“Ninguém apanha de graça. O que ela fez para ele chegar nesse ponto?”. “Com certeza a mulher mereceu”. “Pena que não viraram estampa de camiseta”. “Escória da humanidade”. As expressões podem parecer cruéis, é de fato são, mas nem por isso significa que são restritas, ou feitas de forma disfarçadas. Esses são alguns dos comentários reais que aparecem em publicações nas redes sociais de diversos portais de notícias. Nos perfis responsáveis pelo discurso de ódio incessante, imagens de uma vida normal: fotos com a família, crianças no colo, animais de estimação. Mas o que está por trás da violência on-line?
Uma pesquisa da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, analisou os comentários apagados do jornal britânico The Guardian durante quase 20 anos e observou que falas de ódio são publicadas mais rapidamente nas notícias do que comentários sem discurso de ódio. Ou seja, dependendo do tema, uma notícia publicada agora tem grandes chances de receber comentários violentos logo nos primeiros minutos após a publicação.
Para a professora de jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB) e doutora em ciência da informação Márcia Marques, os comentários nas redes sociais de portais de notícia são um reflexo da sensação de impunidade das redes e da atmosfera de ódio que permeia a sociedade.
“É como se a pessoa ficasse invisível”, aponta sobre o comportamento nas redes. “Ela vai lá, ataca, diz o que pensa, porque ela é anônima. Tem gente que acha que as regras ali não são as mesmas que temos na vida real. Você despersonaliza, tira o indivíduo da história. É uma máquina, então posso dizer tudo”.
A despersonalização do indivíduo no ambiente virtual é um dos pontos chave para entender as sessões de comentários, segundo a professora. No dicionário Michaelis, o termo significa “perder a própria personalidade” e “experimentar sentimentos de estranheza em relação a si mesmo, à sua identidade e ao mundo exterior”.
Márcia explica que discursos como misoginia, xenofobia e homofobia ganham força na sociedade quando indivíduos não conseguem enxergar um semelhante no outro. “Essas pessoas podem não ter esse tipo de ação com quem elas acham que se são iguais, mas se elas acham que o próximo é inferior, elas se consideram no direito de fazer isso”, observa.
Ela aponta que as redes sociais, as cidades e o ambiente político colocam em cheque o sentimento de empatia, ou o “se colocar no lugar do outro”.
Reflexo do off-line
A última atualização do portal Ódio ou Opinião, criado pelo Governo Federal, aponta que 2022 foi o ano com mais denúncias relacionadas a crimes de ódio on-line no Brasil. Foram mais de 74 mil casos envolvendo, principalmente, apologias de crime contra a vida e misoginia.
O contexto daquele ano pode ajudar a criar um pano de fundo para o cenário: em 2022, o país e o mundo acabavam de sair de uma pandemia que, além dos milhares de mortos, deixou uma sociedade ainda mais conectada às redes; casos de violência policial e racismo ganharam repercussão nacional, como o assassinato do congolês Moïse Kabagambe, no Rio de Janeiro; a intolerância religiosa virou tema de enredo no carnaval carioca; também foi o ano em que a inteligência artificial passou a fazer parte do dia a dia, com o lançamento do Chat GPT; e as eleições presidenciais trouxeram ainda mais debates para o cotidiano brasileiro.
Márcia Marques destaca que o mundo on-line reage ao que ocorre na vida real. “Você vê que os políticos podem, outras pessoas podem, logo todo mundo também pode cometer esses crimes”, afirma. “Se as grandes lideranças têm esse discurso violento, ele é autorizado na sociedade. Quantas guerras estão acontecendo atualmente no mundo?”.
Em momento de profundas transformações na sociedade, a professora observa que o ódio pode surgir como oportunismo, trazendo a falsa impressão de um ambiente sem regras. “O mundo do trabalho mudou, é uma sociedade em mudança e toda uma atmosfera social que respinga nas redes”, enfatiza.
Responsabilidade e educação
Em 2024, o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) apurou, por meio de uma escuta digital, que 81% dos entrevistados já foram alvo de discursos de ódio, principalmente na internet. Na mesma pesquisa, 52% responderam que já foram alvo de comentários odiosos mais de cinco vezes.
Além das denúncias nas próprias redes sociais, os internautas também podem denunciar conteúdos que violem os direitos humanos pelo Disque 100, um serviço do Ministério dos Direitos Humanos.
Para Márcia, no entanto, a real solução do problema não é simples, e a responsabilização das big techs tende a enfrentar resistência. “Existe toda uma disputa de poder e um jogo político quando você fala sobre regulação das redes”, afirma. “Na foto da posse do segundo mandato de Donald Trump, por exemplo, você vê todos os donos das plataformas ao redor dele”.
A educação e a conscientização, segundo a professora, podem ser caminhos para o combate ao ódio on-line, mesmo que o esforço seja árduo. “Paulo Freire apontava a necessidade de se criar uma sociedade educativa. Isso vai além do ensino nas escolas e chega em uma sociedade se posicionando como educadora”, explica.
Ela utiliza a campanha das faixas de pedestres em Brasília, no fim dos anos 1990, como exemplo de conscientização abraçado pela sociedade. O movimento, que começou com reportagens informativas do Correio, logo ganhou a forma de passeatas pelo respeito às faixas, tomou espaço no debate público e se tornou legislação de trânsito. “Foi uma campanha da própria sociedade. Para romper com o ódio on-line, você precisa de uma educação crítica. Uma sociedade crítica não admite esse tipo de ataque. Mas esse é um caminho dificílimo”.
