SAÚDE PÚBLICA

Avanço do câncer: por que seu CEP ainda define a chance de cura

Novo relatório da OMS projeta um futuro com mais casos de câncer; a principal barreira para a cura não é a ciência, mas a desigualdade no acesso

O câncer avança em ritmo acelerado no mundo, e um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a principal barreira para a cura não é a ciência, mas a desigualdade no acesso. A projeção da entidade é que uma em cada cinco pessoas desenvolverá a doença ao longo da vida.

Atualmente, o planeta soma 20,6 milhões de novos casos e 10 milhões de mortes por câncer a cada ano. A previsão é que o número de diagnósticos anuais chegue a quase 35 milhões até 2050. Segundo a OMS, as desigualdades na prevenção, diagnóstico e tratamento permanecem profundas e, em alguns casos, estão aumentando.

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Um mesmo diagnóstico, destinos diferentes

O relatório da OMS revela que o local de nascimento pode definir o prognóstico de um paciente. Em países de alta renda, cerca de 85% das pessoas com câncer de mama ou infantil sobrevivem por pelo menos cinco anos. Nos países mais pobres, essa taxa cai para menos de 30%.

A diferença se repete no acesso a medicamentos e infraestrutura. Apenas de 9% a 54% dos 20 fármacos prioritários para tratar o câncer estão disponíveis em nações de baixa renda, contra até 94% nos países ricos. Além disso, 23 países não possuem sequer instalações de radioterapia.

O impacto financeiro também interrompe tratamentos. Segundo a OMS, em alguns locais, os custos elevados levam até 90% dos pacientes a abandonar a terapia. "Sobreviver ao câncer não deveria ser uma questão de CEP, mas hoje, em grande parte do mundo, ainda é", afirma Mariana Laloni, diretora médica técnica da Oncoclínicas&Co.

O Brasil diante de um cenário decisivo

No Brasil, o desafio se reflete em números do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A estimativa para o triênio 2026–2028 é de 781 mil novos casos de câncer por ano, um aumento de quase 11% em relação ao triênio anterior.

Entre os homens, os tumores mais incidentes serão os de próstata, cólon e reto, e pulmão. Já entre as mulheres, os de mama, cólon e reto, e colo do útero. O avanço do câncer colorretal, inclusive em jovens, e a persistência do câncer de colo do útero, que é evitável, são pontos de atenção.

"O Brasil é um retrato fiel do que o relatório descreve", avalia Laloni. "O crescimento do câncer colorretal em pessoas mais jovens e a manutenção do câncer de colo do útero são sinais claros de onde precisamos atuar: mais rastreamento, mais vacinação contra o HPV e mais informação", destaca a médica.

Quatro em cada dez casos poderiam ser evitados

Apesar do panorama, a OMS aponta que a prevenção é um caminho viável. Segundo a entidade, quatro em cada dez novos casos de câncer estão associados a fatores de risco que podem ser enfrentados, como o uso de tabaco, infecções, consumo de álcool e excesso de peso.

Para Mariana Laloni, essa é a maior oportunidade. "Prevenção não é um discurso genérico: é vacinação contra o HPV, é redução do tabagismo, é combate à obesidade e ao sedentarismo, é rastreamento organizado", defende.

A oncologista reforça que a detecção precoce segue sendo o fator decisivo. “Quanto mais cedo o câncer é descoberto, melhor o prognóstico e maiores as chances de cura. O avanço científico só cumpre seu papel quando chega ao paciente no tempo certo. Por isso a OMS acerta ao lembrar que o combate ao câncer é, ao mesmo tempo, um desafio médico e social”, conclui Laloni.

Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.

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