NORDESTE

Eventos impulsionam nova fase do turismo em Fortaleza

Congresso reforça o peso da indústria de eventos na economia brasileira, setor que responde por 4,6% do PIB nacional e gera 12,7 milhões de empregos

Setor reúne cerca de 300 mil empresas, e é responsável por aproximadamente 12,7 milhões de empregos no Brasil -  (crédito: Rogério Felipe/Agência Digital Produções/Divulgação COCAL 2026)
Setor reúne cerca de 300 mil empresas, e é responsável por aproximadamente 12,7 milhões de empregos no Brasil - (crédito: Rogério Felipe/Agência Digital Produções/Divulgação COCAL 2026)

Fortaleza —  A capital do Ceará esteve no centro do setor de eventos do continente, e recebeu o 42º Congresso da Associação da Indústria de Reuniões da América Latina (Cocal). A indústria movimentou R$ 813,5 bilhões no país em 2024, equivalente a 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estudo conduzido pelo Sebrae Nacional com execução técnica do Observatório da Indústria do Ceará (Fiec/Senai Ceará), e divulgado no congresso. 

O setor reúne cerca de 300 mil empresas, e é responsável por aproximadamente 12,7 milhões de empregos no Brasil. O levantamento apontou ainda a realização de 10,1 milhões de eventos no país ao longo daquele ano, com cerca de 1,7 bilhão de participações de público. Os dados demonstram a capilaridade de uma atividade que vai muito além dos centros de convenções e auditórios.

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Coordenadora de Parcerias Estratégicas e Incentivos da Embratur, Silvana Gomes destacou que os eventos funcionam como instrumentos de desenvolvimento econômico em praticamente todas as áreas produtivas.

"Eles difundem conhecimento, geram negócios, movimentam cadeias produtivas e mobilizam uma enorme quantidade de serviços e profissionais. É uma atividade estratégica para qualquer destino", afirmou. Ela aponta, ainda, que, no caso de eventos internacionais, especialmente, os visitantes também movimentam o turismo local.

O próprio Congresso é exemplo. Para Fortaleza, o evento teve um significado além da movimentação econômica imediata. A capital cearense disputava originalmente a edição de 2028 , mas acabou antecipando a candidatura após uma articulação considerada decisiva pelos organizadores.

Presidente da Cocal, o mexicano Julio César Bojórquez afirmou que a escolha foi resultado do profissionalismo demonstrado pelo setor de eventos do Ceará.

"Hoje, Fortaleza está no centro da conversa da indústria de reuniões da América Latina, e também do mundo. Nos próximos meses, profissionais de diversos países continuarão falando sobre a cidade e sobre sua capacidade de receber grandes congressos internacionais", disse.

A presidente da Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC Brasil), Enid Câmara de Vasconcelos, também avalia que o congresso marca uma nova etapa para o destino.

“Trazer a Cocal para Fortaleza depois de 34 anos é histórico. Estamos mostrando uma nova Fortaleza, um novo Ceará e um novo Brasil. O turismo evoluiu, a infraestrutura avançou e hoje temos condições de competir com qualquer grande destino latino-americano”, afirmou.

Segundo ela, os efeitos econômicos ultrapassam o setor turístico. “Um evento desse porte impacta toda a cadeia de fornecedores, do hotel ao pequeno comércio. Nenhum outro segmento gera um efeito multiplicador tão forte na economia local quanto os eventos", disse.

Os resultados já aparecem nos indicadores. Dados da Secretaria do Turismo do Ceará mostram que o fluxo internacional registrou crescimento de 27,17% entre janeiro e maio de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Foram 46.046 turistas estrangeiros desembarcando em voos diretos no estado, contra 36.207 registrados em 2025. Em relação a 2024, o aumento chega a 83,63%.

A Europa segue como principal mercado emissor, respondendo por 75,5% dos visitantes internacionais. O avanço também acompanha a ampliação da malha aérea internacional, com novos voos conectando Fortaleza a destinos como Lisboa, Paris, Madri, Buenos Aires, Santiago e Montevidéu.

Secretário do Turismo do Ceará, Gustavo Montenegro avalia que a expansão das conexões internacionais e a atração de eventos caminham lado a lado.

"Uma estratégia complementa a outra. Quanto mais voos internacionais temos, maior é a capacidade de atrair visitantes para eventos, congressos e negócios. E, ao mesmo tempo, os eventos ajudam a justificar a ampliação dessas rotas", afirmou.

Segundo ele, o estado busca consolidar um calendário permanente de grandes encontros para reduzir os efeitos da sazonalidade do turismo.

"A indústria do turismo e dos eventos é fundamental para toda a cadeia econômica do Ceará. O estado tem apoiado eventos de diferentes portes porque entende o impacto positivo que eles geram na ocupação hoteleira, no comércio, na gastronomia e nos serviços", enfatizou.

Transformação

A transformação digital também tem ampliado o alcance e a eficiência da indústria de eventos. Fundada em 2012, em Maceió, a Doity surgiu para atender uma demanda simples de organização de eventos acadêmicos e se tornou uma das principais plataformas tecnológicas do setor no país. Hoje, a empresa atende cerca de 3 mil eventos por mês, já ultrapassou a marca de 300 mil eventos realizados e processou mais de 23 milhões de inscrições em todo o Brasil.

Segundo o CEO e fundador da empresa, Uziel Barbosa, a tecnologia passou a desempenhar papel estratégico na profissionalização do mercado, simplificando processos como inscrições, pagamentos, credenciamento, emissão de certificados e comunicação com participantes. Ferramentas como aplicativos para eventos, sistemas de networking e reconhecimento facial ajudam a reduzir custos operacionais, aumentar a eficiência dos organizadores e melhorar a experiência dos participantes.

Para Barbosa, o avanço tecnológico também potencializa os efeitos econômicos gerados pelos eventos. “O mercado de eventos é um dos que mais movimentam a economia porque ativa diversas cadeias ao mesmo tempo. Um congresso movimenta hotelaria, restaurantes, transporte, comércio e serviços, mas também gera negócios e oportunidades que permanecem muito além dos dias de realização”, afirma. Na Cocal, a empresa foi responsável pela plataforma oficial de inscrições, pelo aplicativo do congresso e pelos sistemas de credenciamento e comunicação utilizados pelos participantes.

Desenvolvimento além da alta temporada

Em Fortaleza, o turismo de eventos é visto como uma das principais ferramentas para manter a atividade econômica aquecida durante todo o ano.

A secretária municipal do Turismo, Denise Carrá, afirma que a cidade vem se preparando há anos para receber encontros internacionais e que a realização da Cocal ocorre em um momento simbólico, quando Fortaleza celebra seus 300 anos.

“Fortaleza já recebe eventos internacionais, mas trazer a Cocal para cá tem um significado especial. Coloca a cidade em uma vitrine internacional e fortalece nossa credibilidade para captar ainda mais eventos de grande porte”, disse.

De acordo com ela, os impactos vão muito além da ocupação hoteleira. “O turista de eventos tem um ticket médio mais alto, permanece mais tempo na cidade e normalmente amplia sua estadia para conhecer o destino. Isso gera mais renda, mais empregos e mais oportunidades para a população", afirmou.

Dados do Observatório do Turismo de Fortaleza mostram que cada R$ 1 gasto por visitantes gera retorno médio de R$ 1,37 para a economia local.

Em 2025, a capital recebeu cerca de 4,1 milhões de turistas, registrando aumento no tempo médio de permanência, que passou de 4,8 para mais de seis dias. No mesmo período, foram realizados mais de 2.080 eventos corporativos, técnicos e religiosos, responsáveis por um impacto econômico direto estimado em R$ 1,17 bilhão, crescimento de 15% em relação ao ano anterior.

“O turismo não é apenas lazer. É desenvolvimento econômico, geração de renda, inclusão social e criação de oportunidades. Quando fortalecemos o turismo de eventos, fortalecemos toda a cidade”, afirmou Carrá.

Um setor que olha para o futuro

Além do impacto econômico, os dados apresentados durante a Cocal mostram que a indústria de eventos também avança em sustentabilidade. Segundo o levantamento nacional, 76% dos eventos realizados em 2024 adotaram práticas de gestão de resíduos e 57% utilizaram materiais sustentáveis em suas operações.

O perfil empresarial do setor também chama atenção: mais de 95% das empresas envolvidas são micro e pequenos negócios, reforçando a importância da atividade para o empreendedorismo brasileiro.

Ao encerrar o congresso, a principal mensagem deixada pelos organizadores foi de reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo Ceará ao longo das últimas décadas.

“Fortaleza tomou decisões importantes para chegar ao patamar atual. Hoje é um destino preparado para competir internacionalmente. O legado deste congresso será colocar definitivamente a cidade entre os grandes polos da indústria global de eventos”, resumiu Julio César Bojórquez.

*A repórter viajou a convite do Cocal 2026. As entrevistas foram feitas antes do defeso eleitoral

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postado em 13/07/2026 03:55
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