em um barranco e retornou à pista contrária, batendo de frente com a carreta. Na sequência, os dois veículos pegaram fogo.
Com o ônibus em chamas, só não houve mais vítimas porque o motorista e muitos passageiros do coletivo, em pânico, conseguiram escapar por saídas de emergência. Duas vítimas com ferimentos atendidas pelo Samu relataram que precisaram pular do ônibus. Motoristas de outros veículos nos dois sentidos rapidamente manobraram para se afastar das proximidades do desastre, temendo que o fogo atingisse os carros. Muitos deixaram os veículos na estrada e observaram, de longe, as chamas, enquanto outros ajudaram os feridos que conseguiram escapar.
Os trabalhos das equipes de salvamento se dividiram entre o controle do incêndio e os procedimentos para retirar as vítimas das ferragens e prestar o socorro pré-hospitalar. Os feridos foram atendidos no local e transferidos para unidades hospitalares de pronto-atendimento em cidades vizinhas.
O ônibus da Arca Turismo viajava de São Bernardo do Campo (SP) para Aracaju, com 15 passageiros. Outros já haviam desembarcado ao longo do trajeto: 18 em Cana Verde, no sul de Minas, a quase mil quilômetros do local do acidente, e quatro em Montes Claros, a 250km de distância. A carreta viajava no sentido contrário, com uma carga de sucata que era transportada de Fortaleza para Piracicaba (SP).
Alto risco
A violência do desastre repete a de outras tragédias no mesmo corredor rodoviário, em processo de concessão pelo governo federal. Em sua conta no X, o governador Mateus Simões lamentou o acidente, solidarizou-se com as famílias das vítimas e criticou o governo federal. "Recebo com muita tristeza a notícia da tragédia na BR-251, estrada federal que corta nosso norte de Minas. Minha solidariedade às famílias das vítimas, aos feridos e a todos impactados com esse acidente", disse. E completou: "Quem passa pela BR-251 sabe o risco que é enfrentar essa rodovia todos os dias. O governo federal precisa assumir a responsabilidade e avançar com a duplicação do trecho da BR-251 com a BR-116, para garantir mais segurança e evitar novas tragédias", cobrou o governador.
Em 21 de abril, outro desastre tirou a vida de seis pessoas da mesma família e de um cão de estimação, que viajavam em veículo com placa de São Paulo. O carro de passeio, que ia no sentido da Bahia, chocou-se contra uma carreta no km 164 após invadir a contramão, segundo informações de testemunhas. A carreta havia partido de Lauro de Freitas (BA) com destino a Imbituba (SC).
Apenas três dias antes, em 18 de abril, outra colisão frontal em Grão Mogol, na mesma rodovia, deixou dois mortos e oito feridos, reforçando a periculosidade da via no período recente. Um mês antes, em 21 de março de 2026, dois motoristas morreram em uma colisão entre caminhões no km 273, também em Salinas. Só no feriado prolongado de Tiradentes, os dois desastres registrados na BR-251 mais que dobraram o número de mortes na rodovia de janeiro a fevereiro de 2025 para o mesmo período de 2026, passando de sete para 15, segundo dados da PRF. Em 2025, a Rodovia BR-251 foi a quinta com mais mortes no país, somando 51 óbitos em 271 sinistros e 374 feridos. As quatro primeiras foram as BRs 381, 040, 116 e 262.
O trajeto mineiro da BR-251, considerada uma das rodovias mais movimentadas do país, com um intenso fluxo de veículos de carga, foi concedido à iniciativa privada em leilão em 31 de março deste ano. A vencedora do certame, a EcoRodovias, entretanto, só deverá assumir a gestão em julho, quando o contrato será assinado.
