CRIME ORGANIZADO

Entenda como surgiram Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital

Facções criminosas originadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente, são as principais do país

As duas principais facções criminosas do Brasil, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), se originaram em estados diferentes. No entanto, foram criadas de forma semelhante e, hoje, se destacam das demais dentro do contexto do crime organizado no país.  

Donas de milhares de integrantes e espalhadas por quase todo o território brasileiro, ambas foram criadas dentro do sistema carcerário. Mais antigo, o Comando Vermelho surgiu na década de 1970, no Rio de Janeiro. Em 1993, o grupo que mais tarde seria chamado de PCC, viria a dar os primeiros passos, no estado de São Paulo. 

União nas celas fluminenses originou grupo criminoso em meio à ditadura

No contexto da ditadura militar do Rio de Janeiro, detentos políticos passaram a dividir espaço com presos comuns, no presídio de Ilha Grande. Demandas de melhores condições dentro da prisão acabaram por unir os dois grupos. Ambos se aproveitaram da rota de cocaína vinda da Colômbia para dominar territórios no Rio. A capital carioca se tornou em uma das principais rotas do tráfico. Com o fortalecimento, passou a dominar territórios. 

Os anos 1990 foram tempos de expansão e consolidação. As operações deixaram de se limitar às prisões, e passaram a acontecer por todos os lados da cidade. Com uma estrutura de comando rígida e o aumento do poder de fogo, tornou-se ainda maior nos anos 2000. O tráfico tornou-se, também, de armas, principalmente fuzis, além do já praticado com drogas.

A expansão das atividades aconteceu para quase todos os estados do Brasil, inclusive no Distrito Federal, onde há atividades como as descritas. Há força, também, no Norte, mais precisamente na Amazônia, via rotas fluviais, de acordo com o mapeamento realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/SP). No Nordeste, também existe presença ativa. O grupo tem operações restritas em São Paulo e no Rio Grande do Sul, especialmente por causa da rivalidade com o PCC.

Conforme contou um dos fundadores da facção, William da Silva Lima, o Professor, no livro 400 x 1 - uma história do Comando Vermelho, o grupo foi criado para organizar o espaço carcerário, e criar regras de convivência. No entanto, hoje, é algo muito maior do que isso. 

Em entrevista ao portal BBC, o jornalista Rafael Soares, autor do livro Milicianos: Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele, explica que o CV funciona como um conjunto de franquias. Vários donos de morro formam uma sociedade, onde ninguém manda mais ou menos. Dessa forma, foi possível expandir o grupo pelo país. 

Em São Paulo, jogo de futebol em cadeia no interior deu início às atividades

Também no Sudeste, foi um jogo de futebol entre presos o responsável por iniciar as atividades da que hoje é descrita como a maior facção criminosa do Brasil. Conforme conta o o livro Irmãos: Uma história do PCC, de Gabriel Feltran, durante um campeonato interno de futebol na Casa de Custódia de Taubaté, na cidade de mesmo nome, em 1993, os únicos oito presos nascidos na capital paulista formaram um time para competir. A equipe foi batizada como Comando Capital. 

Depois de conquistar o título e matar um dos jogadores do time rival na decisão, o grupo decidiu manter o grupo para buscar novos objetivos, inclusive, relacionados ao crime. De primeira, a união aconteceu para que os chamados "os da capital" se protegessem de outros detentos, que acusavam os paulistanos de serem "arrogantes".  

O grupo foi mantido às escondidas até que alguns dos membros acabaram transferidos para outros locais. A partir daí, começaram a recrutar milhares de novos integrantes. Uma base de comportamento passou a ser espalhada. Exemplos foram a interdição ao estupro de presos e o fim dos homicídios classificados por eles como "injustos". Outro fator era a união contra adversários detentos, além de policiais e carcereiros. 

Outra questão relevante apontada como responsável por dar origem à facção foi o episódio chamado como o Massacre do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pela Polícia Militar, na Zona Norte paulistana. O grupo original de oito presos já tinha como objetivo evitar abusos do Estado e criar uma espécie de "resistência". Ideia essa que, posteriormente, se espalhou. 

Hoje, o grupo conta com 42 mil membros, e fatura em torno de R$ 1 bilhão por ano, principalmente com tráfico internacional de drogas, segundo relatou o promotor Lincoln Gakiya, responsável por investigações profundas sobre o PCC, ao G1. São 1,6 mil integrantes em 23 países no exterior, com atividades nos cinco continentes do planeta. 

 


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