
Nesta segunda-feira (27/7), o Brasil celebra o Dia do Motociclista, data que homenageia quem utiliza a moto como meio de transporte, lazer ou como na maioria, trabalho. A comemoração, no entanto, acontece em meio a um cenário preocupante: o país ocupa a terceira posição no mundo em número absoluto de mortes no trânsito, atrás apenas da Índia e da China.
Segundo dados cruzados do estudo Cenário da Mortalidade de Motociclistas no Brasil, do Observatório Nacional de Segurança Viária, e do Atlas da Violência 2026, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a taxa de mortalidade no trânsito passou de 15,8 óbitos por 100 mil habitantes, em 2019, para 18 em 2024, totalizando mais de 38 mil mortes no último ano.
Motocicletas concentram mais de 40% das mortes no trânsito
O levantamento aponta que as motocicletas são o principal vetor de mortalidade no trânsito brasileiro. Em 2024, responderam por mais de 40% das mortes na maioria dos estados brasileiros.
No fim da década de 1990, motociclistas correspondiam a cerca de 3% das mortes no trânsito. Esse percentual passou para 28% em 2012, chegou a 35,3% em 2021 e hoje se aproxima de 40% do total de vítimas fatais. Na prática, cerca de 33 motociclistas morrem todos os dias no Brasil.
Frota cresceu mais rápido que a infraestrutura
O principal motivo apontado pelos pesquisadores é a rápida expansão da frota. Entre 1996 e 2023, o número de motocicletas no país passou de 2,7 milhões para cerca de 34 milhões, impulsionado pelo crédito facilitado para obteção dos veículos, incentivos à produção nacional e pelo menor custo em comparação aos carros.
Além disso, em muitas cidades brasileiras, principalmente no interior, a motocicleta tornou-se alternativa diante da deficiência do transporte público. E todo esse crescimento, não foi acompanhado pelos investimentos em infraestrutura, fiscalização e segurança.
Outro fator apontado é a própria vulnerabilidade da moto.Diferentemente dos automóveis, a motocicleta não possui carroceria, zonas de deformação ou sistemas de proteção capazes de absorver parte do impacto em uma colisão. Estudos internacionais apontam que o risco de morte por quilômetro percorrido pode ser até 20 vezes maior para motociclistas do que para ocupantes de carros.
Moto como ferramenta de trabalho
Os pesquisadores também relacionam o aumento das mortes à transformação da motocicleta em instrumento de trabalho. A expansão dos aplicativos de entrega e de transporte por moto modificou o perfil de circulação desses veículos nas cidades. Para milhares de brasileiros, especialmente os de menor renda, a moto deixou de ser apenas um meio de transporte e passou a representar a principal fonte de renda.
Desafio exige políticas públicas integradas
Os estudos apontam que a posição do Brasil entre os países com maior número de mortes de motociclistas resulta da combinação de diversos fatores: crescimento acelerado da frota, expansão do trabalho por aplicativos, deficiência do transporte público, condução sem habilitação, infraestrutura insuficiente e fiscalização limitada.
Os especialistas defendem que a redução dessas mortes passa por uma estratégia integrada que envolva melhorias na formação de condutores, fortalecimento da fiscalização, investimentos em transporte coletivo, engenharia de tráfego voltada ao controle da velocidade e políticas que reduzam a pressão sobre trabalhadores que dependem da motocicleta para garantir renda.
*Estagiária sob supervisão de Rafaela Soares
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