Em um cenário internacional marcado pela diminuição dos investimentos em ações humanitárias e cooperação para o desenvolvimento, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) conseguiu ampliar sua atuação no Brasil e alcançar resultados expressivos ao longo de 2025. A organização informou ter impactado positivamente cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes por meio de iniciativas voltadas à saúde, educação, proteção contra violências, acesso à água e saneamento, políticas sociais e resposta a emergências.
Presente no país há mais de 75 anos, o Unicef atua atualmente em mais de 2,2 mil municípios das regiões Norte e Nordeste, além do norte de Minas Gerais e de Mato Grosso, e em oito grandes capitais brasileiras. O trabalho é financiado exclusivamente por doações voluntárias de pessoas físicas, empresas, fundações, institutos e governos, modelo que, segundo a entidade, garante independência e foco na promoção dos direitos de crianças e adolescentes.
De acordo com Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil, os resultados alcançados refletem uma estratégia baseada no fortalecimento de políticas públicas e na construção de soluções que possam ser replicadas em larga escala. Segundo ele, a organização atua em parceria com governos, sociedade civil e setor privado para promover mudanças estruturantes capazes de beneficiar milhões de crianças e suas famílias, especialmente em áreas remotas e em contextos de maior vulnerabilidade.
“O trabalho que realizamos em 2025, só foi possível, mesmo em um contexto global desafiador de cortes de recursos, porque temos hoje cerca de 230 mil brasileiros que doam mensalmente para o UNICEF e cerca de 50 empresas, fundações e filantropos que mantêm parcerias conosco por meio de investimento social privado. São essas pessoas e instituições que têm nos ajudado a avançar, mesmo com os desafios existentes”, detalha Joaquin.
Apesar dos avanços, o representante alerta que os desafios permanecem significativos. Em um contexto de retração global dos investimentos sociais, ele destaca a importância da continuidade do apoio de parceiros e doadores para garantir a redução das desigualdades e a efetivação dos direitos da infância e adolescência em todo o país.
Educação e empregabilidade
Entre as áreas com resultados mais expressivos está a educação. Por meio da estratégia Busca Ativa Escolar, mais de 623 mil crianças e adolescentes que estavam fora da escola ou em risco de evasão foram identificados e reinseridos no sistema educacional desde a implementação da iniciativa. Somente em 2025, cerca de 10 mil estudantes retornaram às salas de aula.
Outra frente importante foi o programa Trajetórias de Sucesso Escolar, destinado a estudantes em situação de atraso escolar. A iniciativa beneficiou 40 mil alunos em 217 municípios ao longo do ano, além de capacitar mais de 3.100 educadores para atuar no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem.
A inclusão digital também ganhou destaque. O Unicef apoiou 166 mil escolas em todos os 5.570 municípios brasileiros com ferramentas para monitoramento da conectividade e uso de dados na gestão educacional. Mais de 2.200 cidades receberam capacitação para instalação de medidores de conectividade, fortalecendo o acesso à tecnologia no ambiente escolar.
Joaquin explica que, no geral, o maior desafio para que a internet funcione de fato nas escolas mais isoladas não é apenas levar a conexão até elas, mas garantir qualidade, estabilidade e uso pedagógico efetivo dessa conectividade. “Em muitas regiões remotas, ainda há limitações de infraestrutura, como dificuldade de acesso físico, cobertura instável e manutenção dos serviços”, diz.
“Por isso, o trabalho do Unicef vai além de mapear e conectar escolas. Em parceria com o Governo Federal, apoiamos o monitoramento da qualidade da internet e o desenvolvimento de modelos mais eficientes de contratação e gestão desses serviços, buscando soluções que sejam sustentáveis no longo prazo”, explica.
Já na área de empregabilidade juvenil, a iniciativa Um Milhão de Oportunidades (1MiO) ofertou mais de 135 mil oportunidades de trabalho decente em 2025, incluindo vagas de estágio, programas de aprendizagem e empregos formais. A ação contou com a participação de 241 empresas parceiras e governos. No mesmo período, mais de 179 mil jovens receberam certificações em cursos de capacitação e 207 mil estavam cadastrados na plataforma. Desde 2020, o programa já alcançou a marca de um milhão de oportunidades de formação profissional e inserção produtiva.
Saúde e primeira infância
Na área da saúde, o Unicef ampliou a estratégia de Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) em territórios indígenas. Foram capacitados 769 profissionais de saúde e distribuídos mais de 69 mil sachês de micronutrientes para reforço nutricional. Além disso, quase 6 mil gestores, técnicos e secretários municipais das áreas de Saúde, Educação e Assistência Social participaram de processos formativos promovidos pela organização.
Os investimentos na primeira infância também apresentaram resultados relevantes. Entre 2023 e 2025, a estratégia Unidades Amigas da Primeira Infância (UAPI) alcançou mais de 730 mil crianças e acompanhou mais de 67 mil gestantes. Nesse período, as ações contribuíram para um aumento de 40% na vacinação de rotina e de 22% nos registros de amamentação exclusiva até os seis meses de idade.
Em 2025, a iniciativa foi ampliada para nove capitais brasileiras, abrangendo 809 unidades de saúde, 534 unidades de educação infantil e 31 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). O Unicef também consolidou a pauta da Primeira Infância Antirracista como agenda nacional interministerial e formalizou parceria estratégica com a Política Nacional Integrada da Primeira Infância.
Proteção contra violências
A proteção de crianças e adolescentes contra diferentes formas de violência também esteve entre as prioridades da organização. Em 2025, mais de 13 mil profissionais da educação foram capacitados para atuar na prevenção e resposta a casos de violência com base na Lei da Escuta Protegida.
Além disso, 2.462 integrantes da rede de proteção, especialmente da Amazônia e do Semiárido, receberam formação sobre a legislação e o uso do Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (SIPIA). A iniciativa beneficiou indiretamente mais de 236 mil crianças e adolescentes. Atualmente, cerca de 19 mil conselheiros tutelares de 1.455 municípios utilizam a plataforma para registrar e acompanhar casos de violência.
Água, saneamento e clima
As ações voltadas ao acesso à água, saneamento e higiene beneficiaram milhares de crianças em áreas rurais, ribeirinhas e indígenas. Mais de 4 mil meninas, adolescentes migrantes e indígenas participaram de iniciativas de dignidade menstrual. Ao mesmo tempo, cerca de 5 mil estudantes foram atendidos por intervenções estruturais em escolas rurais de Barcarena (PA), escolas ribeirinhas de Manaus (AM) e unidades localizadas no território indígena Munduruku.
Em um ano marcado pela realização da COP30, o Unicef também reforçou sua atuação na agenda climática. A organização participou das negociações e articulações que resultaram no reconhecimento da equidade intergeracional no documento político final da conferência, inserindo de forma mais explícita as necessidades de crianças e adolescentes nas discussões sobre mudanças climáticas.
Joaquin explica que perante todas as limitações dos processos de negociação internacional, inerentes às COPs, o reconhecimento da equidade intergeracional como um princípio da ação climática é um caminho necessário para mobilizar recursos nos diferentes países e atenção para garantir que crianças e adolescentes, inclusive uma criança sofrendo os impactos de um evento extremo hoje, serão protegidas; que haverá recursos para adaptar os serviços essenciais, como saúde, educação, assistência social, saneamento básico, de que meninos, meninas e suas famílias dependem; que as vulnerabilidades, necessidades e potencial específicos desses meninos e meninas serão considerados quando as decisões importantes forem tomadas.
Políticas sociais e participação juvenil
Na área de políticas sociais, mais de mil municípios realizaram autodiagnósticos e receberam capacitação para responder a emergências, em territórios onde vivem mais de sete milhões de crianças e adolescentes. O Unicef também contribuiu para a reforma do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF), beneficiando indiretamente mais de um milhão de crianças e adolescentes.
Outros dois mil profissionais da assistência social foram capacitados em planejamento, monitoramento e avaliação de políticas públicas. Além disso, mais de dois mil municípios passaram a incluir crianças e adolescentes como prioridade em seus Planos Plurianuais, fortalecendo ações de combate à pobreza multidimensional e ampliando a transparência na gestão pública.
O protagonismo juvenil também esteve no centro das ações desenvolvidas em 2025. Cerca de 50 mil adolescentes participaram de atividades promovidas por 1.900 Núcleos de Cidadania de Adolescentes (NUCAs), colaborando diretamente com o planejamento de políticas públicas locais. Mais de 10 mil meninas participaram de iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência de gênero, enquanto 30 mil adolescentes foram mobilizados pela campanha #EntrenoClima.
Outros 20 mil jovens participaram de ações de empreendedorismo e mais de 21 mil receberam apoio psicossocial por meio da iniciativa Pode Falar. Iniciativa essa que, segundo Joaquim, está em negociação com o Governo federal para ser implementada dentro de mais serviços públicos, e possa alcançar mais adolescentes.
Nas respostas a emergências humanitárias, especialmente na Amazônia, em territórios indígenas e na crise migratória da Região Norte, o Unicef manteve uma atuação abrangente. Mais de 2.500 crianças indígenas receberam apoio em saúde mental, enquanto mais de 20 mil pessoas foram beneficiadas por ações de água, saneamento e higiene durante a seca amazônica.
No contexto migratório, em parceria com a Operação Acolhida, mais de 16 mil crianças migrantes e refugiadas receberam apoio psicossocial e educacional em espaços seguros conhecidos como Super Panas. Paralelamente, 9.500 famílias tiveram acesso ampliado a políticas sociais por meio da inclusão no Cadastro Único.
Grande parte desses avanços foi impulsionada pelo início do novo ciclo do Selo UNICEF (2025-2028), que registrou adesão recorde de 2.277 municípios brasileiros, cerca de 40% do total do país. A expectativa da organização é alcançar aproximadamente 17 milhões de crianças e adolescentes até 2028 por meio da iniciativa.
Para o Unicef, os resultados de 2025 demonstram que, mesmo diante das restrições financeiras enfrentadas globalmente, a atuação articulada entre governos, organizações da sociedade civil, setor privado, fundações, filantropos e doadores continua sendo capaz de produzir impactos concretos e duradouros na vida de milhões de crianças e adolescentes brasileiros.
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